A decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de estender a votação do segundo turno das eleições até as 19h deste domingo (25) resultou em baixa procura nas seções que permaneceram abertas e deixou eleitores diante de portões fechados pelo país. Como a ordem judicial foi assinada às 17h01, um minuto após o encerramento oficial, a maioria dos locais já havia concluído os trabalhos e não pôde reabrir as urnas eletrônicas.
Quase uma hora após a determinação inicial, às 17h49, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, enviou ofício aos tribunais regionais definindo que a ampliação de duas horas valeria apenas para as seções que ainda não haviam encerrado a votação. Em despacho de esclarecimento posterior, Zanin confirmou a regra: “Sem prejuízo das apurações necessárias oportunamente e suas consequências jurídicas, determino que a decisão seja cumprida nos locais onde as urnas não foram fechadas, com a posterior totalização dos votos nas condições enunciadas, sendo que, nas urnas que já foram fechadas os votos serão computados e totalizados, nos termos anteriormente mencionados.”
Eleitores encontram portões fechados no Rio de Janeiro após prorrogação da votação
No Colégio Pensi, localizado no bairro do Flamengo, em uma das maiores zonas eleitorais da zona sul do Rio de Janeiro, os portões fecharam pontualmente às 17h e pelo menos sete pessoas que chegaram após esse horário ficaram sem votar. Esses cidadãos receberam uma Declaração de Comparecimento sem Voto, documento assinado pelo presidente da seção eleitoral para atestar que compareceram ao local, mas não conseguiram registrar a escolha na urna. Entre o grupo estava a contadora Manuela Tunas, cujo voo vindo do Uruguai atrasou e pousou às 17h.
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“Eu consegui chegar até aqui a tempo para tentar votar, já que eles prorrogaram. Mas, eu não consegui”, afirmou Manuela. Para a contadora, a manutenção de apenas parte das seções funcionando cria assimetria no processo: “Um absurdo! Porque algumas pessoas podem votar e outras não, é injusto”.
A estudante Gabriele Eduarda de Azevedo também retornava de viagem e buscou o colégio após o anúncio do novo horário. “É frustrante. É complicado porque eu já tinha aceitado que eu não ia votar, então pra mim não era um problema. A partir do momento que solta essa nota de que pode ir até às sete horas, eu espero que isso seja respeitado e que eu tenha até as sete horas pra votar”, disse.
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Já a aposentada Gina Cláudia Nunes, de 70 anos, encontrou sua escola de votação fechada e recebeu orientação de pessoas que estavam na porta para procurar o Colégio Pensi. “Me orientaram para vir para o Pensi, que ainda tava aberto. Só que chegando no Pensi, eles falaram que não tinha como exercer o direito de voto porque as urnas já estavam fechadas e a minha zona não era essa”, relatou. Ela completou: “Frustração total. Já tenho 70 anos, votei no primeiro turno e gostaria de realizar o voto no segundo turno também”.
Funcionamento das seções eleitorais em Brasília, São Paulo e Campinas
Em Brasília, o Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF) informou que as urnas foram encerradas às 17h em ponto, antes que a comunicação sobre o horário estendido chegasse às equipes. Na Escola Classe 108, em Samambaia Sul, a presidente de seção Bruna Lourenço explicou que o dia transcorreu sem as filas do primeiro turno e que, ao toque do sinal das 17h, aguardou apenas o aviso do coordenador de que o prédio estava vazio para imprimir os boletins.
“As informações demoraram muito a chegar. Então, a gente ficou meio perdido, entendeu?”, declarou Bruna. “Muita gente só soube depois que já tinha finalizado, com urna entregue, com boletim zerésimo, urna e ata preenchidas e mídia entregue. Não tinha muito o que ser feito. Foi uma grande confusão”, acrescentou a presidente de seção, mencionando o documento inicial que comprova a ausência de votos no equipamento antes da abertura.
Na capital paulista, a seção 309 da 6ª Zona Eleitoral, situada perto de estação de metrô e de linhas de ônibus, foi um dos pontos que permaneceram abertos até as 19h. O mesário voluntário Lucas Suassuna contou que o movimento já era quase inexistente desde as 16h40. Às 17h, a equipe recebeu o aviso de que ainda não estava autorizada a fechar e, por volta das 17h10, veio a confirmação para seguir funcionando. “Desde que a gente teve a prorrogação do tempo de votação até às 19 horas, pelo que eu vi aqui, devem ter entrado, no máximo, umas três ou quatro pessoas”, afirmou Lucas.
Em Campinas, no interior de São Paulo, a advogada Amanda Vitorino votou pela manhã e, ao saber da decisão judicial, percorreu as escolas Professora Maria Julieta de Godói Cartezani, Tancredo Neves e Matilde Azevedo Egídio Setúbal. Ela encontrou os três locais fechados desde as 17h e eleitores do lado de fora, sem plano de contingência informado aos mesários. “Eu fui nas escolas para registrar o impacto da decisão tardia, pois na prática nao houve prorrogação”, declarou Amanda.
Falta de ônibus na Bahia e suspensão da apuração pelo TSE em 25 de outubro de 2026
A decisão liminar de Zanin no dia 25 de outubro de 2026 foi tomada na Reclamação (Rcl) 101.673, motivada por relatos de restrições e insuficiência na oferta de transporte público gratuito em municípios como Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, na Bahia. Pela regulamentação do TSE e pela jurisprudência do STF fixada na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 1031, ação usada para evitar ou reparar lesão a preceito constitucional, o poder público e as concessionárias têm a obrigação de manter 100% da frota coletiva rodando gratuitamente no dia do pleito. Diligências do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) em Salvador constataram a circulação de menos de 50% da frota de dias úteis, fato que levou à ordem de prisão do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, e ao acionamento do TSE e do STF pela campanha à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), além de pedidos apresentados pela campanha de Flávio Bolsonaro (PL) sobre dificuldades de deslocamento e chuvas.
No aspecto técnico, uma vez encerrada a votação na urna eletrônica e emitido o Boletim de Urna (BU), documento que registra o total de votos de cada seção, o equipamento bloqueia a reabertura para novos registros. Ainda não há confirmação oficial sobre a quantidade total exata de seções eleitorais que efetivamente permaneceram abertas entre 17h e 19h em todo o Brasil, em um universo de 158,7 milhões de eleitores aptos a votar no segundo turno. Por causa da medida, o TSE interrompeu a apuração no início da noite e só retomou a divulgação dos resultados após o fim do prazo extra, às 19h.
