Ações da Netflix despencam após corte na projeção de receita e queda de audiência

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Netflix, dólar - izzuanroslan / Shutterstock.com Foto: Netflix, dólar - izzuanroslan / Shutterstock.com

Os papéis da Netflix recuaram quase 5% nas negociações desta quarta-feira (21) em Nova York, nos Estados Unidos, após a empresa revisar para baixo sua meta de faturamento com anúncios para 2026 e projetar desaceleração nas receitas do quarto trimestre. Se o ritmo de perdas da sessão se mantiver, a plataforma de streaming pode perder cerca de US$ 13,4 bilhões em valor de mercado, acumulando uma desvalorização superior a 26% no ano.

A reação negativa dos investidores ocorreu um dia depois da divulgação do balanço financeiro do terceiro trimestre, apresentado na noite de terça-feira (20). Na ocasião, a companhia reduziu sua previsão de receita publicitária para o acumulado de 2026 de cerca de US$ 3 bilhões para aproximadamente US$ 2,7 bilhões, atribuindo o corte ao ritmo de implementação mais lento do que o esperado em recursos de seus produtos voltados a anunciantes.

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Mais de 20 corretoras cortaram seus preços-alvo para os papéis da empresa (negociados sob o código NFLX) após a divulgação do relatório, de acordo com dados compilados pela provedora de informações financeiras LSEG. Analistas da consultoria Evercore ISI resumiram o momento da companhia em nota enviada ao mercado: “O crescimento claramente desacelerou na Netflix”.

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Balanço da Netflix no 3º trimestre e metas para o fim de 2026

Entre julho e setembro de 2026, a receita total da plataforma cresceu 11,8% na comparação com o mesmo intervalo de 2025, número em linha com o esperado por Wall Street, mas que marcou o menor avanço trimestral da empresa em quase três anos. Já o lucro líquido superou os US$ 2,55 bilhões registrados no terceiro trimestre do ano anterior, impulsionado pela contenção de gastos operacionais.

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Foto: Netflix -Wirestock Creators / Shutterstock.com

Segundo o estrategista-chefe da corretora Avenue, William Castro Alves, “parte do crescimento do lucro veio de uma melhora no controle de despesas, e não necessariamente de uma aceleração do crescimento da receita”. Já o analista sênior da empresa de pesquisa Emarketer, Ross Benes, avaliou, em tradução livre, que “com a Netflix sob pressão para encontrar linhas alternativas de receita além das assinaturas, é preocupante que a empresa tenha reduzido sua estimativa para o negócio de anúncios”.

Os números fechados do terceiro trimestre e as novas projeções financeiras divulgadas pela sede da empresa em Los Gatos, na Califórnia, estabelecem o seguinte quadro para o restante de 2026:

  • Receita no 3º trimestre de 2026: US$ 12,87 bilhões (crescimento anual de 11,8%).
  • Lucro líquido no 3º trimestre de 2026: US$ 3,66 bilhões, com lucro diluído por ação de US$ 0,87 (acima do consenso de mercado de US$ 0,82).
  • Margem operacional no 3º trimestre de 2026: 34,6% (frente ao índice de 28,2% apurado no mesmo período de 2025).
  • Projeção de receita para o 4º trimestre de 2026: US$ 13,44 bilhões (abaixo das estimativas do mercado, que iam de US$ 13,51 bilhões a US$ 13,52 bilhões).
  • Projeção de lucro por ação no 4º trimestre de 2026: US$ 0,67 (inferior aos US$ 0,73 projetados por analistas).
  • Projeção de receita total para o ano de 2026: US$ 51,1 bilhões (alta anual de 13%, mas abaixo do ponto médio da faixa anterior, que ia de US$ 51 bilhões a US$ 51,4 bilhões), com margem operacional anual estimada em 31,5%.

Demissões na Netflix e trocas na diretoria de conteúdo

O balanço trimestral veio a público em uma semana marcada por cortes de pessoal e mudanças na cúpula criativa da empresa. Na semana anterior à divulgação dos resultados, a plataforma promoveu sua maior rodada de demissões desde 2022, desligando cerca de 1.000 trabalhadores — o equivalente a aproximadamente 6% de sua força de trabalho. A expectativa da própria companhia é que os custos dessa reestruturação tenham um impacto de cerca de 120 pontos-base (1,2 ponto percentual) na margem operacional do quarto trimestre.

Na quinta-feira, 15 de outubro de 2026, a empresa já havia anunciado a saída da diretora de conteúdo (cargo executivo conhecido internacionalmente como Chief Content Officer) Bela Bajaria, que deixou a companhia após quase uma década. Para o lugar dela, foi contratado o ex-executivo da Disney e da Fox Peter Rice. Quatro dias depois, na segunda-feira (19), a plataforma confirmou também o desligamento do chefe da divisão de cinema, Dan Lin.

Em videoconferência com investidores após a apresentação do balanço, o co-CEO (diretor-executivo que divide o comando da empresa com Greg Peters) Ted Sarandos admitiu falhas recentes de execução: “Sei que podemos fazer melhor”. Durante a apresentação dos resultados na terça-feira (20), Sarandos afirmou que a reorganização executiva busca concentrar esforços na produção de filmes e séries de televisão: “Queremos ser o serviço de entretenimento indispensável. O primeiro que os assinantes procuram para uma grande série ou um grande filme, e o último serviço que eles cancelariam”, declarou o executivo, em tradução livre.

Disputa da Netflix com o TikTok e planos para 2027

O relatório da Evercore ISI aponta que a perda de fôlego nas receitas decorre da maturidade do próprio mercado de streaming e da disputa direta por audiência com plataformas pagas e gratuitas, como Amazon, Disney, YouTube e TikTok. Os analistas destacam que a migração de parte do público para vídeos curtos gerados por usuários no TikTok e no YouTube pressiona o modelo de negócios baseado em assinaturas tradicionais, somando-se a tropeços da própria empresa na execução de seu catálogo e à desistência na disputa pela compra da Warner Bros. Discovery no início de 2026 — negócio vencido pela Skydance após a direção da plataforma julgar que o preço deixou de ser financeiramente atraente.

Sem divulgar trimestralmente o total de clientes desde 2025 para priorizar métricas financeiras e de engajamento, a empresa havia encerrado o ano passado com mais de 325 milhões de assinaturas pagas e cerca de 16.000 funcionários em tempo integral. Na carta enviada aos acionistas nesta semana, a administração informou que planeja expandir seu plano mais barato com suporte de anúncios para 15 novos mercados ao longo de 2027, iniciando a ampliação por nove países da Europa em março de 2027.

No curto prazo, o próximo passo da reestruturação interna ocorre na segunda-feira (26), data em que Peter Rice assume oficialmente a diretoria de conteúdo e passa a supervisionar de forma interina a divisão de cinema da companhia até a escolha de um substituto definitivo para Dan Lin.

Thiago Lemos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2020: Formação: Administração.

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