Perda de até 25% do peso: remédio contra obesidade bate recorde em estudo clínico

Por
Canetas emagrecedoras - MillaF / shutterstock.com Foto: Canetas emagrecedoras - MillaF / shutterstock.com

O medicamento injetável retatrutida reduziu em média 25,0% do peso corporal de adultos com obesidade em 80 semanas de tratamento continuado. Os dados finais do ensaio clínico de fase 3 denominado TRIUMPH-1 foram publicados na terça-feira (29) na revista médica New England Journal of Medicine e apontam que a perda ponderal atingiu a marca de 30,3% após a extensão para 104 semanas entre voluntários com índice de massa corporal igual ou superior a 35.

Desenvolvida pela farmacêutica Eli Lilly, a substância aplicada por meio de canetas injetoras semanais atua simultaneamente sobre três receptores hormonais metabólicos distintos. “A obesidade é uma doença crônica, e as pessoas que vivem com obesidade merecem opções de tratamento que correspondam à biologia complexa de sua doença neurometabólica”, afirmou a professora da Faculdade de Medicina de Yale e pesquisadora principal do estudo, Ania Jastreboff, em tradução livre.

Veja também: Anvisa: novas canetas para diabetes e obesidade somam 14 opções no país

Ensaio TRIUMPH-1 avalia 2.339 pacientes em 11 países

Caneta emagrecedora - nasidastudio / shutterstock.com
Foto: Caneta emagrecedora – nasidastudio / shutterstock.com

A pesquisa clínica multicêntrica avaliou 2.339 adultos com obesidade ou sobrepeso sem diabetes, distribuídos em 131 centros médicos instalados em 11 países. Os voluntários foram divididos em quatro grupos com aplicações semanais escalonadas de 4 miligramas, 9 miligramas, 12 miligramas de retatrutida ou doses de placebo, partindo de um peso corporal médio inicial de 113 quilos e índice de massa corporal médio de 40 no início do acompanhamento.

Enquanto os participantes que receberam a dosagem mais elevada de 12 miligramas alcançaram 25,0% de redução ponderal nas 80 semanas monitoradas, o grupo que recebeu substância inativa apresentou recuo de apenas 3,9% no mesmo período. A pesquisadora Ania Jastreboff, que também atua como diretora do Yale Obesity Research Center, destacou a amplitude das respostas observadas nos pacientes submetidos às dosagens máximas da terapia experimental.

“Foi impressionante ver que cada dose de retatrutida resultou em redução de peso clinicamente significativa para quase todos os participantes, e pessoas com obesidade grave na dose mais alta perderam em média 30% do peso corporal ao longo de dois anos”, declarou a médica, em tradução livre.

Retatrutida diminui dores articulares e apneia do sono

As análises de desfechos secundários demonstraram benefícios adicionais significativos sobre patologias agravadas pelo excesso de peso corporal. Em um subgrupo de 574 voluntários diagnosticados com osteoartrite no joelho, os índices de dor articular registraram queda de até 62%. Em outro grupo específico de 243 indivíduos que sofriam de apneia obstrutiva do sono, o número de interrupções respiratórias por hora diminuiu em até 57% durante o acompanhamento médico.

Os biomarcadores cardiometabólicos gerais exibiram controle favorável em relação aos níveis de pressão arterial, triglicerídeos e colesterol de lipoproteína de baixa densidade. Mais de um terço dos voluntários apresentava diagnóstico de pré-diabetes no ingresso do estudo clínico, quadro que foi integralmente revertido em mais de 90% desses participantes até o encerramento das avaliações formais do ensaio.

