Academia Chinesa identifica ferro gama na Lua e vê passado magnético

Lua - EcoPrint / shutterstock.com

Lua - EcoPrint / shutterstock.com

Pesquisadores liderados pela Academia Chinesa de Ciências identificaram, pela primeira vez em amostras naturais da Lua, nanopartículas de ferro gama preservadas em fragmentos trazidos do lado oculto do satélite pela missão Chang’e 6. A presença desse material intrigou os cientistas porque o elemento só se mantém estável sob temperaturas extremas, condições inexistentes no ambiente lunar atual.

A descoberta foi detalhada em 29 de setembro de 2026 no estudo intitulado “Magnetic vortex state of natural lunar γ-Fe”, publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Segundo o pesquisador Long Li, integrante da equipe nos Institutos de Ciências Físicas de Hefei, ligados à Academia Chinesa de Ciências, “este minúsculo fóssil magnético pode nos ajudar a entender melhor a antiga história magnética da Lua“, em tradução livre.

Leia também: Lua e Saturno ficam a 6 graus de distância no céu de Macapá

Como o ferro gama da Chang’e 6 resistiu às temperaturas da Lua

Em condições normais de temperatura, abaixo de 912 ºC, o ferro metálico encontra-se na conformação conhecida como alfa (α), a forma comum do metal. Já o ferro gama (γ-Fe) possui uma estrutura cristalina cúbica de face centrada, na qual os átomos se organizam em formato de cubo por causa do calor, mantendo-se estável em estado puro somente em temperaturas elevadas, na faixa entre 912 ºC e 1.394 ºC. Como a temperatura na superfície da Lua varia entre -248 ºC e 121 ºC, os cientistas descartam a possibilidade de o material ter se formado de maneira espontânea nas condições térmicas atuais do satélite natural.

Foto: Lua – Wirestock Creators / shutterstock.com

A explicação apontada pelos pesquisadores é que o ferro gama foi gerado pelo calor extremo provocado pelo impacto de um meteorito na superfície lunar. Após a colisão e a exposição às altas temperaturas necessárias para alterar a estrutura atômica do metal, houve um processo de resfriamento rápido auxiliado por traços de carbono, o que congelou e preservou a estrutura cúbica em temperatura ambiente.

Análise das amostras da Bacia Polo Sul-Aitken em Hefei

O trabalho de identificação foi conduzido por cientistas do Laboratório de Alto Campo Magnético dos Institutos de Ciências Físicas de Hefei, sob a liderança do professor e pesquisador Du Haifeng, com o suporte do professor Binghui Ge, da Universidade de Anhui, nas medições de microscopia. A equipe concentrou os testes em materiais recolhidos na Bacia Polo Sul-Aitken, localizada no lado oculto da Lua.

No resumo do artigo científico publicado na revista PNAS, os autores descrevem a descoberta de forma direta. “Aqui relatamos a identificação de γ-Fe estável em ambiente, preservado como partículas em escala nanométrica em fragmentos de vidro de impacto da Chang’e 6 provenientes da Bacia Polo Sul-Aitken”, afirmaram os pesquisadores no documento.

Para realizar os exames de microscopia eletrônica de transmissão (TEM, técnica que utiliza feixes de elétrons para observar estruturas na escala de átomos), os especialistas separaram materiais específicos do solo lunar, chamado de regolito, sob o código de catalogação CE6C0500YJFM003:

  • Quantidade total trazida pela missão em junho de 2024: quase 2 kg de amostras de solo do lado oculto da Lua;
  • Amostras selecionadas para o microscópio: 3 partículas representativas contendo ferro metálico;
  • Composição do material analisado: dois fragmentos de vidro de impacto e um fragmento de basalto;
  • Instituições envolvidas na medição: Laboratório de Alto Campo Magnético da Academia Chinesa de Ciências e Universidade de Anhui.

Fóssil magnético da Chang’e 6 e o passado do núcleo lunar

Além da surpresa química e térmica, o material funciona como uma espécie de cápsula do tempo para a ciência planetária. Atualmente, a Lua não possui um campo magnético global ativo, mas suas rochas e o solo retêm registros magnéticos do passado, que costumam ser carregados pelo ferro metálico comum em conformação alfa e por ligas de ferro-níquel, como os minerais kamacita e taenita. A missão chinesa Chang’e 6, que pousou no satélite em junho de 2024 e coletou as primeiras amostras da história vindas da face oculta lunar, abriu uma nova frente para essa investigação após mais de dois anos de análises sobre a origem dos materiais recolhidos.

Por meio de análises de holografia eletrônica, método que registra o comportamento de campos magnéticos em escala nanométrica, a equipe de Hefei constatou que as nanopartículas maiores de ferro gama formam estados de vórtice magnético estáveis. Essa característica permite que o material retenha sinais antigos com precisão, ajudando os cientistas a diferenciar se os campos magnéticos registrados nas rochas foram gerados pelo antigo dínamo do núcleo interno da Lua ou se foram produzidos de forma temporária durante grandes colisões de asteroides e meteoritos, além de fornecer pistas sobre a antiga presença de vulcões.

A expectativa dos pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências é que novas amostras com essas características sejam recolhidas e trazidas à Terra pelas próximas missões espaciais, o que permitirá aprofundar os dados obtidos até agora e testar novas hipóteses sobre a evolução geológica e magnética da Lua.

Leia também: Colisão na Lua abre cratera de 220 metros de largura, confirma Nasa

Janderson Luiz: Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol