Estudo alerta para riscos da inteligência artificial nas escolas de SP

Alunos em sala de aula, prova, vestibular Foto: Alunos em sala de aula, prova, vestibular - Foto: José Cruz/Agência Brasil

O avanço da inteligência artificial e de plataformas digitais na rede estadual de ensino de São Paulo gera riscos de padronização curricular, vigilância algorítmica e perda da autonomia pedagógica dos professores. O diagnóstico consta em artigo científico publicado no periódico Bakhtiniana pelas pesquisadoras Ana Elisa Sobral Caetano da Silva Ferreira, professora doutora do Instituto Federal de São Paulo no campus Cubatão, e Marina Delege, pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos.

As autoras analisam o modelo de gestão pedagógica estruturado pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, apontando que o ecossistema tecnológico reduz o papel do educador a um mero aplicador de diretrizes padronizadas. De acordo com Ana Elisa Sobral Caetano da Silva Ferreira, que estuda tecnologia e educação desde 2016, a ferramenta não deve subordinar o ensino: “Eu não sou tecnofóbica, eu não sou contra o uso de tecnologia. Eu acho que a tecnologia dentro da escola é essencial, mas ela tem que ter um princípio pedagógico. A gente tem que trazer a ferramenta para servir o pedagógico e não o pedagógico se basear e se estruturar através da plataforma”.

Plataformas digitais integram a rotina da rede paulista

inteligência artificial
Foto: inteligência artificial – tadamichi/Shutterstock.com

O processo de inserção massiva de tecnologias na rotina escolar começou em 2020 com o Centro de Mídias da Educação de São Paulo, criado de forma emergencial durante a pandemia de covid-19 para viabilizar as aulas remotas. A infraestrutura digital, porém, foi mantida e ampliada a partir de 2023, integrando a avaliação discente, o controle de frequência e a distribuição de materiais em dezenas de ferramentas proprietárias e parceiras.

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A gestão escolar no estado consolida os dados operacionais e pedagógicos por meio do painel Super BI – Escola Total, que reúne métricas de desempenho para orientar decisões administrativas e políticas de bonificação da pasta. A rede conecta diferentes aplicações de ensino e apoio:

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  • Diário Digital e Tarefas SP para registro de frequência, acompanhamento escolar e atribuição de atividades diárias
  • Slides e Sala de Aula Virtual para padronização de roteiros didáticos e comunicação direta com as classes
  • Redação SP e Prova SP para correção digital e aplicação periódica de avaliações diagnósticas
  • Leia SP, Education First, Alura, Khan Academy, Matific e Elefante Letrado para trilhas complementares de leitura, idiomas, exatas e lógica
  • EFAPE, SOU e Apoio Presencial para suporte à formação continuada e gestão interna das equipes

Como a inteligência artificial afeta a autonomia do professor?

A padronização das aulas gerada por algoritmos compromete a capacidade do professor de adequar o ritmo pedagógico à realidade socioeconômica e às dificuldades individuais dos estudantes. Para a pesquisadora Ana Elisa Sobral Caetano da Silva Ferreira, cada sala de aula exige um trabalho pedagógico artesanal que sistemas automatizados não conseguem suprir em ambiente coletivo: “Cada turma é uma pequena comunidade que precisa de uma personalização de ensino que não é a plataforma que vai fazer. A plataforma vai massificar. O professor é um curador, ele vai entender essa troca e ele vai adaptar aquele conteúdo para as necessidades de cada turma”.

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Outro agravante identificado pelo estudo é o impacto do excesso de tempo de tela sobre a capacidade cognitiva e a socialização dos jovens. Segundo a professora do IFSP, o uso contínuo de mecanismos automatizados enfraquece a formulação do pensamento independente: “A escola é muito mais do que o conteúdo em si. A escola também é um lugar de socialização. Então assim, o maior perigo é a gente ficar cada vez mais treinando aquele aluno para pensar por meio das telas. A gente tem que mostrar ao aluno o quanto essa inteligência artificial vai consumir de recurso do meio ambiente, o quanto ela vai se tornar uma bengala para esse aluno não pensar, só conseguir formular através desse, dessa plataforma”.

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O estudo acadêmico, intitulado “Os impactos da Inteligência Artificial (IA) na Educação do Estado de São Paulo: um estudo discursivo-midiológico acerca da autoria e autonomia docente”, também levanta dúvidas sobre direitos autorais. Em 2024, a pasta estadual propôs usar o ChatGPT para aprimorar planos de aula criados anteriormente por professores, situação que gerou contestações sobre a apropriação do trabalho docente por bancos de dados corporativos sem salvaguardas explícitas aos autores originais.

Validação da Seduc-SP e tramitação de limites legais à inteligência artificial

Em resposta aos questionamentos, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo declarou que adota a inteligência artificial apenas como ferramenta de apoio ao trabalho docente para obter maior eficiência técnica e editorial. A secretaria informou que os materiais são desenvolvidos pela Diretoria de Materiais Didáticos, setor que reúne mais de 100 especialistas de diferentes disciplinas. A Seduc-SP sustentou que os conteúdos elaborados com auxílio de sistemas de inteligência artificial passam por pelo menos 3 etapas de análise, curadoria e validação curricular, além de revisões textuais e verificação de direitos autorais antes da aplicação em sala.

No âmbito legislativo, as tentativas de frear a substituição de materiais tradicionais por ferramentas digitais geraram propostas no Congresso Nacional com debates ao longo dos últimos anos:

  • 2020: Criação do Centro de Mídias da Educação de São Paulo durante as medidas restritivas da pandemia
  • 2023: Intensificação da obrigatoriedade do uso de aplicativos e sistemas digitais nas salas de aula paulistas
  • 3 de maio de 2024: Apresentação do Projeto de Lei nº 305/2024 na Câmara dos Deputados para vetar a inteligência artificial como parâmetro na elaboração de material didático
  • 21 de agosto de 2026: Publicação eletrônica antecipada da pesquisa das professoras Ana Elisa e Marina Delege
  • 9 de outubro de 2026: Disponibilização da edição v. 21 n. 3 da revista Bakhtiniana com o estudo completo

O andamento legislativo atualizado do Projeto de Lei nº 305/2024 nas comissões temáticas da Câmara dos Deputados não foi detalhado. Para as autoras do estudo, o debate permanece urgente nas redes estaduais, ressaltando a pesquisadora Ana Elisa Sobral Caetano da Silva Ferreira que o aspecto pedagógico deve prevalecer: “O que não pode faltar dentro da sala de aula é um debate crítico sobre o uso de inteligência artificial”.

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