Leia também: Medicamento para obesidade terá distribuição responsável no SUS, anuncia Ministério da Saúde

  • 2.339 participantes integraram o ensaio clínico em 131 centros médicos de 11 países.
  • 113 quilos representavam a massa corporal média dos voluntários no início dos testes.
  • 40 era o índice de massa corporal médio aferido no recrutamento dos pacientes.
  • 25,0% de perda média de peso foi atingida na dose de 12 miligramas após 80 semanas.
  • 30,3% de recuo de peso ocorreu no período estendido de 104 semanas para índice superior a 35.
  • 90% das alterações de pré-diabetes foram revertidas ao fim da intervenção.
  • 62% de diminuição máxima foi apurada na dor articular por osteoartrite de joelho.
  • 57% de redução foi confirmada nas pausas respiratórias da apneia obstrutiva do sono.

Mecanismo triplo combina receptores de GLP-1, GIP e glucagon

A molécula da retatrutida foi concebida como um único peptídeo sintético projetado para interagir diretamente com três receptores endócrinos interligados ao aproveitamento calórico. As terapias injetáveis de primeira geração, representadas pela semaglutida, concentram sua atuação exclusivamente no receptor do peptídeo semelhante ao glucagon-1, conhecido como GLP-1, alcançando em média cerca de 15% de redução de massa corporal. Medicamentos de segunda geração, como a tirzepatida, associam o GLP-1 ao polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose, ou GIP, atingindo médias entre 20% e 22% em 72 semanas de administração contínua.

A nova fórmula diferencia-se por incorporar estímulos aos receptores de glucagon, hormônio produzido pelas células alfa pancreáticas que promove o aumento da taxa de gasto energético basal e amplia a oxidação lipídica no fígado. Enquanto os componentes de GLP-1 e GIP modulam a secreção de insulina e enviam sinais cerebrais de desaceleração gástrica e saciedade, a ação agregada do glucagon potencializa a queima de gordura acumulada sem induzir episódios de hipoglicemia, mantendo meia-vida plasmática de seis dias que viabiliza o esquema de injeções subcutâneas em caneta a cada sete dias.

Efeitos colaterais e segurança clínica observados no estudo

O perfil de reações adversas registrado ao longo do ensaio clínico TRIUMPH-1 mostrou similaridade com o comportamento de fármacos concorrentes da classe dos agonistas incretínicos. As principais manifestações foram alterações gastrointestinais de intensidade classificada entre leve e moderada, com registros recorrentes de náusea transitória, diarreia e constipação durante os períodos iniciais de titulação de dosagem. Sintomas de tontura e episódios de hipotensão postural ocorreram com maior frequência em voluntários que realizavam uso concomitante de medicações anti-hipertensivas.

Ao longo da investigação, dez participantes apresentaram eventos cardiovasculares adversos, incluindo um caso no grupo placebo, enquanto outros dez relatórios documentaram diagnósticos de pancreatite, com duas ocorrências notificadas no grupo controle. O desenho amostral do estudo não possuía dimensão estatística voltada a mensurar a frequência absoluta desses eventos raros, o que demandará levantamentos complementares em coortes mais amplas. O ensaio clínico também não realizou comparação direta entre a retatrutida e substâncias já comercializadas no mercado farmacêutico.

Uso compassivo e próximos passos na regulação sanitária

A retatrutida continua classificada formalmente como substância em investigação clínica e ainda não possui autorização sanitária para distribuição comercial por órgãos regulatórios como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Brasil, ou a Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos. A farmacêutica fabricante, Eli Lilly, havia comunicado dados preliminares consolidados em 21 de maio de 2026, antes da publicação científica integral avaliada por pares.

Em 23 de junho de 2026, reportagens técnicas revelaram que a agência reguladora norte-americana havia concedido autorização excepcional de uso compassivo do composto a um paciente de 79 anos em abril daquele ano. A identidade desse indivíduo permanece sob sigilo médico legal e foi negada pelo porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, que descartou o uso experimental pelo presidente Donald Trump. A data para o protocolo oficial dos pedidos de registro sanitário nas agências internacionais ainda não foi divulgada pela fabricante.

Notícias relacionadas