USP mostra que estimulação cerebral diminui desejo intenso por comida

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Obesidade, alimentos ultraprocessados, má alimentação - Studio Romantic/ shutterstock.com Foto: Obesidade, alimentos ultraprocessados, má alimentação - Studio Romantic/ shutterstock.com

Uma corrente elétrica de baixa intensidade aplicada sobre a cabeça diminuiu o desejo intenso por comida em mulheres com obesidade. O resultado faz parte de um estudo-piloto de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), divulgado em 13 de outubro de 2026. A técnica combinou a estimulação transcraniana por corrente contínua com sessões de educação nutricional.

Os efeitos apareceram logo após o fim da intervenção e se mantiveram durante o acompanhamento de seis meses. O procedimento durou cinco dias consecutivos e envolveu voluntárias atendidas no interior paulista.

Onde, com quem e por quanto tempo foi feito o estudo

  • Instituição responsável: Laboratório de Estudos em Nutrição, Neurociências e Metabolismo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP
  • Local de realização: Ribeirão Preto, São Paulo
  • Apoio e publicação: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e revista Physiology & Behavior
  • Público examinado: 22 mulheres de 20 a 40 anos com obesidade grau 1 e 2
  • Período de avaliação: medições imediatas e retornos com um, três e seis meses
Cérebro
Foto: Cérebro – Wirestock Creators/shutterstock.com

Como a corrente elétrica atua sobre o controle da alimentação

A técnica não invasiva e indolor usou eletrodos esponjosos umedecidos em soro fisiológico, colocados sobre a cabeça das voluntárias para aplicar uma corrente elétrica contínua de 2 miliamperes. O alvo foi o córtex pré-frontal dorsolateral, região do cérebro ligada à tomada de decisões, ao planejamento, à autorregulação e à inibição de comportamentos diante de alimentos altamente apetitosos.

Estudos de neuroimagem indicam que pessoas com obesidade costumam apresentar menor ativação ou desequilíbrios nessa área frontal, o que reduz a capacidade de frear impulsos alimentares. A corrente de baixa intensidade busca modular a excitabilidade dos neurônios e recuperar a capacidade de inibição, como apoio aos mecanismos conscientes de controle da ingestão.

A nutricionista Marina Rodrigues Giuliani, primeira autora do estudo, afirmou: “A estimulação ativa reduziu o desejo por comida, tanto logo após a intervenção quanto a longo prazo”. Ela explicou que os achados reforçam a viabilidade do método: “Os resultados sugerem que a neuromodulação pode influenciar esse aspecto do comportamento alimentar, mesmo sem produzir alterações significativas no peso.”

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Oficinas de alimentação e peso que não mudou no período

O experimento dividiu as 22 voluntárias em duas turmas iguais. Metade recebeu a estimulação real, e a outra metade passou por estimulação simulada, como grupo de controle. O protocolo teve três aplicações diárias de 20 minutos, totalizando 15 sessões ao longo de cinco dias.

Nos intervalos de 20 minutos entre as sessões, todas as participantes assistiam a oficinas sobre alimentação consciente, nutrientes, saciedade, leitura de rótulos, hidratação, controle de porções e diferença entre fome física e fome emocional. Essa parte educativa trouxe melhora no controle consciente da ingestão e redução de episódios de comer descontrolado nos dois grupos. Segundo a equipe, essa resposta comum confirmou a utilidade das oficinas.

Os cinco dias de intervenção não alteraram peso, índice de massa corporal ou proporções de gordura e massa magra. A equipe esperava esse resultado, porque o estudo não impôs dietas com restrição calórica.

Quantas pessoas com obesidade o mundo deve ter até 2030

O estudo cita projeções do World Obesity Atlas para o número de pessoas com obesidade no planeta até 2030. Os dados são separados por sexo e por grau da doença.

  • Mulheres com obesidade grau 1 no mundo: 399 milhões de pessoas
  • Mulheres com obesidade grau 2 ou superior no planeta: 244 milhões de pessoas
  • Homens com obesidade grau 1 em escala global: 346 milhões de pessoas
  • Homens com obesidade grau 2 ou superior no mundo: 141 milhões de pessoas

O que a estimulação pode acrescentar ao tratamento da obesidade

A obesidade segue classificada como doença crônica complexa, com altos índices de reincidência mesmo após cirurgias ou tratamentos farmacológicos convencionais. A estimulação transcraniana por corrente contínua já é usada em distúrbios neuropsiquiátricos, como depressão e dor crônica. Agora, ela passa a ser estudada como terapia complementar para impulsos alimentares intensos.

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A professora Vivian Marques Miguel Suen, do Departamento de Clínica Médica da FMRP-USP e orientadora da pesquisa, declarou: “A obesidade ainda é uma doença muito prevalente e de difícil tratamento – mesmo quando há perda de peso com tratamento médico ou cirúrgico, o risco de recidiva é alto”. Segundo ela, “a ideia é que a estimulação possa funcionar como uma ferramenta complementar, ajudando a controlar o desejo por comida e, eventualmente, potencializando o efeito de outras terapias”.

O estudo-piloto não registrou nenhum evento adverso importante entre as voluntárias que receberam a corrente contínua. Ainda não se sabe, porém, se os resultados se repetem em grupos maiores, em homens ou em pessoas com graus mais severos de excesso de peso.

A equipe da USP planeja a próxima etapa com a estimulação magnética transcraniana, que usa pulsos magnéticos concentrados para induzir atividade cerebral mais profunda. Os voluntários dessa fase serão pessoas com obesidade e transtorno de compulsão alimentar periódica.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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