Uma lagartixa consegue andar de cabeça para baixo no teto sem cola, ventosa ou sucção. O segredo está em cerca de 500 mil cerdas microscópicas em cada pata, que se prendem às superfícies por forças de atração entre moléculas.
Cada cerda é um pelo de queratina que se divide em centenas de espátulas, pontas tão pequenas que só aparecem em microscópio eletrônico. Pesquisadores estimam que as patas tenham cerca de um bilhão dessas espátulas, espalhadas pela sola.
Como as cerdas se organizam nos dedos
- Cerdas: pelos de queratina que se ajustam a pequenas irregularidades da superfície.
- Espátulas: ramificações nanométricas que encostam na parede e criam o contato.
- Lamelas: dobras da pele que organizam as cerdas em fileiras nos dedos.
Essa estrutura multiplica a área de contato. Cada ponto sozinho é fraco, mas a soma de milhões de contatos sustenta o peso do animal.
Forças de van der Waals, e não cola nem sucção
Durante décadas, cientistas testaram hipóteses como cola, sucção e eletricidade. Em agosto de 2002, um grupo liderado por Kellar Autumn publicou na revista PNAS a primeira evidência experimental de que a aderência vem de forças de van der Waals. Os pesquisadores usaram lagartixas vivas e cerdas isoladas em superfícies que repelem a água e em superfícies que a atraem, e a aderência foi igual nos dois casos.
Como a lagartixa solta a pata sem esforço
- Apoio: a pata é pressionada contra a superfície e puxada de lado, o que aumenta a aderência até dez vezes.
- Ângulo: cada cerda se solta quando o ângulo com a superfície chega a cerca de 30 graus.
- Soltura: o animal levanta os dedos aos poucos, liberando o contato com pouco esforço.
A comparação com uma fita adesiva ajuda a entender o movimento. Pesquisas de 2006 testaram a ideia e concluíram que, na pata inteira, a soltura não segue o modelo da fita; quem manda é o ângulo crítico das cerdas.
Patas molhadas perdem a aderência
Um estudo publicado no Journal of Experimental Biology mostrou que patas encharcadas reduzem a força de aderência, e os animais se soltam com uma força bem menor que a normal. Os cientistas ainda estudam quanto tempo a lagartixa leva para recuperar a capacidade total de se prender.
Adesivos e robôs copiam o princípio
Engenheiros já criaram adesivos secos e robôs escaladores baseados nessas cerdas, sem usar ventosas, líquidos ou cola. Por enquanto, nenhum material reproduz sozinho a escalada da lagartixa com a mesma facilidade.
