Japão lança missão MMX para buscar amostras de Fobos, lua de Marte

Marte

Marte - Shiva Perumal/shutterstock.com

A Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA) lançou com sucesso a espaçonave não tripulada Martian Moons eXploration (MMX, ou Exploração das Luas de Marte, na sigla em inglês) rumo ao sistema marciano. Trata-se da primeira missão da história projetada para pousar em Fobos, a maior lua de Marte, coletar pelo menos 10 gramas de amostras de seu solo e trazê-las de volta à Terra em 2031.

A decolagem ocorreu a bordo do voo número 10 do foguete H3 a partir do Centro Espacial de Tanegashima, na província de Kagoshima, no sudoeste do Japão, às 04h41min03s de 20 de outubro de 2026 pelo horário padrão japonês — o que correspondeu às 16h41min03s de segunda-feira (19) pelo horário de Brasília e às 19h41min03s no horário universal (UTC). Cerca de 71 minutos e 13 segundos após deixar a base, às 05h52 no horário local, a JAXA confirmou a separação da sonda do estágio superior do lançador e sua inserção na trajetória interplanetária. O presidente da JAXA, Hiroshi Yamakawa, comemorou o resultado da operação: “Gostaria de expressar minha gratidão a todos no Japão e no exterior envolvidos com a MMX. A compreensão e a cooperação deles tornaram possível o lançamento”, disse, em tradução livre.

Mistério sobre a formação de Fobos e Deimos na missão MMX

O objetivo central do projeto japonês é solucionar uma dúvida antiga da astronomia sobre como surgiram os dois satélites naturais de Marte, Fobos e Deimos. Até o momento, a comunidade científica divide-se entre duas hipóteses principais que a análise em laboratório do material recolhido poderá comprovar: a primeira aponta que as duas luas são asteroides formados em outra região do Sistema Solar e capturados pela atração gravitacional marciana; a segunda sugere que ambas se formaram a partir da aglomeração de rochas e detritos lançados ao espaço após uma grande colisão contra a superfície de Marte no passado.

Além de coletar o regolito — camada superficial de poeira, solo solto e fragmentos de rocha — em Fobos, a espaçonave realizará medições detalhadas da topografia, da composição e da estrutura interna do satélite, bem como sobrevoos de observação na lua menor Deimos. Parte do material depositado na superfície de Fobos pode conter fragmentos ejetados do próprio planeta Marte por impactos de asteroides ao longo de bilhões de anos, o que permitiria aos pesquisadores estudar amostras marcianas de maneira indireta. Para a administradora da Diretoria de Missões Científicas da agência espacial dos Estados Unidos (NASA), Nicky Fox, o retorno desse material terá impacto duradouro: “As amostras da MMX trarão uma ciência transformadora sobre o sistema de Marte para as próximas gerações, especialmente enquanto a NASA se prepara para enviar os primeiros humanos a Marte”, afirmou.

Operação do rover Idefix na baixíssima gravidade de Fobos

Fobos possui formato irregular e orbita a uma distância aproximada de 6.000 quilômetros acima da superfície de Marte, completando três voltas ao redor do planeta por dia. O ambiente impõe um desafio inédito de engenharia porque a gravidade local é mínima em comparação com a terrestre, condição em que qualquer movimento brusco pode fazer um equipamento perder o contato com o chão e flutuar de maneira descontrolada.

Antes que a sonda principal realize o seu próprio pouso para recolher o solo, a MMX soltará em queda livre, de uma altitude entre 40 e 100 metros sobre Fobos, o rover Idefix, um veículo robótico desenvolvido em parceria pelo Centro Aeroespacial Alemão (DLR) e pela agência espacial francesa (CNES). Após atingir a superfície e quicar no terreno, o robô foi projetado para se endireitar de forma autônoma, abrir seus painéis solares e explorar a região para ajudar a identificar os locais mais seguros de coleta. Diferentemente de pequenos robôs anteriores que se deslocavam por saltos em asteroides, o Idefix é equipado com quatro rodas especiais e será o primeiro veículo da história a tentar locomoção sobre rodas em um corpo celeste de gravidade ultrabaixa.

