Estudo na Nature revela que pele feminina cicatriza mais rápido

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Ombro de mulher, cicatriz - privetik/ istockphoto.com Foto: Ombro de mulher, cicatriz - privetik/ istockphoto.com

Pesquisadores da Universidade Livre de Bruxelas (ULB), na Bélgica, e da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, descobriram que as células-tronco da pele das fêmeas de camundongos atuam de forma mais sincronizada do que as dos machos, o que acelera o fechamento de feridas logo após uma lesão. O estudo, publicado na revista científica Nature na quarta-feira (14), demonstra que os hormônios sexuais regulam diretamente o comportamento e a divisão celular na epiderme.

A equipe utilizou técnicas de microscopia intravital em tempo real (acompanhamento contínuo de tecidos em organismos vivos) para observar a pele da orelha dos animais. Primeiro autor do estudo e pesquisador da Universidade Livre de Bruxelas, o grupo ficou surpreso ao descobrir fortes diferenças na forma como as células-tronco renovam a pele em fêmeas e machos. Nos primeiros dois dias após um ferimento, as fêmeas registraram atividade de multiplicação celular mais intensa e coordenada para reparar o tecido.

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Funcionamento das células-tronco da pele na renovação entre machos e fêmeas

Pele, corte - ThamKC/ istockphoto.com
Foto: Pele, corte – ThamKC/ istockphoto.com

A epiderme, camada mais externa da pele, passa por substituição constante a partir de células-tronco situadas na sua base, chamada de camada basal. Ao acompanhar individualmente as células-tronco e suas descendentes na pele de camundongos vivos, os cientistas constataram que as células recém-formadas não se convertem de imediato em células maduras; antes disso, elas atravessam um estágio intermediário conhecido como células amplificadoras de trânsito, no qual mantêm uma capacidade limitada de divisão antes de amadurecerem e substituírem o tecido eliminado.

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Nas fêmeas de camundongos, as duas células-filhas geradas a partir da divisão de uma única célula-tronco seguem caminhos sincronizados. Elas voltam a se dividir ao mesmo tempo ou iniciam juntas o processo de diferenciação, que é o amadurecimento celular. Nos machos, as células resultantes da divisão apresentam menor sincronização e adotam comportamentos mais independentes umas das outras.

Durante os testes de cicatrização de feridas nos animais, essa coordenação celular refletiu na velocidade de recuperação do tecido. O fechamento mais rápido das lesões nas fêmeas ocorreu sobretudo nos dois primeiros dias, impulsionado pela ativação precoce das células reparadoras. Com o avanço do processo de cicatrização nos dias seguintes, a diferença de ritmo entre os sexos diminuiu.

Ação da testosterona e do estrogênio nas células-tronco da pele

Para identificar a origem da diferença entre os sexos, os pesquisadores testaram a interferência direta dos hormônios masculinos e femininos na dinâmica da epiderme. Quando os cientistas realizaram a castração de camundongos machos para reduzir a produção de testosterona, as células epidérmicas desses animais passaram a agir de modo semelhante ao observado nas fêmeas. Na etapa seguinte, a administração de diidrotestosterona (DHT), uma forma ativa da testosterona, restaurou o padrão masculino, acelerando o amadurecimento e a saída das células da camada basal.

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O processo inverso foi verificado nas fêmeas submetidas à remoção cirúrgica dos ovários. Sem a produção hormonal ovariana, as taxas de divisão das células-tronco caíram para níveis equivalentes aos dos machos e a sincronização entre as células-filhas foi eliminada. O tratamento posterior com estradiol, um tipo de estrogênio, restaurou a proliferação das células-tronco na pele feminina.

Dados e autoria do estudo sobre células-tronco da pele na revista Nature

O trabalho reuniu instituições da Bélgica, do Reino Unido, da Itália e dos Estados Unidos e foi divulgado à imprensa pela Universidade Livre de Bruxelas na quinta-feira (15), antes de repercutir no Brasil nesta quarta-feira, 21 de outubro de 2026. Os parâmetros técnicos e a equipe responsável pela investigação estão detalhados a seguir:

  • Título original do artigo: Sexual dimorphism in epidermal stem cell dynamics (DOI: 10.1038/s41586-026-11159-2).
  • Coordenação científica: Cédric Blanpain (autor sênior, investigador do WEL Research Institute, diretor do Laboratório de Células-Tronco e Câncer e professor da ULB) e Benjamin D. Simons (coautor sênior e professor do Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica e do Gurdon Institute na Universidade de Cambridge), com coautoria de Dan Engelman, Joel Hochstetter e Anaïs Bauduin.
  • Duração do monitoramento em animais vivos: 5 meses de acompanhamento contínuo por microscopia intravital.
  • Amostragem celular: 1.171 clones celulares rastreados individualmente na epiderme da orelha dos camundongos.
  • Tempo médio de regeneração em humanos: 28 a 30 dias para a renovação completa da camada superior da epiderme.

Debate de décadas na biologia sobre a hierarquia das células-tronco da pele

Além de demonstrar a ação hormonal, a pesquisa publicada em 14 de outubro de 2026 resolveu uma discussão antiga da biologia celular. Durante décadas, biólogos debateram se a renovação da camada basal da epiderme era sustentada por uma população única de células progenitoras equivalentes ou por uma estrutura dividida em duas etapas; os dados obtidos em Bruxelas e Cambridge confirmaram o modelo de dois compartimentos, composto pela hierarquia entre células-tronco de vida longa e células amplificadoras de trânsito de curta duração.

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No campo das diferenças biológicas entre os sexos, as investigações científicas concentraram-se historicamente nos órgãos reprodutivos. Esse foco acabou subestimando a influência dos hormônios sexuais sobre o funcionamento celular de órgãos não reprodutivos, como a pele, o que segundo os autores pode ajudar a investigar por que certas doenças inflamatórias e tipos de câncer de pele se manifestam de forma distinta em homens e mulheres.

Testes em tecido humano e limites clínicos sobre as células-tronco da pele

Os cientistas ampliaram os experimentos utilizando um modelo tridimensional de pele humana reconstruída em laboratório. Nesse tecido artificial, a equipe comprovou que a aplicação de diidrotestosterona (DHT) acelera a transição e o amadurecimento dos queratinócitos (células predominantes da epiderme que produzem queratina) em direção à camada suprabasal, situada logo acima da base da epiderme.

Compreender esse mecanismo pode auxiliar no futuro o desenvolvimento de terapias personalizadas para recuperação de queimaduras, reparo pós-cirúrgico e tratamento de feridas crônicas, como as que afetam pacientes com diabetes. Ainda não há, porém, confirmação clínica de que a sincronização das células-tronco e a velocidade superior de cicatrização vistas em camundongos fêmeas ocorram da mesma maneira no fechamento de feridas em seres humanos vivos.

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Como nos modelos humanos de laboratório apenas o efeito da diidrotestosterona sobre os queratinócitos foi testado, os pesquisadores informaram que novos estudos clínicos em pacientes humanos são necessários para verificar se o mesmo mecanismo acelera a recuperação de lesões em pessoas.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

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