Pesquisadores comprovaram que cabos submarinos de fibra óptica equipados com sensoriamento acústico distribuído (DAS, tecnologia que mede deformações na fibra a partir da reflexão da luz) funcionam como redes de sensores no fundo do mar. Um estudo publicado na revista Scientific Reports em outubro de 2026 demonstrou que o sistema consegue detectar e localizar vocalizações de 3 espécies de peixes na costa de Mônaco, além de registrar terremotos e ondas de tsunami em outras regiões.
O experimento no Mediterrâneo foi conduzido pelo autor principal Antoine Eceiza, em parceria com os coautores Anthony Sladen (pesquisador da Université Côte d’Azur, do CNRS e do instituto Géoazur), Olivier Brunel, Nicolas Bonnet e Jean-Michel Cottalorda. “Um ensaio de campo foi conduzido usando um cabo de fibra óptica feito sob medida e instalado na costa de Mônaco, concentrando-se em três espécies do Mediterrâneo produtoras de som: Ophidion rochei, Sciaena umbra e Epinephelus marginatus, todas conhecidas por suas assinaturas acústicas distintas. As gravações DAS revelam padrões específicos das espécies compatíveis com comportamentos documentados e são validadas por gravações de hidrofones instalados no mesmo local”, afirmaram os autores, em tradução livre.
Experimento em Mônaco e funcionamento do sistema DAS nos cabos submarinos
O sistema de sensoriamento acústico distribuído envia pulsos de luz pelo interior dos cabos submarinos de fibra óptica e analisa as variações na fase da fração de luz que retorna ao equipamento de origem. Quando ondas sonoras, correntes marinhas ou movimentações do solo deformam a estrutura de vidro de maneira microscópica, o aparelho identifica o ponto exato da alteração e converte os cabos em milhares de pontos de medição ao longo de dezenas de quilômetros, permitindo que o teste em Mônaco isolasse sons individuais de peixes em trechos de dezenas de metros.
Apesar da validação com hidrofones (aparelhos subaquáticos de escuta), o estudo sobre bioacústica de peixes ainda apresenta divergência nos registros públicos quanto à data exata de lançamento: a referência de 1º de outubro de 2026 aparece na divulgação inicial, mas os indexadores acadêmicos abertos exibem apenas o mês de outubro de 2026 para o artigo.
Registros sísmicos e de tsunamis nos cabos submarinos da França e do Japão
Antes do teste biológico em Mônaco, a tecnologia foi aplicada na geofísica marinha na Europa e na Ásia. Na França, cientistas da Université Côte d’Azur e do CNRS avaliaram o cabo MEUST-NUMerEnv e relataram na revista Nature Communications medições de sensoriamento acústico distribuído em um cabo de telecomunicações de 41,5 km de extensão instalado na costa de Toulon, na França. Segundo Anthony Sladen e coautores, as observações demonstraram a capacidade de monitorar as interações entre o oceano e a crosta terrestre desde a costa até a planície abissal, além da sismicidade regional, como um microterremoto de magnitude 1,9 localizado a 100 km de distância, com características de sinal comparáveis às de uma estação sísmica costeira.
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No sudoeste do Japão, o pesquisador Eiichiro Araki, da Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinho-Terrestre (JAMSTEC, órgão japonês de pesquisa oceanográfica e geológica), participou do monitoramento em um cabo na região de Muroto. Combinada a medidores de pressão, a fibra registrou variações do nível do mar, ondas infragravitacionais e a propagação de tsunamis desde 60 km da costa, método divulgado pela agência em 7 de junho de 2024 para estimar a altura das ondas sem substituir os sistemas oficiais de alerta.
Locais, datas e alcance das medições nos cabos submarinos
- Toulon (França), em 18 de dezembro de 2019: publicação do estudo em cabo de 41,5 km que detectou um microterremoto de magnitude 1,9 a cerca de 100 km de distância.
- Muroto (Japão), em 9 de outubro de 2023 e 29 de julho de 2025: captação da propagação dos tsunamis de Torishima (desde 60 km da costa) e de Kamchatka.
- Mônaco, em outubro de 2026: monitoramento acústico das espécies Ophidion rochei, Sciaena umbra e Epinephelus marginatus.
- Outras medições confirmadas em cabos com tecnologia DAS: vocalizações de baleias-comuns em torno de 20 Hz, ruídos de embarcações, correntes marinhas de fundo e variações térmicas na escala de milikelvins.
Limitações técnicas para o uso dos cabos submarinos na internet global
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A expansão do sensoriamento acústico distribuído para toda a malha global de cabos submarinos de telecomunicações esbarra em barreiras físicas e operacionais que impedem a conversão imediata de qualquer fibra de internet em sensor oceânico. O desempenho da leitura exige autorização de acesso à infraestrutura, capacidade para processar grandes volumes de dados e um contato direto do cabo com o solo, já que fundos rochosos ou irregulares prejudicam o acoplamento da fibra e reduzem a clareza do sinal, sobretudo na relação sinal-ruído em frequências acima de algumas centenas de hertz.
