Gato siamês Chester vira coautor de artigo de física em 1975

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Gato siamês - Esin Deniz/ shutterstock.com Foto: Gato siamês - Esin Deniz/ shutterstock.com

O físico e matemático norte-americano Jack H. Hetherington, professor da Universidade Estadual de Michigan, em East Lansing, nos Estados Unidos, incluiu seu gato siamês Chester, sob o pseudônimo F.D.C. Willard, como coautor de um artigo científico publicado em 24 de novembro de 1975 na revista Physical Review Letters. A inclusão do animal ocorreu para evitar a redigitação completa do manuscrito, que havia sido datilografado na primeira pessoa do plural, e rendeu ao felino um perfil que soma 114 citações no Google Acadêmico, plataforma de indexação de literatura científica.

Antes de submeter a pesquisa sobre física de baixas temperaturas, Hetherington entregou o documento para a revisão de um colega de universidade. O revisor alertou que as normas editoriais da revista proibiam o uso de pronomes como “nós” e “nosso” em textos assinados por um único pesquisador. “Antes de submetê-lo, pedi a um colega que o lesse e ele disse: ‘É um ótimo artigo, mas eles vão devolvê-lo imediatamente'”, relatou Hetherington, em tradução livre, no livro “More Random Walks in Science”, compilado pelo autor R. L. Weber em 1982.

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Como o gato Chester virou o pesquisador F.D.C. Willard?

Na década de 1970, a correção dos pronomes exigiria redigitar todas as páginas em máquina de escrever. Além do trabalho manual, Hetherington explicou na obra de 1982 que evitou convidar outro físico humano como coautor porque a compensação financeira e o prestígio acadêmico de uma publicação científica eram diluídos quando o estudo tinha múltiplos autores registrados.

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Para resolver o impasse editorial sem dividir os créditos com outro cientista, o professor recorreu ao animal de estimação da família. “Mudar o artigo para a forma impessoal parecia muito difícil agora, e ele já estava todo escrito e datilografado; portanto, após uma noite de reflexão, simplesmente pedi à secretária que alterasse a página de rosto para incluir o nome do gato da família, um siamês chamado Chester”, afirmou Hetherington, em tradução livre.

Temendo que outros professores da Universidade Estadual de Michigan reconhecessem o nome do animal doméstico, o cientista elaborou a identificação F.D.C. Willard. As iniciais “F.D.” vieram de Felis domesticus, nome científico do gato doméstico, e a letra “C.” representou Chester. O sobrenome “Willard” homenageou o pai do felino, descrito pelo físico como “um dos poucos gatos siameses machos não castrados em Aspen, Colorado”, em tradução livre.

Dados editoriais e registros de F.D.C. Willard na física

O estudo assinado por J. H. Hetherington e F. D. C. Willard propôs cálculos de campo médio para efeitos de troca de átomos no isótopo hélio-3 sólido cúbico de corpo centrado (estrutura cristalina conhecida pela sigla em inglês bcc), tornando-se uma referência na área de baixas temperaturas. Os registros formais da trajetória acadêmica do gato incluem os seguintes dados:

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  • Título original do primeiro estudo: Two-, Three-, and Four-Atom Exchange Effects in bcc ³He.
  • Recebimento e publicação: manuscrito recebido em 22 de setembro de 1975 e publicado no volume 35, número 21, páginas 1442 a 1444 da Physical Review Letters.
  • Segundo artigo publicado: L’hélium 3 solide. Un antiferromagnétique nucléaire, impresso em setembro de 1980 na edição 114, páginas 972 e 973, da revista francesa La Recherche.
  • Cargo honorário na universidade: mencionado em documentos internos como Consultor de Predação de Roedores (Rodent Predation Consultant).
  • Tempo de vida do animal: nascido em 1968 e morto em 1982, aos 14 anos de idade.

Descoberta da identidade de F.D.C. Willard e o convite em Michigan

O disfarce do coautor começou a cair no próprio campus universitário pouco depois da publicação, quando um visitante procurou Hetherington no departamento e, diante da ausência do titular, solicitou uma conversa direta com Willard, provocando risadas na equipe e revelando a história. Dois dias após a saída do artigo na revista, em 26 de novembro de 1975, o chefe do departamento de física da Universidade Estadual de Michigan, Truman O. Woodruff, enviou uma carta ao professor tratando da repercussão. “Você consegue imaginar o júbilo universal se, de fato, Willard pudesse ser persuadido a se juntar a nós, mesmo que apenas como um Professor Visitante Distinto?”, escreveu Woodruff, em tradução livre.

Nos anos seguintes, o próprio autor humano ajudou a espalhar a autoria incomum ao enviar cópias do estudo para amigos e pesquisadores com a sua assinatura acompanhada da marca da pata de Chester molhada em tinta. Uma dessas cópias carimbadas chegou aos organizadores da 15ª Conferência Internacional de Física de Baixas Temperaturas, realizada em 1978 na cidade de Grenoble, na França, que planejavam convidar Willard e desistiram de chamar tanto o felino quanto o seu tutor ao descobrirem a origem da assinatura.

Mesmo com a reação de editores e organizadores, o professor defendeu a escolha e apontou que o animal recebeu agradecimentos em notas de rodapé de outros artigos científicos por “discussões úteis”. “Por que eu faria uma coisa tão irreverente? Se eventualmente provasse estar correto, as pessoas se lembrariam mais do artigo se a autoria anômala fosse conhecida. De qualquer forma, fui em frente, fiz isso e, no geral, não me arrependi”, declarou Hetherington, em tradução livre.

Artigo solo de F.D.C. Willard na França e anúncio de 2014

A produção atribuída ao gato siamês teve um novo capítulo cinco anos após a estreia, quando F.D.C. Willard figurou como autor único de um texto em francês sobre as propriedades magnéticas do hélio-3 sólido na revista de divulgação científica La Recherche. O estudo havia sido elaborado por uma equipe de físicos franceses e norte-americanos, incluindo Hetherington, mas como os pesquisadores não chegaram a um consenso sobre os detalhes da redação final, o grupo decidiu assinar o trabalho exclusivamente com o pseudônimo felino.

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Trinta e dois anos após a morte de Chester, a história voltou a pautar as publicações oficiais da área nos Estados Unidos. Em 1º de abril de 2014, a Sociedade Americana de Física (American Physical Society, ou APS) divulgou um comunicado de Dia da Mentira anunciando uma diretriz de acesso aberto que tornava gratuitos para o público todos os artigos científicos escritos por gatos.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

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