University College Dublin reconstrói evolução da varíola ovina

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Rolos de papel enrolado velho e vela, Pergaminhos Foto: Rolos de papel enrolado velho e vela, Pergaminhos - New Africa/shutterstock.com

Pesquisadores liderados pela University College Dublin (UCD), na Irlanda, recuperaram o DNA antigo do vírus da varíola ovina em pergaminhos medievais europeus e em dentes de ovelhas da Idade do Bronze. A investigação científica reconstruiu 21 novos genomas que rastreiam a evolução do patógeno ao longo de mais de 3.700 anos, desde cerca de 1700 a.C., na estepe eurasiana, até o início da Idade Moderna na Europa Ocidental.

O trabalho tem o doutorando Louis L’Hôte como primeiro autor e o professor associado da Escola de Agricultura e Ciência dos Alimentos da UCD, Kevin G. Daly, como autor supervisor. “A recuperação de DNA antigo de patógenos mudou completamente a nossa compreensão das doenças infecciosas no passado, e aqui mostramos que o pergaminho também pode preservar o DNA de patógenos animais”, afirmou L’Hôte, em tradução livre.

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Como os pergaminhos medievais preservaram o vírus da varíola ovina?

formato do DNA
Foto: formato do DNA – Piyaset/Shutterstock.com

Os pergaminhos históricos eram produzidos a partir de peles de animais, como ovelhas, cabras e bezerros, que podiam carregar agentes infecciosos no momento do abate. Durante a preparação do couro para a escrita, o material genético dos microrganismos presentes na pele acabou retido e conservado na matéria orgânica por séculos, transformando os documentos em registros biológicos de antigas enfermidades veterinárias sem que a extração laboratorial comprometa a estrutura física dos acervos.

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Em diversos códices analisados pela equipe internacional, múltiplas páginas do mesmo volume continham o material genético do patógeno, o que indica o uso de peles de animais infectados na manufatura das folhas. Os cientistas também identificaram o vírus da varíola ovina em pergaminhos fabricados com pele de bezerro e de cabra. Esse dado aponta para a ocorrência de casos raros de infecção entre espécies distintas ou para a contaminação cruzada do material durante o processo artesanal de fabricação das peças.

A descoberta do material genético ocorreu em documentos preservados em instituições do Reino Unido, incluindo a Universidade de Cambridge, que participou do projeto com coautores e cedeu acesso a obras de seu acervo. Entre os manuscritos históricos onde o vírus foi detectado estão o Evangelho de York (York Gospels), um livro iluminado com cerca de 1.000 anos de idade, um exemplar do século VIII das Epístolas de São Paulo mantido no Trinity College Cambridge e o Corpus Glossary, pertencente ao Corpus Christi College Cambridge e reconhecido como um dos mais antigos dicionários da língua inglesa.

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“A fabricação de pergaminhos tem sido considerada um ofício em extinção, mas estamos começando a entender o quanto do passado ela reteve. Este projeto mostra que os pergaminhos não apenas preservam nossa história cultural por centenas de anos, mas também o panorama de doenças em nossos rebanhos no período medieval”, declarou Kevin G. Daly.

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Separação das linhagens na Idade do Bronze e origem na Eurásia

Para recuar a linha do tempo além da Idade Média, os pesquisadores combinaram os fragmentos retirados dos manuscritos europeus com amostras extraídas de dentes de ovelhas da Idade do Bronze, coletados em antigos assentamentos pastoris na estepe eurasiana. A comparação entre o material arqueológico e o histórico permitiu calibrar o relógio molecular do agente infeccioso e mapear suas mutações ao longo dos milênios.

Com base nos 21 genomas reconstruídos, a equipe estimou que as principais linhagens do gênero Capripoxvirus — grupo que reúne o vírus da varíola ovina, o vírus da varíola caprina e o vírus da dermatite nodular contagiosa — se separaram em uma janela entre 11.500 e 3.700 anos atrás. Esse intervalo histórico coincide diretamente com o período de domesticação de animais e com os fluxos de migração de rebanhos de ovelhas que partiram da estepe em direção ao continente europeu.

Dados técnicos e cronologia do estudo sobre a varíola ovina

O levantamento genômico reuniu parâmetros cronológicos e institucionais específicos sobre a circulação do patógeno na Eurásia:

  • Publicação eletrônica na revista Science Advances: 2 de setembro de 2026.
  • Edição impressa e divulgação oficial: 4 de setembro de 2026, no volume 12, número 36 da publicação.
  • Instituição líder: University College Dublin (UCD), sediada em Dublin, na Irlanda.
  • Patógeno identificado: vírus da varíola ovina (sigla em inglês SPPV, de sheeppox virus), pertencente ao gênero Capripoxvirus.
  • Volume de dados genéticos: 21 novos genomas antigos reconstruídos.
  • Recorte temporal documentado: mais de 3.700 anos de ameaça contínua à segurança alimentar, com registros desde cerca de 1700 a.C.

Impacto econômico nos rebanhos atuais e surto na Grécia

A varíola ovina não infecta seres humanos, mas atua como uma doença de alta capacidade de contágio entre os animais, espalhando-se rapidamente pelas criações. A infecção provoca taxas elevadas de mortalidade, com impacto mais severo sobre os filhotes e animais jovens, além de reduzir a capacidade produtiva de lã, carne e leite nas propriedades rurais afetadas.

O estudo, publicado originalmente em setembro de 2026 e que voltou a repercutir no meio científico em outubro de 2026, conecta o rastreamento histórico a um problema sanitário ativo no continente europeu. “Pessoas ao redor do mundo ainda estão lutando contra esse patógeno — há atualmente um surto de varíola ovina na Grécia, causando muitos danos econômicos”, disse Louis L’Hôte.

O avanço na técnica de extração de DNA sem destruição das páginas abre caminho para que novas pesquisas examinem coleções bibliográficas em diferentes países a fim de mapear a evolução de outras doenças veterinárias. “É possível que arquivos e bibliotecas ao redor do mundo também contenham os vestígios genéticos de surtos de doenças em animais no passado”, concluiu o pesquisador da University College Dublin.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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