Tecnologia monitora sinais biológicos para investigar causas de transtornos mentais

Cérebro, lupa

Cérebro, lupa - ahmetmapush/shutterstock.com

Pesquisadores do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) passaram a utilizar a plataforma Multimodal Brain/Body Imaging Laboratory (MoBILab) em São Paulo e Porto Alegre para monitorar, ao mesmo tempo, a atividade cerebral, os movimentos oculares e os sinais fisiológicos de crianças e jovens. O equipamento integra o projeto Conexão Mentes do Futuro, teve a operação divulgada na terça-feira (20) e busca investigar as origens genéticas e ambientais dos transtornos mentais para antecipar diagnósticos.

A tecnologia foi instalada no Hospital das Clínicas de São Paulo e no Centro de Pesquisa Clínica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre após um investimento de R$ 1,5 milhão para a chegada do sistema ao país. Com a implementação da estrutura, os cientistas passam a avaliar a terceira geração de participantes do estudo, aplicando o rastreamento biológico aos filhos dos jovens acompanhados originalmente pela pesquisa.

O pesquisador e gerente de dados do CISM, André Simioni, afirmou que a ferramenta muda a forma de observar o desenvolvimento infantil ao adicionar medidas diretas do organismo ao histórico clínico das famílias. “Essa integração nos permite cruzar as trajetórias de vida e os diagnósticos dos pais com as assinaturas biológicas eletroencefalograma, rastreio ocular e biossinais dos seus descendentes. Deixamos de depender apenas de autorrelatos ou relatos parentais para observar diretamente como o risco e a resiliência se manifestam fisiologicamente”, disse Simioni, que recebeu treinamento de operação da plataforma em Nova York, na sede da organização sem fins lucrativos Child Mind Institute (CMI).

Como a plataforma MoBILab coleta sinais do cérebro e do corpo

O sistema MoBILab sincroniza em tempo real as respostas neurológicas e corporais enquanto a criança executa atividades comuns da rotina escolar e doméstica. Para captar essas informações simultaneamente, os voluntários vestem três dispositivos combinados: um capacete de eletroencefalografia (EEG, exame que registra a atividade elétrica do cérebro), óculos de rastreamento ocular (chamado em inglês de eye tracking, que grava para onde e como a pessoa olha) e uma pulseira de monitoramento fisiológico usada no dia a dia.

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Durante a avaliação, o equipamento registra padrões respiratórios, frequência cardíaca, condutância da pele, movimentos corporais, fala, expressões faciais e desempenho motor e cognitivo. O objetivo é medir o comportamento do cérebro e do corpo diante de estímulos variados, incluindo o uso de aplicativos e a exibição de vídeos no YouTube.

O protocolo de testes nos hospitais de São Paulo e de Porto Alegre submete os participantes a uma sequência padronizada de atividades que ativam diferentes áreas cerebrais. Segundo Simioni, a captura direta evita distorções comuns em entrevistas clínicas tradicionais. “Às vezes você avalia uma criança que é mais retraída, ela acaba não relatando tão bem, ou uma criança que quer parecer mais legal para o entrevistador [pesquisador], então nem sempre é muito confiável. Já quando você pega dados mais objetivos, como rastreio ocular e espontaneidade no movimento, é possível obter dados que são mais replicáveis”, declarou o pesquisador.

Dados de operação, locais e investimentos da plataforma MoBILab

A chegada do laboratório multimodal ao Brasil ocorreu por meio de uma parceria entre o CISM e o Child Mind Institute, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Stavros Niarchos Foundation (SNF) Global Center, ligado ao instituto norte-americano. Os parâmetros de funcionamento, prazos e valores dos projetos articulados pelo centro envolvem os seguintes dados:

