O engenheiro biomédico Daniel Dahis tornou-se nesta segunda-feira (26) o primeiro brasileiro a vencer o Eric and Wendy Schmidt Awards for Excellence in Science Communications, concedido pelas Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos (NASEM, na sigla em inglês) em parceria com a organização Schmidt Sciences. O pesquisador conquistou a premiação principal da categoria voltada a cientistas em início de carreira (Research Scientist: Early Career) e receberá US$ 40 mil pelo trabalho de aproximação entre a produção acadêmica e o público geral.
Atuando nos Estados Unidos como cientista de desenvolvimento clínico na Philips Healthcare, Dahis mantém perfis nas redes sociais onde soma mais de 750 mil seguidores e publica conteúdos sobre saúde principalmente em português. “Nunca imaginei que um dia receberia um reconhecimento internacional por levar esse conhecimento para fora dos laboratórios”, afirmou o pesquisador após o anúncio oficial em Washington, D.C.
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Prêmio de Daniel Dahis e valores distribuídos pela NASEM em 2026
A edição de 2026 marca o quinto ano da premiação norte-americana e reconheceu 24 profissionais divididos em oito categorias. A lista de contemplados reúne nove prêmios destinados a cientistas pesquisadores, nove para jornalistas de ciência e seis voltados a comunicadores científicos. Ao longo de cinco edições, a iniciativa formou uma comunidade de 120 integrantes premiados.
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Na categoria vencida pelo brasileiro, a organização também premiou os pesquisadores Yvette Cendes, da Universidade de Oregon, e Daniel Swain, da Universidade da Califórnia em Davis. A estrutura financeira e o cronograma da edição de 2026 estabelecem os seguintes parâmetros:
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- Prêmio individual para o vencedor principal (Top Prize Winner) de cada uma das oito categorias: US$ 40 mil
- Prêmio individual entregue a cada um dos outros dois profissionais reconhecidos por categoria: US$ 20 mil
- Valor total em prêmios distribuído pela NASEM na edição de 2026: US$ 640 mil
- Data do anúncio oficial dos vencedores: 26 de outubro de 2026
- Período do evento presencial de homenagem em Washington, D.C.: de 17 a 20 de novembro de 2026
Vídeos de Daniel Dahis destacados pelo comitê nos Estados Unidos
O comitê de seleção da NASEM destacou três produções digitais específicas assinadas pelo engenheiro brasileiro para justificar a escolha. Entre os materiais selecionados estão um trabalho sobre a ausência de relação entre vacinas contra a Covid-19 e acidentes vasculares cerebrais (intitulado no registro da premiação como “Is there a link between COVID-19 Vaccines and Stroke?”, vinculado ao Ministério da Saúde do Brasil), um vídeo no Instagram sobre como reduzir o risco de câncer em cerca de 44% (“It’s possible to cut your cancer risk in ~44%”) e uma publicação no TikTok sobre avanços médicos (“This baby will go down in history”).
Em comunicado oficial sobre a escolha do brasileiro, as Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos avaliaram o formato adotado pelo cientista nas plataformas digitais. “Daniel Dahis combina experiência científica com uma narrativa digital refinada e altamente acessível para ajudar grandes públicos a navegar por informações de saúde importantes. Seus vídeos combinam recursos visuais fortes e explicações baseadas em evidências para abordar tópicos que vão desde vacinas e prevenção do câncer até a medicina emergente. Ao enfrentar a desinformação com clareza e credibilidade, Dahis demonstra o potencial das redes sociais para entregar informações práticas de saúde pública em escala notável”, declarou a instituição, em tradução livre.
A presidente do comitê de seleção do prêmio, membro da Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos e reitora da Escola de Saúde Pública de Yale, Megan L. Ranney, também comentou o resultado geral de 2026. “Os vencedores deste ano são notáveis pela amplitude de perspectivas, criatividade e abordagens que trazem para a comunicação científica”, afirmou a reitora, em tradução livre. A instituição conta ainda com a liderança de Neil H. Shubin como presidente da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (NAS).
Pesquisas de Daniel Dahis da UFRJ a Harvard e combate à desinformação
Antes de iniciar a produção de vídeos e de uma newsletter sobre ciência em 2024, após ouvir em uma visita ao laboratório onde trabalhava que sua trajetória com Harvard poderia inspirar jovens, Daniel Dahis construiu carreira na bancada acadêmica. Ele se graduou em engenharia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), instituição onde conheceu a área de engenharia biomédica, e concluiu o mestrado e o doutorado no Technion, o Instituto de Tecnologia de Israel, localizado em Haifa. Durante a pós-graduação, desenvolveu pesquisas em oncologia em colaboração com a Escola de Medicina de Harvard.
Durante o doutorado, o pesquisador brasileiro trabalhou em uma estratégia inédita de vacina personalizada contra o melanoma, um tipo de câncer de pele, combinando imunoterapia, nanopartículas e ultrassom focalizado. O mesmo estudo utilizou adesivos com microagulhas para coletar biomarcadores — sinais biológicos que mostram como o organismo reage — permitindo acompanhar a resposta ao tratamento quase em tempo real e de maneira pouco invasiva em testes pré-clínicos, etapa anterior aos ensaios em humanos.
Em outra frente de investigação publicada em 2023, assim como o estudo do melanoma, nas revistas científicas Advanced Functional Materials e Advanced NanoBiomed Research, Dahis utilizou o ultrassom para auxiliar nanopartículas carregadas de medicamentos a atravessar a barreira hematoencefálica, filtro natural que protege o cérebro mas dificulta a chegada de remédios contra tumores cerebrais como o glioblastoma. Nos experimentos realizados com animais, a técnica aumentou em até 3,6 vezes a concentração das nanopartículas no cérebro.
Na startup BioDevek, sediada em Boston, o engenheiro liderou testes pré-clínicos de um gel adesivo em spray desenvolvido para proteger feridas no sistema digestivo após procedimentos de endoscopia, como a retirada de pólipos. Nos testes feitos com porcos, cujos resultados saíram em 2024 na revista científica Advanced Materials, a barreira protetora formada sobre o tecido lesionado durou de 3 a 7 dias, índice com potencial para favorecer a cicatrização e reduzir sangramentos. Na Philips Healthcare, seu trabalho atual foca em tecnologias para monitorar pacientes internados e identificar precocemente sinais de piora no quadro clínico.
A transição para o debate aberto nas redes sociais, onde explica o funcionamento de vacinas, doenças e tratamentos, ocorre em um ambiente de hostilidade contra pesquisadores. Um levantamento publicado pela revista científica Nature em 2021 apontou que cerca de 15% dos 321 cientistas entrevistados que falaram publicamente sobre a Covid-19 relataram ter sofrido ameaças de morte. Para o brasileiro, a ocupação desse espaço por profissionais qualificados é necessária para corrigir distorções propagadas na internet.
“Precisamos de cada vez mais pessoas com formação científica participando do debate público para fazer frente a esse movimento que coloca pessoas vulneráveis em risco. Recentemente, vi um vídeo em que alguém perguntava: ‘Por que os cientistas estão fingindo ser influenciadores?’. E pensei: talvez porque alguns influenciadores sem letramento científico estejam fingindo ser cientistas”, declarou Dahis. A entrega presencial do prêmio a Daniel Dahis e aos demais 23 vencedores ocorrerá na cerimônia marcada para o período de 17 a 20 de novembro de 2026, em Washington, D.C.
