Sinais de rádio de Beta Pictoris b são captados pela primeira vezPor Carolina Costa
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Sinais de rádio partiram diretamente de um planeta situado fora do Sistema Solar, e pesquisadores da Universidade de Harvard registraram a emissão pela primeira vez. A origem é Beta Pictoris b, um gigante gasoso a 63 anos-luz da Terra. Os pulsos repetidos indicam um campo magnético pelo menos 200 vezes mais potente que o de Júpiter.
Os dados não têm ligação com tecnologia alienígena ou com vida inteligente. A energia corresponde a emissões aurorais, provocadas pelo choque violento de partículas eletricamente carregadas contra a magnetosfera, a camada magnética que envolve o planeta. O processo lembra as auroras boreais da Terra e as tempestades polares de Júpiter.
Kevin N. Ortiz Ceballos, pesquisador de doutorado no Centro de Astrofísica | Harvard & Smithsonian, em Cambridge, Massachusetts, identificou os pulsos ao analisar medições de monitoramento. O trabalho teve coautoria de Edo Berger, professor de astronomia da Universidade de Harvard, e de Yvette Cendes, astrofísica da Universidade de Oregon.
A equipe demonstrou que o sinal não vinha da estrela em torno da qual o planeta orbita. Com quasares de referência catalogados pela missão espacial Gaia, os astrofísicos separaram a posição do planeta da estrela hospedeira com significância estatística de 4,4 desvios-padrão. O cálculo confirmou que a radiação saiu do corpo planetário pelo mecanismo de instabilidade maser de ciclotron de elétrons, em que elétrons girando em espiral dentro de campos magnéticos intensos produzem feixes concentrados de rádio.
Números que descrevem o planeta e o sinal captado
- Localização: constelação de Pictor
- Massa: cerca de 12 vezes a de Júpiter
- Campo magnético: mínimo de 1,25 kilogauss, ou 1.250 gauss
- Faixa das rajadas: 0,85 a 3,5 gigahertz
- Instrumento: radiotelescópio MeerKAT, com 64 antenas parabólicas na África do Sul
Campos magnéticos funcionam como escudo contra a radiação letal que as estrelas emitem. Na Terra, essa camada invisível retém a atmosfera respirável e bloqueia partículas energéticas do vento solar. Sem essa proteção, os fluxos solares dispersariam as moléculas gasosas para o vácuo interestelar ao longo de eras.
Edo Berger afirmou que os cientistas não esperavam encontrar valores tão elevados para o campo de Beta Pictoris b. “Sei que sinais de rádio estão associados a buscas por inteligência extraterrestre. Mas isto é algo muito diferente”, disse o professor de Harvard. Ele contou que a equipe fazia uma observação inicial exploratória quando os dados mostraram um comportamento magnético fora do padrão.
“Para observar ondas de rádio que se estendem até as frequências que observamos, é necessário um campo magnético incrivelmente forte”, afirmou Berger. Segundo ele, as medições indicam que a estrutura magnética do planeta excede com ampla margem os patamares previstos nas teorias de dínamo planetário aplicadas aos corpos do Sistema Solar.
“O campo magnético neste planeta é pelo menos 200 vezes mais forte do que o campo magnético de Júpiter”, declarou Berger ao comentar os índices registrados. Ele lembrou do momento em que o primeiro autor apresentou os gráficos preliminares. “Meu aluno de pós-graduação, Kevin, estava analisando os dados. Um dia, ele entrou no meu escritório com a detecção e disse: ‘Acho que você não vai acreditar nisso'”.
Idade da estrela e tentativas anteriores de detectar rádio
O sistema é considerado recém-nascido na escala cósmica, com idade estimada em 23 milhões de anos. O Sistema Solar tem 4,5 bilhões de anos. A estrela hospedeira tem 1,75 vez a massa do Sol e abriga um disco denso de poeira e detritos rochosos, sobras do período primordial de acreção, além de pelo menos trinta cometas mapeados.
Outros grupos de astronomia já tentaram encontrar assinaturas de rádio planetárias em sistemas próximos, como nas observações da anã vermelha YZ Ceti em 2023. Naquela ocasião, os aparelhos em solo terrestre não conseguiram separar os pulsos da atividade explosiva natural da própria estrela central. Ficaram dúvidas sobre a real fonte emissora.
A separação entre estrela e planeta foi elogiada por pesquisadores externos. Joseph Callingham, professor associado do Instituto de Astronomia Anton Pannekoek da Universidade de Amsterdã, avaliou o método. “O que torna este estudo único é que eles localizam a emissão no próprio planeta, separadamente da estrela”, disse Callingham.
Jonathan Nichols, professor de auroras planetárias na Universidade de Leicester, destacou o valor dessas emissões para a astrofísica atual. “As emissões de rádio aurorais são importantes porque nos permitem entender como um objeto interage com seu ambiente espacial local”, afirmou Nichols. Segundo ele, a técnica permite medir características que métodos ópticos tradicionais não alcançam.
Datas que marcaram a pesquisa sobre o planeta
- 18 de novembro de 2008: descoberta do exoplaneta gigante gasoso Beta Pictoris b por imageamento direto
- 2019: astrônomos encontram o segundo planeta do sistema, designado Beta Pictoris c
- 15 de setembro de 2026: pesquisadores de Harvard submetem o artigo com as detecções de rádio ao repositório arXiv, sob o código 2609.16720
- 2 de outubro de 2026: equipes científicas internacionais divulgam análises detalhadas das emissões do exoplaneta
Próximos passos após a publicação do artigo
O manuscrito com os cálculos completos das quatro campanhas observacionais, realizadas entre 2025 e 2026, está disponível em acesso público no arXiv. O material reúne dados sobre as polarizações circulares das ondas eletromagnéticas. Quem acompanha o caso pode consultar atualizações técnicas de periódicos acadêmicos e repositórios científicos.
A validação definitiva depende da revisão por pares, processo formal em que pareceristas e cientistas independentes avaliam os parâmetros metodológicos antes da publicação em revista especializada. Essa rodada de checagem técnica deve durar os próximos meses.
Os pesquisadores pediram novos períodos de uso das antenas do complexo MeerKAT para aprofundar as medições em frequências vizinhas. O objetivo é entender o mecanismo interno que permite a Beta Pictoris b sustentar um campo magnético tão intenso sem dissipar sua energia.








