Um estudo científico confirmou que o lóris-lento-de-Bangka (Nycticebus bancanus), primata peçonhento considerado possivelmente extinto, continua vivo na ilha de Bangka, localizada na costa sudeste de Sumatra, na Indonésia. A pesquisa comprovou a sobrevivência da espécie a partir do resgate de mais de 90 indivíduos em diferentes localidades da ilha ao longo de dez anos.
Os resultados do levantamento foram divulgados internacionalmente em 20 de outubro de 2026 na revista científica alemã Spixiana. “O lóris-lento-de-Bangka ainda está vivo”, afirmou Timon Glaw, estudante de pós-graduação em conservação da natureza e gestão da biodiversidade no zoológico Haus des Meeres Aqua Terra, em Viena, na Áustria, e coautor do estudo.
Resgate e reabilitação do lóris-lento-de-Bangka na Indonésia
A confirmação da sobrevivência do mamífero ocorreu graças ao trabalho de campo realizado em parceria pelo Alobi Wildlife Rescue Center, pelo zoológico austríaco Haus des Meeres Aqua Terra Zoo e pelo Taman Safari Prigen Conservation Breeding Ark. O membro do Alobi Wildlife Rescue Center, Andre Septian, foi o responsável pelo registro fotográfico de divulgação que documenta a presença atual do animal.
Muitos dos primatas documentados na última década foram encontrados por moradores e equipes de salvamento em casas, jardins, plantações e estradas de diferentes regiões da ilha indonésia. A presença dos animais em áreas habitadas demonstra que a espécie resistiu em vários pontos do território, apesar do avanço humano sobre as matas nativas.
Saiba mais: Chuva de meteoros Orionídeas tem pico no Brasil nesta quarta
Diversos exemplares resgatados apresentavam ferimentos graves provocados pelo contato com fios da rede elétrica. Alguns indivíduos morreram mesmo após receberem tratamento veterinário especializado, mas a maior parte dos animais sobreviveu ao atendimento e pôde retornar às florestas da região.
Dados da pesquisa e do resgate na ilha de Bangka
- Espécie confirmada: Nycticebus bancanus (conhecido como lóris-lento-de-Bangka).
- Local das ocorrências: Ilha de Bangka, a cerca de uma hora de voo de Jacarta, capital da Indonésia.
- Período de coleta de dados: 10 anos de monitoramentos e salvamentos, realizados entre 2015 e 2025.
- Total de animais recuperados: 86 primatas curados e devolvidos a habitats naturais adequados.
- Publicação científica: Revista alemã Spixiana, em outubro de 2026.
Como age o veneno do lóris-lento-de-Bangka?
O Nycticebus bancanus é um mamífero arborícola e de hábitos noturnos, de pequeno porte, caracterizado por olhos grandes, marcas faciais distintas e pelagem castanho-avermelhada. Diferentemente de outros primatas que vivem em copas de árvores, como os macacos, ele se desloca de maneira lenta e deliberada pelos galhos.
Uma particularidade biológica do grupo dos lóris-lentos é a mordida peçonhenta, condição rara entre os mamíferos. Esses animais contam com glândulas braquiais estruturas especializadas que ficam localizadas próximas aos cotovelos e produzem uma secreção tóxica.
Quando se sente ameaçado, o primata ergue os braços e lambe essas glândulas para misturar a secreção com a própria saliva. Em seguida, a toxina é injetada por meio da mordida, impulsionada pelos dentes inferiores que possuem o formato de um pente dental.
“O veneno pode causar reações alérgicas graves em seres humanos, com risco até de morte. Pesquisas sobre outras espécies de lóris-lentos indicam que o veneno é usado principalmente em confrontos com outros lóris, embora também possa desempenhar funções de defesa contra predadores e parasitas”, disse Glaw.
