Pesquisadores da Colorado State University (CSU), universidade pública dos Estados Unidos, comprovaram que elefantes-africanos selvagens (Loxodonta africana) se dirigem uns aos outros por meio de chamados individualmente específicos que funcionam como nomes próprios. O estudo analisou gravações acústicas coletadas no Quênia e demonstrou que os animais emitem sinais vocais para chamar companheiros sem depender de imitação da voz do destinatário.
Publicado em 10 de junho de 2024 na revista científica Nature Ecology & Evolution, sob o título “African elephants address one another with individually specific name-like calls” (“Elefantes-africanos dirigem-se uns aos outros com chamados individualmente específicos semelhantes a nomes”, em tradução livre), o trabalho teve a parceria das organizações Save the Elephants, ElephantVoices e Amboseli Elephant Research Project. “Esta pesquisa não apenas mostra que os elefantes usam vocalizações específicas para cada indivíduo, mas que eles reconhecem e reagem a um chamado que lhes é dirigido, ignorando aqueles que são dirigidos a outros. Isso indica que os elefantes conseguem determinar se um chamado é destinado a eles apenas ouvindo o som emitido, mesmo quando fora de seu contexto original”, afirmou Michael A. Pardo, autor principal do estudo, ecologista comportamental e pesquisador de pós-doutorado na Colorado State University e no Cornell Lab of Ornithology.
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Aprendizado de máquina analisou 469 chamados de elefantes-africanos
Para investigar se as vocalizações continham identificadores individuais, a equipe científica utilizou um modelo de aprendizado de máquina, ramo da inteligência artificial que identifica padrões em grandes volumes de dados. O algoritmo processou a estrutura acústica de gravações feitas na natureza e previu corretamente para qual elefante o chamado era direcionado em 27,5% dos casos apenas com base no áudio, um índice de acerto superior ao que seria registrado pelo acaso.
Os sons avaliados pelos pesquisadores são chamados de baixa frequência conhecidos em inglês como “rumbles” (roncos). Esses sinais acústicos dividem-se em três subcategorias: roncos de contato, utilizados pelos animais quando estão a longa distância; roncos de saudação, emitidos quando os integrantes do grupo estão próximos; e roncos de cuidadores, empregados por fêmeas adultas ou adolescentes ao cuidar de filhotes. O levantamento do grupo liderado por Michael A. Pardo e pelo coautor Kurt Fristrup, pesquisador do Departamento de Engenharia Elétrica e de Computação da Colorado State University, reuniu os seguintes números e parâmetros de campo:
- 469 vocalizações distintas de baixa frequência analisadas pelo modelo computacional;
- 101 elefantes emissores únicos registrados no conjunto de gravações;
- 117 elefantes destinatários únicos identificados nas interações sonoras;
- 27,5% de taxa de acerto do algoritmo ao apontar o receptor do som apenas pela estrutura acústica;
- 17 elefantes selvagens submetidos a testes diretos de reprodução sonora no ambiente natural;
- Reservas Nacionais de Samburu e Buffalo Springs e Parque Nacional de Amboseli, no Quênia, como áreas de coleta;
- Volume 8, páginas 1353 a 1364 da edição de julho de 2024 da revista Nature Ecology & Evolution como registro formal da publicação.
Testes de som com 17 elefantes-africanos no Quênia confirmaram reação
A etapa de validação das conclusões obtidas pelo computador ocorreu diretamente na savana queniana por meio de experimentos de reprodução sonora, técnica conhecida na pesquisa comportamental como playback. Os cientistas instalaram alto-falantes e tocaram gravações para 17 elefantes selvagens em dois cenários: primeiro, reproduziram chamados que haviam sido originalmente direcionados àquele indivíduo específico; depois, como controle científico, tocaram gravações do mesmo emissor, mas que tinham sido destinadas a outro integrante da população.
O comportamento observado em campo confirmou os cálculos do modelo computacional. Quando os elefantes-africanos ouviam as gravações com os chamados originalmente destinados a eles próprios, reagiam com mais intensidade, aproximavam-se mais rápido da caixa de som e emitiam vocalizações em resposta ao áudio. Por outro lado, diante dos sons de controle que haviam sido dirigidos a outros companheiros de grupo, os animais ignoravam a transmissão ou apresentavam reações fracas, demonstrando reconhecer quando uma mensagem sonora era endereçada especificamente a eles.
Comunicação dos elefantes-africanos difere de golfinhos e papagaios
Antes dessa comprovação com os mamíferos terrestres no Quênia, a ciência já documentava que outras espécies animais conseguiam chamar indivíduos específicos em seus bandos, mas por meio de um mecanismo acústico distinto. Golfinhos e papagaios, por exemplo, dirigem-se a companheiros imitando o som de assinatura vocal do próprio destinatário. Os elefantes-africanos tornaram-se os primeiros animais não humanos conhecidos por utilizar rótulos vocais arbitrários, criando um som específico para o receptor sem recorrer à cópia da voz dele. “Os golfinhos e papagaios chamam uns aos outros pelo ‘nome’ imitando o chamado de assinatura do destinatário. Em contraste, nossos dados sugerem que os elefantes não dependem da imitação dos chamados do receptor para se dirigirem uns aos outros, o que é mais semelhante à forma como os nomes humanos funcionam”, disse Michael Pardo.
Essa capacidade de atribuir sinais sonoros independentes da imitação exige um processamento abstrato e amplia o alcance das interações dentro das famílias da espécie Loxodonta africana. O coautor sênior do estudo, George Wittemyer, que atua como professor no Warner College of Natural Resources da Colorado State University e presidente do conselho científico da organização Save the Elephants, explicou o efeito evolutivo desse tipo de linguagem. “Se tudo o que pudéssemos fazer fosse emitir ruídos que soassem como aquilo sobre o que estamos falando, isso limitaria enormemente nossa capacidade de comunicação”, declarou Wittemyer. Os dados de campo mostraram ainda que esses chamados com função de nome ocorrem com maior frequência em comunicações a longas distâncias ou quando fêmeas adultas se dirigem a filhotes, além de serem mais utilizados por adultos do que por animais jovens, o que indica que o aprendizado desse repertório vocal pode levar anos.
Gravações de elefantes-africanos entre 1986 e 2022 embasaram a descoberta
Embora o tema tenha voltado a circular em outubro de 2026, a base de dados que permitiu a descoberta publicada em 10 de junho de 2024 reúne décadas de monitoramento contínuo no continente africano, com registros sonoros captados entre 1986 e 2022. O estudo contou com a coautoria de Joyce Poole, diretora científica da organização ElephantVoices, Iain Douglas-Hamilton, fundador da Save the Elephants, e Cynthia Moss, pesquisadora do Amboseli Elephant Research Project, instituições que acompanham populações selvagens no Parque Nacional de Amboseli e nas Reservas Nacionais de Samburu e Buffalo Springs. Nessas áreas protegidas do Quênia, todos os elefantes analisados são monitorados há décadas e identificados individualmente pelos cientistas por meio do formato de suas orelhas, o que permitiu saber com exatidão quem emitia e quem recebia cada ronco gravado ao longo desse período.
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O reconhecimento de que esses mamíferos mantêm redes sociais amparadas por rótulos vocais individuais reforça a necessidade de proteção de áreas territoriais extensas na África contra a degradação ambiental. Apesar da comprovação do uso dos nomes próprios, os pesquisadores apontam que ainda não conseguiram isolar exatamente qual trecho acústico dentro do ronco carrega o nome específico do animal, uma vez que a mesma vocalização transmite simultaneamente múltiplas informações, incluindo identidade, idade, sexo e estado emocional do emissor.
