Por que alguns adultos digerem leite e outros não? Entenda a explicação genética

Mulher bebendo leite - eggeegg/shutterstock.com

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Estudos genéticos e evolutivos apontam que a persistência da lactase na vida adulta surgiu de forma independente em diferentes populações humanas ao longo de milhares de anos. A manutenção da atividade da enzima que digere o leite está diretamente associada à domesticação de animais leiteiros, ao consumo da bebida e à seleção natural, enquanto de 65% a 70% da população adulta mundial apresenta redução na capacidade de processar o nutriente após a infância.

De acordo com uma revisão científica conduzida pelas pesquisadoras Laure Ségurel e Céline Bon, do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e do Muséum National d’Histoire Naturelle, na França, a capacidade de digerir o açúcar do leite na fase adulta é um caso de evolução convergente e de coevolução entre genes e cultura. Os dados sobre a adaptação biológica humana foram reunidos em levantamento divulgado nesta quarta-feira (21).

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Por que a produção da enzima lactase diminui após a infância?

O leite contém lactose, um tipo de açúcar que precisa ser dividido pela enzima lactase para ser absorvido pelo intestino delgado. Durante a fase de amamentação, a atividade dessa enzima permanece elevada, o que permite aos bebês aproveitar os nutrientes da bebida. Após o período de desmame, a produção de lactase cai naturalmente na maioria dos seres humanos.

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Essa queda na atividade enzimática é chamada pela medicina de não persistência da lactase ou hipolactasia primária. Trata-se de uma condição biológica comum da espécie humana, e não necessariamente de uma doença. Quando a lactose consumida não é digerida no intestino delgado, ela segue diretamente para o intestino grosso, onde passa por um processo de fermentação causado por bactérias.

A fermentação intestinal pode provocar sintomas como gases, distensão abdominal, cólicas e diarreia. A intensidade dessas reações varia conforme a quantidade de laticínios ingerida e a tolerância individual de cada organismo. O reconhecimento dessa variação natural ajuda na interpretação dos desconfortos gástricos sem que o quadro seja classificado automaticamente como uma patologia.

Foto: Mulher segurando garrafa de leite enquanto faz compras – Anatoliy Cherkas/shutterstock.com

Classificação clínica e dados genéticos da persistência da lactase

Os levantamentos genéticos, populacionais e clínicos estabelecem parâmetros exatos sobre o funcionamento da enzima e o alcance das mutações no mundo e no Brasil:

  • População global sem persistência: de 65% a 70% é a proporção estimada da população adulta mundial que registra redução na capacidade de digerir a lactose após a infância.
  • Incidência no Brasil: 43% é a proporção de brasileiros brancos e pardos que possuem o alelo (forma alternativa de um mesmo gene) de persistência da lactase, segundo estudo publicado na biblioteca científica SciELO.
  • Mutações mapeadas: 5 variantes genéticas conhecidas são apontadas na revisão científica como associadas ao fenótipo (característica observável do organismo) de manutenção da enzima na fase adulta.
  • Vantagem evolutiva: de 4% a 5% por geração é a vantagem seletiva estimada proporcionada pela persistência da lactase nos últimos 10 mil anos de evolução humana.
  • Deficiência primária: redução gradual e natural da produção de lactase após a infância.
  • Deficiência secundária: queda enzimática provocada por lesão ou infecção intestinal, quadro geralmente reversível.
  • Deficiência de desenvolvimento: condição observada em bebês prematuros.
  • Deficiência congênita: alteração rara na qual a ausência da enzima está presente desde o nascimento.

Diferenças da persistência da lactase entre Europa, África e Ásia em estudo de 2017

A base de referência para a análise da distribuição global dessas mutações é o artigo de revisão intitulado “Sobre a Evolução da Persistência da Lactase em Humanos”, em tradução livre (“On the Evolution of Lactase Persistence in Humans”), publicado originalmente em 2017 no volume 18 da revista científica Annual Review of Genomics and Human Genetics. O trabalho de Laure Ségurel e Céline Bon demonstra que a característica não surgiu da mesma maneira em todos os povos.

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Na Eurásia, e especialmente no continente europeu, a manutenção da digestão do leite na vida adulta é majoritariamente associada a uma única variante genética principal, identificada como o polimorfismo LCT-13910C>T (uma variação na sequência do DNA localizada próximo ao gene LCT). Já as populações africanas apresentam uma diversidade maior de variantes genéticas ligadas ao mesmo resultado biológico, o que confirma que a adaptação ocorreu de modo independente em grupos distintos.

A frequência com que a persistência da lactase aparece nos adultos varia amplamente de acordo com a ancestralidade de cada grupo. A característica é muito elevada em populações originárias do noroeste da Europa, mas mostra-se reduzida em grande parte das populações do leste asiático, refletindo históricos distintos de hábitos alimentares e de pressões ambientais.

Cinco fatores evolutivos e o consumo de derivados do leite

A disseminação das variantes genéticas que mantêm a lactase ativa dependeu de cinco fatores principais ao longo da história humana. O processo começou com a domesticação de bovinos, cabras e ovelhas, somada ao consumo frequente de leite por comunidades pastoris. Em ambientes específicos, a seleção natural atuou favorecendo os indivíduos capazes de digerir a bebida na fase adulta.

Em períodos de escassez de alimentos, o leite funcionava como fonte direta de água, energia, proteínas e nutrientes, de acordo com as condições locais de produção e conservação. Os adultos que digeriam a lactose sem sofrer diarreia e perda de líquidos obtiveram vantagem de sobrevivência, facilitando a transmissão hereditária dessas variantes genéticas de pais para filhos ao longo das gerações.

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Mesmo em populações que não desenvolveram alta frequência da mutação genética, práticas culturais permitiram o aproveitamento do alimento na dieta adulta. O processo de fermentação do leite utilizado para fabricar queijos e iogurtes reduz o teor de lactose dos produtos finais, possibilitando o consumo de derivados lácteos com menor ocorrência de sintomas digestivos.

Beatriz: Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.