Neurocientista com 50 estudos defende limite para a inteligência artificial

doenças da cabeça e do cérebro, peças do quebra-cabeça Foto: doenças da cabeça e do cérebro, peças do quebra-cabeça - peterschreiber.media/shutterstock.com

A inteligência artificial não deve substituir o pensamento crítico e a tomada de decisão humana, afirmou a neurocientista cognitiva Heather Collins no 27º Congresso IBGC, realizado no WTC Events Center, na zona sul de São Paulo. A especialista destacou que a delegação irrestrita de tarefas intelectuais para algoritmos enfraquece funções cognitivas essenciais que deixam de ser rotineiramente exercitadas pelos indivíduos.

Na conferência que abriu as atividades na quarta-feira (7 de outubro de 2026), Collins ressaltou que a tecnologia detém um volume massivo de informações e produz retornos com rapidez inédita, mas advertiu que o discernimento moral e analítico continua restrito ao cérebro. “Pensamento crítico será ainda mais importante na era da IA. A tecnologia pode produzir respostas rapidamente, mas cabe ao ser humano questionar, avaliar pressupostos e decidir se uma resposta realmente faz sentido”, declarou a pesquisadora.

Comparação com radares da Segunda Guerra e o papel do julgamento

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Foto: inteligência artificial – tadamichi/Shutterstock.com

Para ilustrar a relação correta entre operadores e ferramentas tecnológicas, a neurocientista recorreu à história militar da década de 1940. Naquele período, a implantação de radares alterou os rumos dos combates aéreos na Segunda Guerra Mundial ao identificar aeronaves distantes, mas o equipamento dependia exclusivamente da avaliação humana para determinar se o ponto luminoso na tela era uma ameaça real ou um alarme falso.

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Segundo Collins, o mesmo dilema operacional se repete diariamente nas organizações modernas quando líderes corporativos e equipes técnicas consomem dados mastigados por modelos generativos sem auditar os parâmetros das respostas. Se o operador do radar julgasse um sinal inofensivo como um caça inimigo, desperdiçaria recursos e tropas; se tratasse um bombardeiro real como interferência comum, milhares de vidas seriam perdidas. Na avaliação da pesquisadora, a inteligência artificial funciona exatamente da mesma maneira, entregando indícios estatísticos cuja responsabilidade final de ação recai sobre quem decide.

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“A IA é fantástica em produzir sinal, mas esse não é o fim da história. Como humanos, é nosso trabalho usar o nosso julgamento e decidir como agir”, explicou a cientista. Ela complementou sua definição sobre discernimento ao afirmar: “O julgamento é tudo o que você já viveu na vida comprimido em um único instante”.

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Como aplicar o método de três etapas diante da inteligência artificial?

A neurocientista estruturou um framework prático para orientar profissionais e executivos na interação cotidiana com plataformas automatizadas. A metodologia prevê uma postura interrogativa constante perante os sistemas de aprendizado de máquina, evitando a aceitação passiva dos resultados computacionais.

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  • Construir: utilizar a inteligência artificial para formular bases iniciais, organizar levantamentos brutos e mapear hipóteses de trabalho preliminares.
  • Desafiar: confrontar as respostas geradas pela máquina por meio de perguntas contrapostas, verificação de dados e checagem de premissas ocultas no texto.
  • Calibrar: ajustar as conclusões aplicando repertório de vivências pessoais, percepção emocional e contexto situacional que os modelos digitais desconhecem.

Neuroplasticidade e os riscos de transferir o raciocínio às máquinas

Doutora pela Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e autora de mais de 50 publicações científicas revisadas por pares, Heather Collins construiu sua carreira acadêmica analisando a cognição de astronautas da Nasa e os impactos neurológicos causados pela doença de Alzheimer. Com base nesse histórico em saúde mental e plasticidade neural, ela alertou que o sistema nervoso reorganiza suas redes sinápticas em conformidade direta com a demanda exigida pelo cotidiano.

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A pesquisadora enfatizou que a facilidade extrema proporcionada por assistentes virtuais convida as pessoas a terceirizarem operações mentais trabalhosas, repetindo o que já ocorreu de forma menos danosa com o uso de sistemas de navegação por satélite em substituição a mapas impressos. No entanto, ceder o raciocínio complexo reduz a retenção de memória e a capacidade crítica de formular julgamentos sofisticados, criando uma dependência perigosa para as estruturas de comando empresarial.

“Seu cérebro opera no princípio do use ou perca: o que você não usa, você eventualmente perderá”, frisou a palestrante. Ela apontou que, dentro de cinco anos, o mercado de trabalho consolidará uma divisão nítida entre profissionais que preservaram a capacidade natural de questionamento e aqueles que se tornaram meros repassadores de comandos automatizados.

Programação e debates do 27º Congresso IBGC em São Paulo

Organizado pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa sob a liderança da diretora-geral Valéria Café, o congresso corporativo colocou a centralidade do fator humano como eixo temático fundamental de seus painéis e conferências técnicas.

  • Tema principal: O ser humano na liderança da transformação, direcionado à conduta ética e tecnológica de gestores.
  • Quarta-feira, 7 de outubro de 2026: abertura oficial e conferência de Heather Collins entre 10h35 e 11h30, seguida de debates sobre governança e sustentabilidade.
  • Quinta-feira, 8 de outubro de 2026: segundo e último dia do encontro empresarial, focado em governança digital, riscos climáticos e diretrizes para conselhos de administração.

A dinâmica interativa realizada durante a apresentação de abertura envolveu testes de percepção com as palavras inglesas plate e petal para demonstrar como cérebros diferentes produzem interpretações distintas a partir de um mesmo estímulo visual. A transcrição integral de todas as dinâmicas interativas de palavras e detalhes complementares das falas de palco permaneceram restritos à cobertura presencial realizada durante as atividades no centro de convenções paulistano.

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