Como as canetas emagrecedoras podem afetar a fertilidade e a qualidade dos óvulos

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Caneta emagrecedora - Artmim/shutterstock.com Foto: Caneta emagrecedora - Artmim/shutterstock.com

Especialistas em reprodução assistida do Brasil e pesquisadores da empresa canadense Future Fertility investigam a relação entre o uso de canetas emagrecedoras e a qualidade dos óvulos, conforme levantamento médico divulgado em 16 de outubro de 2026. Embora o emagrecimento e o controle metabólico ajudem na ovulação, os médicos alertam que medicamentos à base de GLP-1 (hormônio ligado ao controle da glicose e da saciedade) não tratam a infertilidade e precisam ser interrompidos antes da concepção.

O alerta ganhou novos desdobramentos nesta quinta-feira (22) com as orientações clínicas voltadas a pacientes em idade reprodutiva. A médica ginecologista especialista em reprodução assistida Daiane Pagliarin (CRM 30423 / RQE 23366) destaca a diferença entre o ganho metabólico e o tratamento direto de fertilidade. “Para alguns casais, as canetas emagrecedoras podem até favorecer o cenário reprodutivo, já que a perda de peso e o controle metabólico podem favorecer a ovulação nas mulheres e melhorar alguns parâmetros da fertilidade masculina. Mas isso não significa que essas medicações tratem a infertilidade”, afirmou a especialista.

Como as canetas emagrecedoras e a inteligência artificial da Future Fertility entram na avaliação dos óvulos?

Na medicina reprodutiva, a idade da paciente e a quantidade de óvulos costumam guiar os primeiros diagnósticos, mas não determinam sozinhas o desfecho clínico. Mulheres da mesma faixa etária e com número semelhante de células maduras podem ter resultados opostos nos tratamentos, o que torna a avaliação da qualidade oocitária (relativa aos óvulos) um desafio médico.

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Para reduzir essa dificuldade, a empresa canadense Future Fertility criou sistemas de inteligência artificial que examinam imagens de óvulos maduros em busca de padrões microscópicos invisíveis a olho nu. Essas tecnologias ainda não conseguem apontar isoladamente se uma caneta emagrecedora modificou a estrutura de um óvulo específico, mas oferecem aos cientistas parâmetros objetivos para medir como as mudanças metabólicas interferem na capacidade reprodutiva.

O portfólio da instituição canadense aplica dois softwares distintos conforme a modalidade de tratamento escolhida pela paciente:

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  • VIOLET: ferramenta direcionada a mulheres que planejam o congelamento de óvulos, responsável por emitir uma análise individualizada a partir de registros visuais das células maduras coletadas.
  • MAGENTA: sistema empregado em procedimentos de fertilização in vitro (FIV, técnica em que a fecundação ocorre em laboratório) e de injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI, método no qual um único espermatozoide é introduzido diretamente no óvulo), atribuindo uma nota para a chance de formação de blastocistos (embriões em estágio avançado de desenvolvimento).
mulher grávida
Foto: mulher grávida – Foto: SeventyFour/shutterstock.com

Limitações históricas nos exames de óvulos frente à análise do sêmen

O uso de algoritmos para observar células reprodutivas femininas busca preencher uma lacuna antiga dos consultórios. Ao contrário dos parâmetros do sêmen, que são facilmente mensuráveis em exames laboratoriais convencionais, a verificação objetiva da qualidade dos oócitos historicamente careceu de ferramentas precisas de medição antes da etapa de fecundação, dificultando o acompanhamento isolado do efeito de medicamentos ou de mudanças no peso da mulher.

Diante desse cenário técnico, a ciência ainda não confirmou se os medicamentos agonistas do receptor de GLP-1 exercem efeito biológico direto sobre os óvulos, os espermatozoides, o desenvolvimento do embrião ou o ambiente endometrial (revestimento interno do útero onde o embrião se fixa), ou se os ganhos ocorrem apenas pelo controle do peso. O endocrinologista reprodutivo, diretor médico e cofundador da Future Fertility, Dan Nayot, detalha essa dúvida científica. “Sabemos que o peso e a saúde metabólica podem influenciar os resultados reprodutivos, mas há uma oportunidade de aprender mais sobre quais fatores ao longo da jornada da fertilidade podem se beneficiar dos medicamentos à base de GLP-1. Também não está claro se quaisquer benefícios reprodutivos são decorrentes de melhorias na saúde metabólica ou de efeitos diretos dos medicamentos. Será que eles poderiam influenciar a qualidade dos óvulos ou do esperma e, consequentemente, o desenvolvimento embrionário? Será que elas poderiam melhorar o ambiente endometrial para a implantação do embrião? Ou seria uma combinação desses fatores? São necessárias mais pesquisas para compreender como esses medicamentos podem impactar os fatores individuais que contribuem para o sucesso da fertilidade”, declarou Nayot.

Prazos de suspensão das canetas emagrecedoras e cuidados no planejamento da gravidez

O acompanhamento médico individualizado é obrigatório para mulheres e casais que utilizam fármacos para perda de peso e pretendem iniciar protocolos de reprodução assistida ou tentar a concepção natural. As orientações clínicas definem condutas específicas porque não há estudos científicos que atestem a segurança dessas substâncias durante a gestação e porque os princípios ativos alteram processos digestivos e interagem com outros fármacos.

De acordo com Daiane Pagliarin, o planejamento reprodutivo exige atenção redobrada à janela de eliminação das substâncias pelo organismo e ao método de contracepção adotado antes da tentativa de gravidez. “Essas medicações devem ser suspensas antes da gestação e não são indicadas durante a gravidez, porque ainda não existem estudos que garantam sua segurança”, disse a ginecologista, que orienta os pacientes a procurarem seus médicos responsáveis antes de qualquer alteração terapêutica.

Os prazos mínimos de interrupção e os cuidados clínicos variam conforme o princípio ativo da caneta emagrecedora e o procedimento previsto para a paciente:

  • Semaglutida: suspensão obrigatória do uso pelo prazo mínimo de 2 meses antes de uma gravidez planejada.
  • Tirzepatida: interrupção do tratamento pelo período mínimo de 1 mês antes da concepção planejada, com alerta adicional de que a substância pode reduzir ou interferir na eficácia de anticoncepcionais orais.
  • Congelamento de óvulos e FIV: definição do momento exato de parada junto à equipe médica, visto que a punção folicular (coleta dos óvulos) costuma utilizar sedação anestésica e esses medicamentos retardam o esvaziamento gástrico (tempo que o estômago leva para transferir o alimento para o intestino).

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Enquanto novos estudos sobre a ação celular dessas substâncias seguem em andamento, a recomendação médica para quem utiliza os fármacos e planeja ter filhos ou preservar a fertilidade é agendar uma consulta com o ginecologista ou especialista em reprodução assistida para ajustar a suspensão medicamentosa e avaliar em conjunto fatores como idade, peso, taxas metabólicas e reserva ovariana.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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