Pesquisadores da China, da Alemanha e dos Estados Unidos descreveram a espécie Megacauda sungei em artigo publicado em 7 de outubro de 2026 na revista científica Nature. Descoberto na Mongólia Interior, no norte da China, o fóssil de 165 milhões de anos pertence ao exemplo mais antigo conhecido de estilo de vida semiaquático na linhagem evolutiva dos mamíferos e preserva estruturas da garganta idênticas às que permitem aos animais atuais mastigar e mamar.
O animal viveu durante o Jurássico Médio em rios e lagos da Formação Daohugou, na localidade de Xiayingzi. Com tamanho aproximado de duas vezes o do segundo maior integrante de sua linhagem naquela época, o espécime é classificado como o maior mamaliaforme (grupo de precursores e parentes imediatos dos mamíferos verdadeiros) já registrado no período Jurássico, quando a maioria desses seres tinha o porte diminuto de um musaranho.
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Anatomia da garganta do Megacauda sungei explica evolução da mastigação
O fóssil conserva um contorno corporal nítido, impressões de pele e pelos, além de delicados ossos articulados do aparelho hioide e da passagem da faringe localizados sob o crânio. Essa estrutura musculoesquelética sustentava o palato mole e atuava em conjunto com os músculos da língua e da garganta, permitindo que a espécie respirasse e se alimentasse ao mesmo tempo, engolisse a comida triturada em pequenos bolos e que os filhotes mamassem o leite materno sem que o líquido entrasse na cavidade nasal.
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“Os mamíferos modernos são únicos entre os vertebrados vivos no que diz respeito à alimentação. A maioria deles consegue usar os dentes para triturar o alimento ingerido em pedaços minúsculos e, em seguida, engolir a comida mastigada, misturada à saliva, em um pequeno bolo de cada vez. Esse bolo alimentar é empurrado para o esôfago por um tubo muscular na passagem da garganta, conhecido como faringe”, afirmou Zhe-Xi Luo, paleontólogo da Universidade de Chicago (Estados Unidos) e autor sênior do estudo.
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O pesquisador contrastou esse mecanismo com o de répteis que não conseguem mastigar. “Essa forma de deglutição típica dos mamíferos difere da dos outros vertebrados, a maioria dos quais simplesmente engole grandes pedaços de alimento ou a presa inteira. Crocodilos engolem aves grandes. Pítons afastam as mandíbulas para engolir um mamífero de tamanho considerável. Até mesmo uma cobra fina consegue engolir facilmente um roedor inteiro. Esses animais têm dentes, mas, como seus dentes e mandíbulas não conseguem mastigar, precisam se virar engolindo grandes pedaços”, declarou Luo.
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Hábitos semiaquáticos e dieta carnívora do Megacauda sungei no Jurássico
Desenterrado em uma rocha formada por sedimentos de lagos, o animal apresentava proporções corporais semelhantes às de um ornitorrinco moderno no tronco, na pelve e nas patas traseiras, mas não possuía o focinho em forma de bico de pato. Sua cauda era larga, achatada e revestida por pequenas escamas, similar à de um castor ou lontra. “Ele nadava usando as patas dianteiras e traseiras para remar e fazendo movimentos ondulatórios com a cauda. Provavelmente cavava tocas nas margens de rios ou nas orlas de lagos”, disse Thomas Martin, paleontólogo e professor da Universidade de Bonn (Alemanha), coautor da pesquisa.
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A espécie tinha mandíbulas e dentição adaptadas para uma dieta carnívora, atuando de forma parecida com predadores semiaquáticos atuais, como visons e lontras. Seus caninos especializados contavam com três raízes — característica incomum nos mamíferos de hoje — e os dentes posteriores apresentavam cúspides (pontas) curvadas para trás, formato que ajudava a segurar presas escorregadias dentro da água, além de cortar a carne de maneira distinta da observada nos carnívoros modernos. Fragmentos de ossos encontrados preservados no estômago do próprio fóssil confirmam o consumo de pequenos vertebrados, como peixes e salamandras, cujos fósseis também são abundantes nas mesmas rochas.
Dimensões, origem do nome e registro científico do Megacauda sungei
O estudo científico intitulado “A Jurassic mammaliaform swimmer and transformation of the mammalian pharynx” (Um nadador mamaliaforme do Jurássico e a transformação da faringe dos mamíferos, em tradução livre) também contou com a coautoria da pesquisadora April I. Neander, da Universidade de Chicago, e teve a descoberta analisada de forma independente por Jessica Theodor, paleontóloga da Universidade de Calgary (Canadá). Os dados técnicos e físicos levantados pela equipe detalham o exemplar:
- Nome científico e significado: Megacauda significa “cauda grande”, e o termo sungei homenageia o professor Sun Ge, diretor honorário do Museu Paleontológico de Liaoning, em Shenyang (China).
- Registro oficial do fóssil: espécime holótipo catalogado sob o código PMOL-AM00026 no Museu Paleontológico de Liaoning.
- Comprimento total estimado: cerca de 50 centímetros do focinho à cauda (aproximadamente 16 a 20 polegadas).
- Peso corporal estimado: entre 1 e 2 quilos (o equivalente a 2,2 a 4,4 libras).
- Identificação do estudo: artigo publicado na revista Nature sob o registro DOI 10.1038/s41586-026-11107-0, com comunicado divulgado pela Universidade de Bonn na terça-feira (13).
Evolução dos docodontes de 225 milhões de anos até a análise do Megacauda sungei
Na linha evolutiva, os primeiros mamíferos basais (mamaliaformes primitivos) surgiram há cerca de 225 milhões de anos, durante o Período Triássico, e permaneceram em posição subordinada nos ecossistemas até que o impacto de um asteroide derrubou os dinossauros há 66 milhões de anos. Dentro dessa história, o Megacauda sungei integrava o grupo extinto dos docodontes, que apareceu há aproximadamente 200 milhões de anos e prosperou por cerca de 90 milhões de anos sem deixar descendentes vivos — grupo que também inclui o Castorocauda, outro gênero semiaquático de menor porte que viveu um pouco depois na China. Como os docodontes antecedem o grupo coroa dos mamíferos verdadeiros (Mammalia), a descoberta comprova que a faringe adaptada para sucção e deglutição surgiu em um ancestral comum antes da diversificação das espécies modernas.
“O Megacauda sungei amplia o crescente conjunto de evidências de que os mamíferos podiam apresentar diversidade ecológica, mesmo em um ecossistema dominado pelos dinossauros”, afirmou Luo. Para sobreviver nesse ambiente, o animal provavelmente mantinha hábitos noturnos ou era ativo ao amanhecer e ao entardecer. “A ameaça de predação contra ele provavelmente vinha dos dinossauros terópodes emplumados”, declarou o paleontólogo da Universidade de Chicago.
O fóssil havia chamado a atenção de Zhe-Xi Luo e Thomas Martin há cerca de uma década, durante visitas anuais ao Museu Paleontológico de Liaoning, mas exigiu anos de comparações e exames até a confirmação da espécie em 2026. Como os ossos fossilizados eram pretos e estavam incrustados em uma placa de rocha sedimentar muito escura, o coautor Chang-Fu Zhou, pesquisador da Universidade de Ciência e Tecnologia de Shandong (China), utilizou tomografia computadorizada e espectroscopia de fluorescência de raios X para destacar o esqueleto em cores vivas e reconstruir digitalmente a anatomia da garganta.
