Objeto de 35 km além de Netuno tem forma que surpreende

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Planeta Netuno Foto: Planeta Netuno - Vladi333/ Shutterstock.com

Arrokoth, um objeto do tamanho de uma cidade no Cinturão de Kuiper além da órbita de Netuno, preserva dois blocos achatados unidos por um pescoço estreito que funcionam como registro intacto da formação planetária primitiva.

A sonda New Horizons, da Nasa, sobrevoou o corpo em 1º de janeiro de 2019 a cerca de 3.500 quilômetros de distância e capturou imagens que mostraram a geometria incomum de dois lóbulos, o maior com cerca de 21 quilômetros e o menor com cerca de 15 quilômetros, totalizando aproximadamente 35 quilômetros de comprimento. A superfície vermelha e a ausência de crateras profundas indicam que o astro permaneceu protegido de impactos intensos desde os primórdios do Sistema Solar.

Pesquisadores da Universidade Estadual de Michigan, liderados pelo estudante de pós-graduação Jackson Barnes, publicaram em fevereiro de 2026 na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society simulações que reproduzem essa forma por colapso gravitacional de nuvens de pedregulhos. “Quando vimos os primeiros resultados das nossas simulações, ficamos muito animados”, afirmou Barnes. “Foi ainda mais empolgante ver que não era único e que havíamos criado muitos desses objetos bilobados com formas e tamanhos diferentes de lóbulos.”

Arrokoth registra formação suave no Cinturão de Kuiper

O objeto, inicialmente designado 2014 MU69 e descoberto em 2014 por meio do telescópio espacial Hubble, orbita em uma região estável onde colisões destrutivas são raras. Os dois lóbulos, chamados Wenu e Weeyo, compartilham orientação quase idêntica nos planos equatoriais e se uniram a velocidades baixas, da ordem de poucos metros por segundo, sem sinais de esmagamento.

As simulações de Barnes e colegas, com coautoria de Stephen Schwartz e Seth Jacobson, rodaram 54 modelos de nuvens com cerca de 10 mil partículas de dois quilômetros e produziram binários de contato em cerca de 3% a 4% dos casos resolvidos. Esse percentual fica abaixo da estimativa observacional de cerca de 10% de objetos com forma semelhante no Cinturão de Kuiper, mas representa a primeira vez que o processo gera diretamente corpos como Arrokoth a partir de uma única nuvem.

Simulações descartam colisões violentas na periferia solar

Modelos antigos de formação planetária previam choques de alta energia no disco protoplanetário. A junção quase perfeita dos lóbulos de Arrokoth e a preservação da forma achatada contradizem essa hipótese. A baixa gravidade dos fragmentos manteve as superfícies sem arredondamento significativo, e a composição rica em tolinas, compostos orgânicos gerados pela luz solar, permanece uniforme entre os dois blocos.

“É tão empolgante porque podemos realmente ver isso pela primeira vez”, disse Barnes. Alguns dos binários de contato gerados nas simulações se assemelham de perto a Arrokoth. A abordagem usa método de elementos discretos de esfera macia, que considera o contato físico entre partículas, algo ausente em modelos anteriores.

Dados da New Horizons confirmam preservação de 4,5 bilhões de anos

A New Horizons, após o sobrevoo de Plutão em 2015, dirigiu-se ao Cinturão de Kuiper e realizou o encontro mais distante já feito por uma sonda. As imagens mostraram poucas crateras e superfícies alinhadas, consistentes com formação em ambiente homogêneo e gentil. O período de rotação do objeto é de cerca de 15,9 horas.

Estudos posteriores, incluindo análise de montículos na superfície do lóbulo maior, reforçam que os blocos se agregaram de pedaços semelhantes de alguns quilômetros. A descoberta fortalece a ideia de que processos construtivos calmos governaram a montagem inicial dos planetas na periferia do Sistema Solar.

Arrokoth permanece o único objeto do Cinturão de Kuiper visitado de perto por uma espaçonave, e as simulações de 2026 oferecem o mecanismo mais direto até agora para explicar por que cerca de um em cada dez planetesimais da região apresenta forma de boneco de neve. A New Horizons continua a coletar dados sobre a região, a bilhões de quilômetros do Sol.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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