O acesso a pelo menos 80 mil torres de celular nos Estados Unidos está no centro das negociações abertas pela SpaceX com empresas de infraestrutura de telecomunicações, incluindo a Crown Castle Inc., conforme informações divulgadas nesta quinta-feira (22). O plano da companhia liderada por Elon Musk tem como objetivo expandir a rede terrestre da Starlink Mobile e criar a quarta grande operadora móvel nacional do país, em disputa direta com AT&T, Verizon e T-Mobile.
Durante a teleconferência de resultados do terceiro trimestre realizada em 21 de outubro de 2026, o diretor-executivo (CEO) da Crown Castle, Chris Hillabrant, foi questionado sobre tratativas de locação com a SpaceX, a Amazon e outras operadoras via satélite. Sem citar clientes específicos, o executivo confirmou o diálogo aberto no setor. “Acho que não quero entrar em detalhes específicos de clientes, mas podem assumir que estamos conversando com todas as partes”, declarou Hillabrant, em tradução livre.
Negociações com a Crown Castle e reação das ações das operadoras nos EUA
A Crown Castle Inc. opera cerca de 40 mil torres em território norte-americano e figura entre as principais interlocutoras da empresa espacial ao lado de outras companhias do setor, como a American Tower Corp. e a Vertical Bridge Holdings. No modelo adotado pelas telecomunicações tradicionais, as operadoras alugam espaço físico nessas estruturas já prontas para instalar suas antenas, prática mais econômica do que construir e manter instalações próprias em todo o país. Caso atinja a meta mínima de 80 mil pontos de transmissão, a SpaceX passará a utilizar cerca de metade das 158,5 mil torres atualmente em operação nos Estados Unidos.
A notícia sobre a busca por infraestrutura terrestre provocou reação imediata no mercado financeiro norte-americano na quinta-feira (22). Enquanto os papéis das operadoras tradicionais sentiram o peso de um novo concorrente nacional, a proprietária das estruturas registrou valorização expressiva nas negociações realizadas após o fechamento do pregão regular:
- Crown Castle Inc.: alta aproximada de 10% nas negociações pós-pregão, chegando ao pico de 12,21% de valorização.
- AT&T, Verizon e T-Mobile: queda entre 3% e 5% no valor das ações após a divulgação das tratativas da concorrente.
Rede híbrida da Starlink Mobile com 15 mil satélites e cobertura interna
A estratégia de telecomunicações desenhada pela companhia não se limita ao aluguel de estruturas no solo e prevê uma operação híbrida combinada com a frota espacial. Em teleconferência da própria SpaceX realizada na mesma semana, o fundador e CEO da empresa, Elon Musk, confirmou a união das duas frentes tecnológicas para atender os usuários de telefonia móvel. “Também teremos capacidade direta para o aparelho, direta para o aparelho de alta largura de banda, e estaremos construindo nossa rede terrestre”, afirmou Musk, em tradução livre.
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A necessidade de instalar equipamentos em solo urbano foi detalhada pela presidente da SpaceX, Gwynne Shotwell, ao analisar o comportamento do tráfego de dados móveis. De acordo com a executiva, entre 85% e 93% da conectividade móvel atual é transportada por redes Wi-Fi, mas as torres terrestres continuam indispensáveis em áreas densamente povoadas para garantir que o sinal de celular atravesse paredes e alcance ambientes internos, locais onde a conexão direta via satélite encontra barreiras físicas.
Aprovação na FCC e compras bilionárias de radiofrequência pela SpaceX
Antes de avançar nas conversas com as detentoras de torres, a empresa acumulou autorizações regulatórias e faixas de radiofrequência necessárias para operar como uma companhia telefônica de grande porte. No início de outubro de 2026, a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC, o órgão regulador de telecomunicações do país) aprovou o lançamento de 15 mil satélites de segunda geração (V2) da SpaceX equipados com tecnologia de conexão direta ao dispositivo (conhecida pela sigla em inglês D2D). Segundo posicionamento da própria empresa, a liberação regulatória e a aquisição de novas faixas de transmissão servem para “pavimentar o caminho para a Starlink Mobile se tornar uma grande operadora móvel nos EUA”, em tradução livre.
Para sustentar o tráfego de voz e dados em aparelhos comuns, a companhia realizou investimentos bilionários na compra de licenças de espectro radioelétrico nos últimos meses:
- Portfólio nacional de 800 MHz: adquirido da Grain Management em acordo recente avaliado em US$ 8 bilhões.
- Licenças AWS-3: compra de três autorizações de radiofrequência que pertenciam à empresa Tristar.
- Faixa de 2 GHz: aquisição de licenças da EchoStar realizada no ano anterior pelo valor de US$ 17 bilhões (cerca de R$ 85,7 bilhões, pela cotação de fechamento do Banco Central de 22 de outubro de 2026, de R$ 5,04 por dólar).
Impacto do novo serviço da Starlink Mobile e situação no Brasil
Com a combinação de satélites para áreas remotas e antenas urbanas para centros populosos, a entrada da Starlink Mobile desenha um quarto competidor nacional no mercado dos Estados Unidos. Para os consumidores brasileiros, onde a Starlink já comercializa planos de internet banda larga residencial via satélite, a operação norte-americana funciona apenas como um modelo técnico de observação, uma vez que não existe anúncio, preço ou previsão oficial de lançamento da operadora de telefonia móvel terrestre no Brasil.
Procuradas para comentar o andamento das negociações de locação das 80 mil torres nos Estados Unidos, a SpaceX e a Vertical Bridge Holdings não responderam aos pedidos de esclarecimento, enquanto a American Tower Corp. recusou-se a comentar o assunto.