Mais de um século de história do lóris-lento-de-Bangka
Na linhagem evolutiva dos primatas, dentro da subordem Strepsirrhini (grupo que reúne espécies com focinho úmido), o animal indonésio tem parentesco mais próximo com os lêmures de Madagascar e com os gálagos da África do que com macacos ou grandes símios. A descrição científica inicial do Nycticebus bancanus foi feita em 1906 pelo pesquisador Marcus Ward Lyon, época em que o mamífero era tratado apenas como uma subespécie ou sinônimo do lóris-lento-de-Bornéu (Nycticebus menagensis).
A elevação para a categoria de espécie distinta ocorreu em 2013, depois que análises de espécimes preservados em museus e de fotografias identificaram padrões exclusivos na coloração avermelhada da pelagem e nas listras do rosto. Mesmo com o reconhecimento taxonômico, a falta de avistamentos na natureza levou a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN, organização global que avalia o risco de extinção da biodiversidade) a classificar o animal em 2020 como criticamente em perigo e possivelmente extinto. No mesmo ano, a entidade ambiental Re:wild incluiu o mamífero na lista mundial de “primatas perdidos”.
“Os últimos registros científicos históricos de Bangka mencionados em nosso estudo remontam ao início da década de 1930, mais precisamente ao período entre 1930 e 1932. Durante décadas, não houve informações confiáveis sobre a sobrevivência da espécie na ilha”, afirmou Glaw.
O pesquisador destacou a proximidade geográfica do habitat do animal com grandes centros urbanos asiáticos ao comentar o longo período sem documentação formal. “O que considero surpreendente é que um primata tão carismático e singular tenha recebido tão pouca atenção científica por quase um século. A redescoberta também traz esperança de que outras espécies consideradas extintas ainda possam sobreviver em lugares onde os cientistas não realizam buscas há décadas. Afinal, Bangka fica a apenas uma hora de voo de Jacarta, uma das maiores cidades do mundo”, declarou o coautor.
Mineração de estanho e óleo de palma ameaçam o Nycticebus bancanus
Apesar da comprovação de que o primata não desapareceu da ilha de Bangka, a sobrevivência da espécie enfrenta riscos severos provocados pela ação humana. As principais ameaças apontadas pelo estudo são o comércio ilegal de animais silvestres e a rápida destruição e fragmentação das matas nativas.
Veja também: Estudo na Nature revela que pele feminina cicatriza mais rápido
A perda de cobertura florestal na ilha indonésia é impulsionada diretamente pela exploração de mineração de estanho e pelo desmatamento voltado à abertura de plantações de dendezeiros para a produção de óleo de palma. “A prioridade mais urgente é proteger as florestas naturais remanescentes de Bangka contra uma destruição ainda maior, especialmente em decorrência da mineração de estanho e da expansão das plantações de dendezeiros. Também precisamos de levantamentos de campo sistemáticos para determinar onde a espécie ainda sobrevive e qual é o tamanho de suas populações”, disse Glaw.
O tamanho exato da população remanescente de lóris-lentos-de-Bangka na natureza e os detalhes diretos sobre a sua dieta na ilha ainda não são conhecidos pela ciência. A estimativa dos cientistas é que a alimentação do animal seja semelhante à de outras espécies do mesmo gênero, baseada no consumo de insetos, néctar, gomas de árvores e outras partes de plantas.
Continue lendo: Fósseis revelam uso de noz de areca há 25 mil anos na Indonésia
Para garantir a preservação do primata nos próximos anos, os autores do artigo estabeleceram como próximos passos a realização de estudos genéticos e o mapeamento populacional em campo. “Trazer o lóris-lento-de-Bangka de volta ao radar científico é apenas o primeiro passo. Agora sabemos que a espécie sobreviveu em várias partes de Bangka e precisamos urgentemente de uma estratégia de conservação de longo prazo construída sobre levantamentos populacionais, estudos genéticos e, acima de tudo, a proteção de seu habitat remanescente. O próximo desafio é garantir que ele não seja realmente extinto”, afirmou Glaw, em tradução livre.
