Horário de verão segue suspenso na temporada 2026/2027 após estudos do ONS e decisão do governo

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Relógio horário de verão Foto: Relógio horário de verão - Foto: chaunpis/istock

O Ministério de Minas e Energia (MME) descartou a retomada do horário de verão para a temporada 2026/2027. Desativada desde 2019, a alteração nos relógios continuará fora de vigor porque a pasta avalia que a medida não representa uma solução estrutural para suprir a demanda de potência do Sistema Interligado Nacional (SIN). Em posicionamento oficial divulgado em setembro de 2026, o órgão informou que a segurança e a confiabilidade do abastecimento elétrico estão preservadas para o próximo ciclo.

A definição do governo federal encerrra as especulações sobre uma eventual mudança nos ponteiros antes do início do período mais quente do calendário. Os estudos prospectivos elaborados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e submetidos ao Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) não apontaram necessidade de implementar a política pública durante o período seco e nos horários de pico de carga. O acompanhamento técnico segue as diretrizes preventivas estabelecidas na Agenda Estratégica Eletroenergética 2026.

O titular do MME, ministro Alexandre Silveira (PSD), sustenta a diretriz de que qualquer alteração na rotina da população exige embasamento estritamente técnico e comprovação de risco energético. Nos ciclos anteriores, o planejamento antecipado e a recuperação dos reservatórios hidrelétricos já haviam permitido ao governo manter os relógios inalterados com base nos relatórios operacionais.

horário de verão
horário de verão – Foto: Rawf8/iStock.com

Para a administração federal, a prioridade do setor elétrico concentra-se na eficiência operacional e na contratação de potência firme, evitando intervenções sazonais que afetam diferentes ramos da economia.

Projeções de carga do ONS e equilíbrio da matriz elétrica em 2026

O diagnóstico do CMSE apoia-se nas condições favoráveis de armazenamento das bacias hidrográficas, que superaram o estresse hídrico registrado na seca severa de 2024 e garantiram estabilidade às principais usinas do país. No Plano da Operação Energética (PEN 2026-2030), apresentado em julho de 2026, o ONS projeta um crescimento de 17,9% na carga de energia entre 2026 e 2030, o que representa uma expansão média de 4,2% ao ano. Na previsão anterior, que ia até 2029, a taxa anual estimada era de 3,4%.

A expansão acelerada das fontes renováveis compensa parte das variações sazonais, com a micro e minigeração distribuída atingindo 18,1% da matriz elétrica e a soma com a geração solar fotovoltaica projetada para alcançar 31,7% de participação até 2030. Paralelamente, manobras operacionais nas hidrelétricas de Itaipu e da bacia do rio São Francisco asseguram a entrega de potência sem exigir o adiantamento dos relógios. Os técnicos destacam três fatores centrais na configuração do sistema:

  • Deslocamento do pico diário de consumo de eletricidade para a faixa das 15h, puxado pelo uso intensivo de aparelhos de refrigeração;
  • Neutralização da economia anual de R$ 400 milhões que a medida proporcionava no passado, devido à mudança no perfil de carga;
  • Ampliação do intercâmbio de energia entre as regiões para evitar sobrecargas na rede de transmissão.

A soma dessas variáveis técnicas fundamenta a decisão governamental de descartar a mudança de horário no ciclo 2026/2027.

Migração do pico de demanda para o período da tarde

A transformação no comportamento do consumidor pesa diretamente nos cálculos do MME e do ONS. Antes concentrada entre 18h e 21h, a demanda máxima diária migrou para o meio da tarde, impulsionada pelo acionamento simultâneo de sistemas de ar-condicionado no comércio e nas residências. Esse movimento reduziu o efeito prático de aproveitar a luminosidade natural no início da noite.

Em fevereiro de 2025, o sistema interligado atingiu a marca histórica de 103.785 megawatts de demanda instantânea às 14h42. Observada de forma consistente desde 2019, essa curva diária esvaziou a lógica original do adiantamento de uma hora. Representantes do comércio e do turismo defendem a retomada do modelo para ampliar a circulação de clientes ao final do dia, mas os levantamentos oficiais apontam neutralidade nos ganhos elétricos para os estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Leia também: Horário de verão segue suspenso em 2026 e 2027 após estudos do ONS e decisão do MME

Trajetória dos decretos presidenciais desde a criação em 1931

A primeira experiência com o adiantamento oficial dos relógios ocorreu no governo do então presidente Getúlio Vargas, por meio do Decreto nº 20.466, com vigência entre 3 de outubro de 1931 e 31 de março de 1932. Aplicada de maneira intermitente ao longo das décadas para enfrentar crises hídricas, a regra passou a ser contínua a partir de 1985 e ganhou calendário fixo em 2008 para as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, vigorando geralmente de outubro ou novembro até fevereiro.

Em abril de 2019, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) assinou o decreto que revogou a aplicação anual da medida, após vigorar pela última vez entre 4 de novembro de 2018 e 17 de fevereiro de 2019. Os relatórios da época demonstraram baixa efetividade na redução do consumo e levaram em conta pesquisas de opinião pública. Desde a revogação, o CMSE revisa os indicadores anualmente, enquanto projetos de lei na Câmara dos Deputados discutem regras para autorizar o recurso em situações de emergência energética.

Despacho de termelétricas e armazenamento em baterias

Para atender às rampas de carga no fim da tarde, quando a geração solar cai rapidamente, o ONS recorre ao despacho de usinas termelétricas flexíveis e à gestão da reserva operativa das hidrelétricas. A estratégia preserva a rotina da população e é acompanhada pela recomendação de leilões de reserva de capacidade na forma de potência. O controle de defluências em usinas como Jupiá, Porto Primavera e Belo Monte também ajuda a reter água nos reservatórios da bacia do Paraná e do Norte.

Outra frente estrutural do governo federal é a realização de leilões de baterias de grande porte, projetadas para armazenar o excedente da geração eólica e guardar a energia solar por até 22 horas para uso noturno. O planejamento operacional contempla ainda três eixos de segurança para a rede:

  • Contratações em leilões de potência para cobrir demandas adicionais de carga;
  • Expansão das linhas de transmissão dedicadas ao escoamento de fontes renováveis;
  • Enquadramento de cargas especiais de consumo contínuo, a exemplo de grandes datacenters, que possuem baixa flexibilidade operacional.

Vigilância do CMSE sobre o clima e a segurança energética

O monitoramento das condições meteorológicas e hidrológicas ocorre em reuniões mensais e avaliações semanais do CMSE. Na 322ª reunião do comitê, realizada em 5 de agosto de 2026, os técnicos incluíram na agenda uma linha de ação específica para acompanhar os efeitos do fenômeno climático El Niño e de ondas de calor sobre o sistema.

A política permanece sob avaliação periódica porque a transição energética e as mudanças climáticas exigem revisão constante das margens de segurança. Enquanto o debate divide a população entre os que preferem a luz natural estendida no fim da tarde e os que rejeitam a alteração biológica do sono, a pasta reafirma que qualquer revisão futura dependerá exclusivamente de critérios técnicos de suprimento.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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