Um panorama registrado pelo rover Curiosity, veículo robótico de exploração da NASA (agência espacial dos Estados Unidos), revelou uma paisagem nas encostas do Monte Sharp, em Marte, dominada por tons de azul e cinza. A imagem composta por seis fotografias contrasta com a coloração avermelhada característica do planeta e destaca formações rochosas esculpidas pelo vento que se estendem por cerca de 16 quilômetros.
As gravações originais ocorreram às 8h30 no horário local marciano, sob a iluminação do início da manhã, e foram enviadas à Terra para serem unidas digitalmente pela equipe da missão. Diferentemente do padrão adotado nos registros espaciais, os pesquisadores optaram por manter as cores captadas pela câmera Mastcam sem aplicar o filtro que simula a luz terrestre.
Processamento sem balanço de branco preservou o aspecto da manhã no Monte Sharp
Na rotina científica da missão Curiosity, as fotografias feitas pela câmera Mastcam passam por um ajuste técnico chamado balanço de branco antes da análise geológica. Esse procedimento reduz a interferência visual da poeira avermelhada que cobre grande parte do solo e permanece suspensa na atmosfera marciana, alterando a luz que chega à superfície. Ao simular como as rochas e o terreno pareceriam sob a luz do dia na Terra, a correção permite que os geólogos comparem materiais e identifiquem minerais com maior precisão, mas dessa vez o ajuste foi dispensado para preservar o aspecto matinal.
A tonalidade fria observada no primeiro plano do panorama não depende apenas da iluminação do amanhecer ou da ausência do filtro corretivo. De acordo com Mark Lemmon, co-investigador da câmera Mastcam-Z do rover Perseverance, rochas das quais o vento removeu a cobertura de poeira e áreas de areia soprada pelas correntes de ar apresentam naturalmente uma coloração cinza a azul-acinzentada, que se destaca em contraste direto com os tons vermelhos, alaranjados e amarelos ao redor.
Fatores ligados ao próprio equipamento fotográfico também influenciam o resultado final exibido na montagem. A resposta do sensor eletrônico e a calibração da câmera Mastcam — instrumento construído e operado pela empresa Malin Space Science Systems, sediada em San Diego, nos Estados Unidos — podem acentuar os tons azulados, fazendo com que a imagem sem balanço de branco não reproduza exatamente o que o olho humano enxergaria presencialmente no local.
Penhascos de 16 quilômetros no Monte Sharp têm origem vulcânica investigada pela NASA
No horizonte da imagem panorâmica, a câmera do Curiosity registrou uma série de penhascos íngremes moldados pela ação do vento, estruturas geológicas conhecidas tecnicamente como yardangs. Essa camada rochosa ocupa uma faixa de aproximadamente 16 quilômetros (10 milhas) na porção noroeste do Monte Sharp, montanha também denominada oficialmente Aeolis Mons.
Confira também: Curiosity fotografa amanhecer natural e revela yardangs em Marte
Para Ashwin Vasavada, cientista de projeto da missão Curiosity no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL, na sigla em inglês) da NASA, a formação chama a atenção pelas diferenças em relação ao terreno vizinho. “A camada de yardangs parece fora de lugar. Tem a cor errada, as camadas se inclinam em um ângulo estranho e quase parece que foi rebocada por cima. Mas é isso que torna empolgante chegar até lá. Ninguém tem certeza do que exatamente criou essa camada, mas uma ideia é que possa ser cinza depositada por antigas erupções vulcânicas”, afirmou Vasavada, em tradução livre.
A origem exata dessas estruturas permanece sem confirmação definitiva entre os pesquisadores da agência espacial. A hipótese de depósitos de cinzas vulcânicas antigas será testada diretamente quando o veículo robótico se aproximar das formações para realizar análises químicas e mineralógicas de contato.
Cronologia e números da escalada do Curiosity na Cratera Gale
A missão do Curiosity é liderada pelo Laboratório de Propulsão a Jato, instituição gerenciada pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) em Pasadena, na Califórnia. Desde a chegada ao planeta, o robô acumula marcas históricas de deslocamento vertical e operação contínua:
- Agosto de 2012: pouso do rover Curiosity no interior da Cratera Gale, em Marte.
- Ano de 2014: início da subida pelas encostas do Monte Sharp, montanha que possui 5 quilômetros (3 milhas) de altura total.
- 11 de agosto de 2026: captura das 6 fotografias da câmera Mastcam às 8h30 (horário local marciano), durante o 4.982º sol (dia marciano) da missão.
- Agosto de 2026: alcance do marco de 1 quilômetro (0,6 milha) de ganho de elevação, a maior altitude já escalada por qualquer rover em Marte.
- 6 de outubro de 2026: divulgação oficial do panorama completo pela NASA e pelo JPL.
- Ano de 2027: previsão de chegada do veículo à base da camada de yardangs.
Ao longo da subida iniciada em 2014 nas encostas do Monte Sharp, o rover atravessou diferentes estratos geológicos que preservam o histórico climático marciano. As camadas de rocha analisadas na Cratera Gale guardam registros físicos de antigos lagos e riachos que secaram há bilhões de anos, deixando depósitos de minerais salgados na superfície antes da formação dos penhascos que o Curiosity deve alcançar em 2027.
