Imagens de abuso infantil geradas por inteligência artificial aumentam 40% no primeiro semestre

Crianças bonitas comendo sanduíches, alimentação Foto: Crianças bonitas comendo sanduíches, alimentação -New Africa/shutterstock.com

A Internet Watch Foundation revelou que imagens de abuso sexual infantil geradas por inteligência artificial aumentaram 40% no primeiro semestre de 2026 em comparação com todo o ano anterior, em levantamento divulgado em Londres. A entidade britânica contabilizou 6.310 arquivos fotorrealistas entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2026, volume superior a todos os registros de imagens estáticas apurados ao longo dos doze meses de 2025.

O monitoramento apontou que meninas representaram 98% das vítimas retratadas quando foi possível identificar gênero e faixa etária por meio das ferramentas de verificação. A chefe de políticas públicas da organização, Hannah Swirsky, afirmou que a responsabilidade cabe aos desenvolvedores: “Cabe às empresas de tecnologia construir ferramentas que não possam sofrer abusos dessa forma. Esse problema foi criado pela tecnologia, e se as empresas não construírem ferramentas seguras desde a concepção”, declarou ela, em tradução livre.

Quais faixas etárias concentram as imagens de abuso na análise da IWF?

inteligência artificial
Foto: inteligência artificial – Summit Art Creations/Shutterstock.com

A apuração da entidade revelou que a concentração do material atinge sobretudo crianças em idade escolar, mas alcança recém-nascidos. Das produções catalogadas com dados etários, a grande maioria dos registros corresponde a vítimas pré-adolescentes, além de centenas de arquivos que simulam crianças em fases iniciais da infância e bebês que ainda não completaram dois anos.

Saiba mais: Proteção digital infantil: pais e escolas devem redobrar atenção contra ameaças online e abuso

  • Meninas: representam 98% dos casos com identificação de gênero e faixa etária
  • Crianças de 7 a 13 anos: respondem por 79% do material analisado, somando 4.903 ocorrências
  • Crianças de 3 a 6 anos: totalizam 1.004 imagens fotorrealistas identificadas
  • Bebês e menores de 2 anos: somam 190 registros catalogados pelos analistas britânicos
  • Total do primeiro semestre de 2026: 6.310 imagens de abuso geradas por sistemas digitais

Produção por inteligência artificial supera os registros consolidados de 2025

O avanço registrado no primeiro semestre de 2026 acelerou o ritmo de expansão do material ilícito sintetizado por computadores. Durante todo o ano de 2025, a entidade britânica havia catalogado 4.512 imagens e 3.440 vídeos enquadrados como abuso infantil produzidos por ferramentas digitais. O volume de imagens estáticas verificado nos primeiros seis meses de 2026 superou essa marca anual inteira em 1.798 ocorrências, evidenciando a facilidade crescente de acesso a programas capazes de transformar fotografias comuns em simulações pornográficas de alta definição.

Veja também: Discord acata determinação da ANPD e suspende transmissões ao vivo no Brasil

Especialistas da organização explicaram que modelos fundacionais e aplicativos de manipulação visual permitem sintetizar rostos a partir de fotografias cotidianas retiradas de perfis públicos, eventos escolares ou registros familiares publicados na internet. Quando o conteúdo falso é colocado em circulação, a remoção integral encontra barreiras técnicas nas plataformas abertas, fazendo com que o material continue sendo replicado em diferentes servidores e realimente bases de dados utilizadas para treinar novos geradores sintéticos sem consentimento das vítimas.

Confira também: ANPD exige suspensão de lives no Discord e plataforma acata no Brasil

Reações institucionais e regras para conter sistemas de inteligência artificial

Em resposta à proliferação de materiais gerados por computador, governos e órgãos reguladores intensificaram medidas jurídicas para responsabilizar desenvolvedores. Na Espanha, o Conselho Assessor Internacional de Inteligência Artificial, presidido pelo sociólogo Manuel Castells, entregou na quinta-feira, 8 de outubro de 2026, o Manifesto de Madri ao ministro para a Transformação Digital e da Função Pública, Óscar López. O texto cobra testes independentes prévios para sistemas voltados a menores e declara que “a autorregulação dessa tecnologia não é suficiente, pois não pode assegurar que se desenvolva em linha com o interesse público”, em tradução livre do espanhol.

Na União Europeia, discussões normativas consolidaram a criminalização do ato de projetar ou adaptar ferramentas algorítmicas voltadas à produção de pornografia não consensual e exploração infantil. O bloco econômico debate a imposição de salvaguardas conhecidas como proteção desde a concepção, que forçam as empresas a bloquear parâmetros técnicos de geração de nudez com crianças antes da liberação comercial de seus modelos computacionais em território comunitário.

Proteção individual contra deepfakes e a legislação brasileira em vigor

A preocupação com a utilização não autorizada de dados biométricos também mobilizou chefes de Estado no continente europeu. Na segunda-feira, 5 de outubro de 2026, a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, protocolou um pedido perante o Escritório de Propriedade Intelectual da União Europeia para registrar sua voz como marca sonora. A solicitação formal inclui um arquivo de áudio de quatro segundos com a frase italiana com seu nome, buscando criar uma barreira jurídica específica contra a proliferação de clones vocais e montagens sem autorização prévia.

No Brasil, a resposta regulatória foi estabelecida pelo Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, sancionado como Lei nº 15.211/2025, que entrou em vigor em 17 de março de 2026. A norma determina que provedores de aplicação na internet adotem salvaguardas estruturais de privacidade e verificação de idade desde a concepção dos serviços. A fiscalização e a aplicação de sanções administrativas cabem à Autoridade Nacional de Proteção de Dados, encarregada de verificar o cumprimento dos padrões técnicos pelas plataformas no território nacional.

O pedido de registro de marca sonora apresentado por Giorgia Meloni ainda se encontra sob processo de exame técnico pelos peritos do órgão europeu de propriedade intelectual, sem homologação definitiva concluída.

Notícias relacionadas