  • Locais de instalação do MoBILab: Hospital das Clínicas de São Paulo (SP) e Centro de Pesquisa Clínica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (RS).
  • Duração da sessão de coleta: cerca de 1 hora e meia por participante.
  • Tarefas executadas no teste: desenhar tracejados com as duas mãos, completar sequências de letras e números, assistir a animações e vídeos no computador e reproduzir sons em um microfone.
  • Investimento no equipamento MoBILab: R$ 1,5 milhão para trazer a plataforma ao Brasil.
  • Investimento no Módulo IV do CISM: R$ 22,8 milhões aportados pela FAPESP e pela Stavros Niarchos Foundation para o novo núcleo de pesquisa.
  • Cronograma institucional em 2026: anúncio do Módulo IV em 14 de janeiro de 2026, registro da instalação dos equipamentos em 20 de julho de 2026 e divulgação da operação com as crianças em 20 de outubro de 2026.

Estudo Conexão Mentes do Futuro acompanha 2.500 jovens e três gerações

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O projeto Conexão Mentes do Futuro, denominado internacionalmente Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC, na sigla em inglês), acompanha há mais de 15 anos cerca de 2.500 jovens pertencentes a 2.511 famílias nas capitais paulista e gaúcha. O levantamento já gerou um banco de dados com centenas de milhares de variáveis e resultou na publicação de aproximadamente 160 artigos científicos em periódicos internacionais.

Com o uso do MoBILab, a pesquisa estabelece uma ponte entre três gerações ao reunir informações dos participantes originais, dos pais deles e, agora, dos filhos. “A atual base de dados já consolida mais de uma década de um histórico de avaliações clínicas detalhadas dos participantes do projeto. Agora, essa tecnologia multimodal será aplicada aos filhos deles”, afirmou André Simioni. O pesquisador completou que a equipe busca converter o material coletado em ferramentas práticas: “Esperamos transformar esses dados complexos em conhecimentos que possam antecipar diagnósticos e personalizar intervenções precoces para as próximas gerações”.

Fora do grupo de países de alta renda, o Brasil tornou-se o primeiro e um dos únicos ao lado da África do Sul a receber a tecnologia MoBILab de forma estruturada. O centro de imagem multimodal (MoBI Core) do Child Mind Institute desenvolve softwares de controle de qualidade e protocolos padronizados para traduzir os dados recolhidos nos laboratórios do Brasil, da África do Sul e dos Estados Unidos, permitindo comparar o desenvolvimento de jovens que vivem em ambientes distintos.

Integração ao Módulo IV do CISM e aplicação no SUS

Além de atender ao estudo intergeracional, a plataforma MoBILab será integrada ao Módulo IV do CISM, núcleo dedicado à ciência de dados, neurociência, epidemiologia de base populacional e assistência na rede pública. O projeto é coordenado pelos professores Guilherme Polanczyk e Arthur Caye. De acordo com dados destacados pelo CISM, mais de 80% dos jovens brasileiros que apresentam necessidades de saúde mental não recebem atendimento adequado.

Sediado no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-FMUSP), o CISM atua como um Centro de Pesquisa Aplicada da FAPESP e reúne cientistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ) e do Centro Universitário Max Planck (UniMAX), em Indaiatuba. Antes da criação do quarto núcleo, o centro já operava três divisões voltadas à neurociência de precisão, à saúde mental digital e inovação e à ciência da implementação com transferência de tecnologia.

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O coordenador do CISM e chefe do Departamento de Psiquiatria da FMUSP, Euripedes Constantino Miguel, disse que a expansão conecta a produção acadêmica ao serviço público de saúde. “Esta é uma oportunidade histórica para mudar os rumos da saúde mental juvenil no Brasil. Estamos indo além de estudos isolados para criar um ecossistema integrado e baseado em dados, incluindo desde o mapeamento populacional até a neurociência e o atendimento na linha de frente do SUS. Este módulo fornecerá as evidências e as ferramentas que os nossos formuladores de políticas públicas e profissionais clínicos tanto precisam”, declarou. Como próximo passo dentro do Módulo IV, o centro prevê a realização do primeiro levantamento epidemiológico em larga escala sobre saúde mental juvenil no país, que avaliará 8 mil participantes com idades entre 3 e 24 anos para embasar protocolos de atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS).

Beatriz: Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.