ONU declara que o limite de 1,5°C no clima será ultrapassado

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O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), agência ambiental da Organização das Nações Unidas (ONU), declarou nesta quarta-feira (21), em Genebra, na Suíça, que a ultrapassagem do limite de 1,5°C de aquecimento global tornou-se iminente e inevitável. Na 17ª edição de seu relatório anual sobre a lacuna de emissões, intitulado “Emissions Gap Report 2026: The Point of Return” (O Ponto de Regresso, em tradução livre), o órgão afirma pela primeira vez que a oportunidade de manter a temperatura abaixo desse patamar sem excessos foi perdida.

Apesar do diagnóstico sobre a meta do Acordo de Paris, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou em mensagem anexa ao documento que “a ultrapassagem não é uma rendição”. O dirigente declarou que os governos ainda dispõem de meios para reverter a trajetória se acelerarem a expansão das energias renováveis. “Ultrapassar o limiar não significa desistir. Ainda podemos manter essa ultrapassagem tão reduzida e tão breve quanto possível — e fazer regressar as temperaturas a valores inferiores a 1,5 graus até ao final do século”, disse Guterres.

Projeções do PNUMA para a temperatura global até 2100

Calor, sol, verão
Foto: Calor, sol, verão – Tao Jiang/shutterstock.com

O documento detalha que, na hipótese mais favorável analisada pelos cientistas para conter a chamada ultrapassagem (overshoot, termo em inglês para a superação temporária do limite climático), o planeta ainda pode voltar ao patamar de 1,5°C ou menos até o final do século, com cerca de 50% de probabilidade. Essa rota exigiria a remoção e o armazenamento permanente de cerca de 320 bilhões de toneladas (320 gigatoneladas) de dióxido de carbono da atmosfera ao longo deste século.

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As estimativas de aumento da temperatura média da Terra até 2100 variam conforme o cumprimento das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, os planos climáticos nacionais de cada país) e das promessas de emissões líquidas zero (net-zero, quando o volume de gases lançados equivale ao removido da atmosfera):

  • 2,8°C de aquecimento: projeção caso sejam mantidas apenas as políticas climáticas atualmente em vigor no mundo;
  • 2,7°C de aquecimento: estimativa considerando somente o cumprimento das metas incondicionais apresentadas nos planos nacionais;
  • 2,6°C de aquecimento: cenário em que todas as NDCs atuais dos países sejam integralmente cumpridas;
  • 2,1°C de aquecimento: projeção atual mais otimista, somando o cumprimento total das NDCs e de todas as metas de neutralidade de carbono;
  • 1,7°C a 1,8°C de aquecimento: pico previsto para a metade do século no cenário de menor ultrapassagem possível antes do recuo para 1,5°C até 2100.

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Quanto as emissões globais precisam cair para o clima voltar a 1,5°C?

A diretora-executiva do PNUMA, Inger Andersen, afirmou no comunicado do relatório que os governos foram alertados durante anos sobre o esgotamento do prazo para agir e que o “esforço hercúleo” apontado pelos cientistas como necessário não foi realizado. “Procrastinámos e agora essa janela de oportunidade fechou-se”, declarou Andersen. A chefe da agência ambiental citou enchentes mortais, ondas de calor e incêndios florestais registrados em diversos países em 2026 para demonstrar o efeito do aquecimento. “Cada fração adicional de um grau de aquecimento e cada ano adicional acima do limiar de 1,5°C agravam os impactos e os riscos climáticos”, disse. “Por isso, temos de mobilizar todos os meios disponíveis para limitar ao máximo o pico de aquecimento e regressar aos 1,5°C até ao final do século”, afirmou.

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Para viabilizar essa redução após o pico na metade do século, o PNUMA calculou uma taxa média anual de corte de 5,7% nas emissões globais de gases de efeito estufa entre 2025 e 2035. Os compromissos assumidos pelos países até o momento, contudo, geram uma queda inferior à exigida pela ciência na comparação com os índices de 2025:

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  • Até 2030: corte necessário de 18% nas emissões globais para a rota de 1,5°C, contra uma redução de 5% a 8% prevista pelas promessas atuais dos países;
  • Até 2035: corte necessário de 45% nas emissões globais para a rota de 1,5°C, frente a uma redução de 11% a 15% projetada com a implementação total das NDCs;
  • Até 2040: corte necessário de 69% nas emissões globais em relação aos níveis de 2025 para garantir o retorno ao limite no fim do século.

Saída dos EUA do Acordo de Paris e histórico de emissões em 2025

O agravamento nas projeções de temperatura em comparação com o relatório divulgado em 2025 — que estimava um aquecimento entre 2,3°C e 2,5°C caso os planos nacionais fossem cumpridos — decorre da atualização de dados históricos e da saída formal dos Estados Unidos do Acordo de Paris sob a administração do presidente Donald Trump. Essa retirada fez com que as projeções de emissões globais para 2035 ficassem cerca de 3 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente mais altas no levantamento de 21 de outubro de 2026. Em 2025, o total global de emissões somou 58,4 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, volume ligeiramente inferior ao do ano anterior em razão da queda nos incêndios florestais frente a 2024, mas com alta contínua na queima de combustíveis fósseis e crescimento de 0,7% nas emissões do G20, grupo das maiores economias que responde por 76% do total mundial sem contar o uso da terra.

O Acordo de Paris foi adotado em 2015, durante a 21ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP21), com o compromisso de manter o aquecimento da Terra bem abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais e de buscar esforços para limitá-lo a 1,5°C. Desde 2015, segundo o relatório do PNUMA, a capacidade mundial de geração de eletricidade renovável cresceu três vezes mais rápido do que o previsto, enquanto a instalação de energia solar fotovoltaica avançou sete vezes acima do esperado.

Até 1º de setembro de 2026, 124 países, que juntos concentram 75% das emissões globais, haviam entregue a terceira geração de suas NDCs. Os dados divulgados pelo PNUMA servirão de base para os negociadores na 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), marcada para ocorrer entre a segunda-feira, 9 de novembro de 2026, e o dia 20 de novembro de 2026, na cidade de Antália, na Turquia.

Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing

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