Uma equipe internacional de pesquisadores descreveu a nova espécie de cefalópode pré-histórico Wyoteuthis linsterorum a partir de fósseis encontrados no estado de Wyoming, nos Estados Unidos. O animal marinho viveu no período Jurássico Superior e possui o esqueleto interno mais espesso e largo já registrado entre o grupo extinto dos belemnites, parentes das lulas, sépias e polvos modernos.
O estudo científico foi divulgado oficialmente pela Universidade de Manchester e publicado na revista Papers in Palaeontology em 10 de setembro de 2026, com participação de cientistas dos Estados Unidos, Reino Unido e Nova Zelândia. A investigação detalhada só ocorreu porque dois exemplares raros foram localizados na Formação Sundance, área onde milhões de outros fósseis comuns já haviam sido recolhidos ao longo das últimas décadas.
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Como era o Wyoteuthis linsterorum no mar do período Jurássico?
Os belemnites possuíam uma estrutura rígida interna chamada rostro ou guarda, localizada na extremidade traseira do corpo, que costuma ser a única parte preservada no processo de fossilização e recebe em Wyoming o apelido popular de bunda de lula, em razão do formato cilíndrico e pontiagudo. Enquanto a maioria absoluta dos exemplares escavados na região apresenta o formato fino de uma bala de revólver, a espécie recém-catalogada tinha um esqueleto interno robusto parecido com um pequeno barril.
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“A maioria dos belemnites de Wyoming tem formato de bala, medindo cerca de 5 a 10 centímetros de comprimento e apenas 1 a 2 centímetros de largura. Em contraste, a espécie recém-descoberta tinha um rostro incomumente largo, em forma de barril, com cerca de 10 centímetros de comprimento, mas até 6 centímetros de largura, tornando-o o belemnite mais espesso já registrado”, afirmou Alexey Ippolitov, especialista em belemnites, doutorando na Victoria University of Wellington, na Nova Zelândia, e autor principal do estudo, em tradução livre.
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As medidas exatas e as proporções físicas verificadas na análise paleontológica diferenciam o novo gênero dos demais moluscos encontrados no antigo Mar de Sundance, um mar interior raso que cobria parte do oeste norte-americano:
- Idade aproximada dos fósseis: 160 milhões de anos, correspondente à idade Oxfordiana do Jurássico Superior.
- Dimensões do rostro do Wyoteuthis linsterorum: cerca de 10 centímetros de comprimento por até 6 centímetros de largura.
- Dimensões médias dos belemnites comuns de Wyoming: entre 5 e 10 centímetros de comprimento por 1 a 2 centímetros de largura.
- Comprimento total estimado do animal vivo: cerca de 60 centímetros, incluindo a cabeça e os braços.
- Quantidade de exemplares conhecidos da nova espécie: 2 fósseis registrados até o momento.
Exames de tomografia em Wyoteuthis linsterorum mudam linha evolutiva
Para analisar o interior das peças calcificadas sem destruir o material, os cientistas submeteram os dois fósseis a exames de tomografia computadorizada, tecnologia médica que gera imagens transversais detalhadas da estrutura interna. Os resultados apontaram que o animal pertencia à família Megateuthididae, uma linhagem antiga de cefalópodes que a paleontologia acreditava ter desaparecido na idade Bathoniana, há cerca de 166 milhões de anos, o que estende a sobrevivência do grupo em pelo menos seis milhões de anos no registro fóssil.
O estudo aponta a hipótese de que o novo molusco tenha evoluído a partir de um gênero mais antigo denominado Brevibelus. O porte avantajado do predador também levantou questionamentos na equipe sobre a cadeia alimentar daquele ecossistema marinho, embora o comportamento exato do animal permaneça no campo das hipóteses científicas.
“Uma explicação possível é que seu tamanho relativamente grande lhes dava vantagem ao caçar belemnites menores do gênero Pachyteuthis que ocorriam no mesmo local. As lulas modernas, afinal, não são nada exigentes quando se trata de presas: elas caçam prontamente não apenas outras espécies de cefalópodes, mas às vezes até os de sua própria espécie”, declarou Alexey Ippolitov.
Descoberta dos fósseis de Wyoteuthis linsterorum em Wyoming e exposição
A confirmação do novo gênero exigiu o cruzamento de dois achados separados por mais de duas décadas no estado de Wyoming. O primeiro fóssil permaneceu anos guardado sem análise específica no acervo do museu local, até que a doação de uma segunda peça idêntica, encontrada perto da localidade de Ten Sleep, permitiu o início da investigação conduzida pelo paleontólogo William Wahl e pelos demais coautores.
O trabalho de catalogação e descrição formal envolveu seis pesquisadores e colecionadores em diferentes etapas de campo e laboratório:
- Burkhard Pohl, fundador do Wyoming Dinosaur Center: escavou o primeiro espécime no final da década de 1990.
- Cliff Linster, colecionador de fósseis falecido em junho de 2026: descobriu o segundo exemplar perto de Ten Sleep e o doou ao museu em 2019.
- William Wahl, paleontólogo de Wyoming e coautor do estudo: iniciou a investigação científica comparando os dois espécimes.
- Jessica Lippincott, paleontóloga do Wyoming Dinosaurium Project e coautora do artigo: participou da descrição e análise regional.
- Dean Lomax, paleontólogo, pesquisador honorário da Universidade de Manchester e coautor do estudo: integrou a equipe de revisão internacional.
- Alexey Ippolitov, pesquisador da Victoria University of Wellington: liderou a classificação taxonômica dos belemnites.
“Depois de passar anos caçando fósseis em Wyoming e coletando inúmeros fósseis dos belemnites comuns Pachyteuthis aqui em Wyoming, este é diferente de tudo que eu já vi. Isso mostra que ainda estamos encontrando novas espécies de fósseis o tempo todo, e pessoas que procuram rochas ou coletam fósseis de invertebrados também podem contribuir para a ciência”, disse a paleontóloga Jessica Lippincott.
O nome escolhido para o gênero, Wyoteuthis, significa uma lula de Wyoming, enquanto o termo específico linsterorum homenageia Cliff Linster e a família dele pela entrega da peça decisiva. Os dois exemplares que serviram de base para o artigo, classificados tecnicamente como holótipo e parátipo, estão em exposição aberta ao público no museu Wyoming Dinosaur Center, na cidade de Thermopolis, em Wyoming.
