Humberto Fontoura Pradera, ex-secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), foi alvo de um mandado de busca e apreensão da Polícia Federal nesta segunda-feira (19), em Brasília. Batizada de Operação Linceu, a ação investiga o repasse antecipado de minutas sigilosas em sete casos judiciais ao advogado Willer Tomaz, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A ordem judicial partiu do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do inquérito que apura a conduta de Tomaz e de Flávio Bolsonaro. Os investigadores apuram os crimes de violação de sigilo funcional, peculato eletrônico (inserção ou modificação não autorizada de dados em sistemas públicos), corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro.
Atuação de Humberto Pradera e os 7 vazamentos no STJ
De acordo com o relatório da Polícia Federal, o escritório de Willer Tomaz recebia minutas de decisões do STJ e pareceres do Ministério Público Federal (MPF) antes da publicação oficial dos documentos. Com o acesso prévio, a banca advocatícia ajustava estratégias processuais e pedia a desistência de recursos quando identificava que o resultado do julgamento seria desfavorável aos clientes. As apurações indicam que Humberto Pradera repassou a Tomaz informações sobre demandas internas da Corte, relatou a designação de duas pessoas para tratar de um tema específico e enviou a fotografia de um documento aberto na tela de um computador, com um carimbo sobre a mesa.
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Entre os sete episódios mapeados pela investigação está uma disputa imobiliária de R$ 176,4 milhões pelo terreno da antiga Academia de Tênis, em Brasília, que opõe duas construtoras representadas por Tomaz e uma família de herdeiros. Em 16 de setembro de 2026, o escritório do advogado recebeu a minuta do acórdão (decisão colegiada do tribunal) que reconhecia o direito da família aos valores, documento que só foi assinado dois dias depois, o que levou as empresas a desistirem de um recurso já pautado. Outro processo citado envolve uma ação de danos morais movida pelo senador Weverton Rocha (PDT-MA) contra a Editora Abril, na qual o conhecimento prévio do resultado pelo escritório motivou as partes a desistirem dos recursos na véspera da sessão do STJ.
Exoneração no STJ e resposta da defesa de Willer Tomaz
Pradera ocupava um cargo em comissão de confiança, sem vínculo de concurso público, e foi desligado da função antes da operação policial. “O presidente do STJ, ministro Luis Felipe Salomão, tomou conhecimento dos fatos, e um procedimento interno para apuração já havia sido instaurado desde a semana passada. Como não se trata de concursado, o servidor em cargo de confiança foi exonerado nesta sexta-feira (16). As medidas criminais estão em andamento e são sigilosas, e sobre elas o Tribunal não vai se manifestar”, informou o STJ em nota oficial.
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Por meio de sua defesa, Willer Tomaz negou ter obtido acesso irregular a decisões ou pareceres sigilosos e rechaçou ter interferido em manifestações do MPF. “Sua atuação profissional sempre observou a legislação e as prerrogativas profissionais da advocacia, pelos meios institucionais e processuais legítimos. As insinuações divulgadas são infundadas, distorcem o exercício regular da atividade profissional e configuram desinformação”, declarou a defesa do advogado em nota.
Ligações de Willer Tomaz com Flávio Bolsonaro e subprocurador do MPF
O inquérito da Polícia Federal aponta que Willer Tomaz e o senador Flávio Bolsonaro figuravam como beneficiários de uma mesma conta bancária no banco Santander, além de indicar que o advogado custeou viagens do parlamentar à Europa. Em agosto de 2026, Tomaz já havia sofrido busca e apreensão em outra frente investigativa da PF, que apura suspeita de lavagem de dinheiro desviado de aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) destinadas ao senador Weverton Rocha.
Além do ex-secretário do STJ, a investigação mira o subprocurador-geral da República aposentado Antônio Carlos Simões Soares, suspeito de vazar informações e ajustar pareceres do MPF em articulação com Tomaz. Uma planilha comparativa da PF identificou trechos idênticos ou semelhantes entre recomendações enviadas pelo advogado e os pareceres emitidos pelo então subprocurador no STJ; Soares chegou a ser cotado em 2019, no governo de Jair Bolsonaro, para comandar a Procuradoria-Geral da República (PGR) devido à proximidade com Flávio Bolsonaro e Tomaz.
O conteúdo apreendido pelos agentes federais no endereço de Humberto Pradera nesta segunda-feira (19) não foi divulgado em razão do sigilo judicial, e a defesa de Antônio Carlos Simões Soares ainda não foi localizada para comentar as suspeitas. Como o subprocurador se aposentou em março de 2026 e perdeu o foro por prerrogativa de função no STJ, o material reunido pela Polícia Federal foi remetido ao MPF para análise sobre o envio dessa parte da investigação à primeira instância da Justiça.