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  • Custo de desenvolvimento da sonda MMX: 55,3 bilhões de ienes (equivalente a US$ 350 milhões).
  • Massa total da espaçonave MMX no lançamento: aproximadamente 4,2 toneladas métricas.
  • Massa do rover Idefix: 25 quilogramas na Terra, o que equivale a um peso efetivo de apenas 12 gramas na gravidade de Fobos.
  • Velocidade de condução do rover Idefix: cerca de 1 milímetro por segundo nas quatro rodas, para evitar que o veículo desgrude do solo.
  • Duração planejada do rover Idefix: cerca de 100 dias de operação na superfície da lua marciana.

Cooperação internacional e estreia interplanetária do foguete H3

A missão MMX estava originalmente prevista para decolar em 2024, mas teve o cronograma adiado em dois anos devido a atrasos anteriores no desenvolvimento do foguete H3, veículo lançador de nova geração fabricado pela JAXA em conjunto com a empresa japonesa Mitsubishi Heavy Industries. O voo desta semana marcou a primeira vez que o H3 foi empregado para enviar uma carga ao espaço interplanetário. O cientista de projeto da Agência Espacial Europeia (ESA) para a missão, Elliot Sefton-Nash, elogiou o desempenho do veículo: “O lançamento foi espetacular, e o lançador H3 da JAXA funcionou de forma fantástica para enviar a MMX rumo a Marte”, declarou.

O projeto conta com ampla participação de agências estrangeiras ao lado do Japão. Além do rover franco-alemão supervisionado por equipes como a do engenheiro-chefe de missão do Idefix no DLR, Bastian Deutschmann, e de componentes industriais japoneses acompanhados pelo gerente-geral da divisão espacial da Mitsubishi Electric, Naoki Murakami, a NASA forneceu o instrumento científico MEGANE, um espectrômetro de raios gama e nêutrons voltado a mapear os elementos químicos de Fobos. O astrofísico da NASA envolvido no projeto, Tom Statler, resumiu o clima entre as equipes após a partida da sonda: “Há muita adrenalina, muita empolgação e muito espanto”, disse. A ESA, que tem Carole Mundell como diretora de Ciência, instalou equipamentos de comunicação de espaço profundo na espaçonave e dará suporte contínuo por meio de sua rede mundial de estações terrestres Estrack.

Corrida por amostras de Marte e cronograma da MMX até 2031

O envio da MMX amplia a experiência adquirida pelo Japão nas missões Hayabusa, que trouxe poeira do asteroide Itokawa, e Hayabusa2, que visitou o asteroide Ryugu em 2018 e utilizou os pequenos robôs saltadores MINERVA e o módulo franco-alemão MASCOT. No sistema marciano, embora a NASA já tenha pousado nove espaçonaves em Marte ao longo de cinco décadas e a China tenha realizado um pouso no planeta em 2021, nenhuma missão havia tentado pousar em Fobos ou Deimos até agora.

A jornada japonesa ocorre em meio a mudanças na disputa internacional para trazer rochas do sistema marciano à Terra. O rover americano Perseverance coleta amostras diretamente no solo de Marte desde 2021, mas a missão da NASA planejada para buscar esse material foi suspensa pelo governo do presidente Donald Trump após votação no Congresso dos Estados Unidos em janeiro de 2026. Já a China mantém o plano de lançar a missão Tianwen-3 por volta do final de 2028 para recolher amostras do planeta vermelho e retorná-las até 2031.

Pelo cronograma oficial da JAXA, a espaçonave MMX chegará à órbita de Marte em agosto de 2027 e, cerca de um mês depois, fará a transferência para uma órbita de observação ao redor de Fobos. O lançamento do rover Idefix e a coleta das amostras estão previstos para a janela entre o final de 2028 e o início de 2029, enquanto o retorno à Terra acontecerá em 2031, com o pouso da cápsula contendo o material de Fobos na Área Proibida de Woomera, no sul da Austrália.

Carolina Costa: Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração