Pai de santo é preso em SP acusado de assédio contra homens após dez vítimas revelarem abusos em rituais na Zona SulPor Beatriz
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Policiais civis cumpriram na quinta-feira (05) a ordem judicial de prisão contra um sacerdote religioso investigado por crimes sexuais contra fiéis no Capão Redondo, Zona Sul da capital paulista.
Ailton Ribeiro da Silva, de 62 anos, enfrenta acusações formais apresentadas por frequentadores que frequentavam cerimônias de Umbanda. Policiais localizaram o homem no município de Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo.
Várias pessoas compareceram a delegacias da capital paulista ao longo das semanas anteriores para registrar os atos ilícitos. Agentes apuram investidas direcionadas inclusive contra frequentadores que eram menores de idade.

A equipe jurídica responsável pelo religioso comunicou que manifestará suas alegações técnicas estritamente no processo judicial.
O investigado comandava as atividades espirituais do Templo Espírita de Umbanda Caboclo Tatuy de Oxóssi, situado no Jardim Ipê, espaço tradicional com unidades mantidas em outras cidades brasileiras e no Uruguai.
Declarações prestadas por participantes da casa apontam que o homem utilizava momentos de recolhimento espiritual para apalpar partes íntimas de seguidores enquanto alegava estar possuído por entidades.
Entre os denunciantes figura o responsável por dois garotos residentes no bairro. Em respeito às diretrizes legais de proteção integral, os nomes dos jovens permanecem sob absoluto sigilo policial. A queixa formal foi protocolada perante a 6ª Delegacia de Defesa da Mulher de Santo Amaro em 13 de outubro de 2026.
Na ocasião descrita, o homem adulto declarou ter sofrido ele próprio investidas de cunho sexual por parte do dirigente. Conforme a descrição dos fatos, o sacerdote isolou o fiel em um cômodo particular sob o pretexto de prestar auxílio espiritual e passou as mãos nas partes íntimas da vítima.
As carícias ocorreram por cima das vestimentas de ambos. Questionado sobre os gestos que praticava naquele instante, o homem declarou ao fiel que a ação integrava os procedimentos ritualísticos necessários.
O filho mais velho do denunciante, que tinha 14 anos na época e hoje completou 16 anos, descreveu vivência semelhante durante o mês de agosto de 2026.
O jovem abandonou os trabalhos no local e transferiu residência com a mãe para o estado de Pernambuco. Após meses no novo endereço, relatou à genitora episódios em que o sacerdote tentava beijá-lo à força, passava as mãos nas suas genitálias e tocava sua orelha com a língua durante sessões em que dizia incorporar espíritos.
Ele pontuou que os adolescentes demoraram a falar sobre os episódios em razão do dever de sigilo imposto pelas regras internas das cerimônias. A revelação do irmão mais velho fez com que o pai confrontasse o filho menor, que acabou admitindo sofrer o mesmo comportamento do dirigente.
O irmão caçula, que possuía 14 anos quando os abusos começaram e alcançou os 15 anos atualmente, confidenciou ao genitor ter passado por investidas idênticas às do irmão, mantendo silêncio inicial pela incerteza sobre se aquele procedimento fazia parte da doutrina.
O adolescente detalhou ainda que o acusado chegou a chamá-lo para partilhar uma cama no imóvel mantido em Itapecerica da Serra, oferta prontamente negada pelo garoto.
O menino chegou a comparecer às sessões levando uma lâmina guardada no bolso de suas vestes para conseguir repelir eventuais agressões corporais do religioso.
“Me sinto enganado. O Ailton usou da minha fé para cometer abusos contra mim e os meus filhos. É uma situação que a gente não consegue nem descrever. Porque a gente acredita na religião e na boa fé dos sacerdotes. Mas quando eles usam sua influência e seu poder espiritual para fazer esse tipo de coisa, é nojento, é hediondo, é sujo e rasteiro”, afirmou o pai das vítimas.
A partir dos relatos colhidos com os próprios filhos e de sua experiência individual, o responsável passou a conversar com frequentadores do terreiro e constatou outros episódios mantidos em segredo.
Ele ressaltou a existência de ex-frequentadores adultos que relataram abusos sofridos ainda na adolescência e que acabaram deixando a doutrina, pontuando que o sacerdote costumava alegar amnésia após as supostas incorporações para não responder aos questionamentos.
Registros policiais e crimes investigados pela polícia
Dez pessoas foram identificadas pelas investigações e pelo menos cinco formalizaram boletins de ocorrência contra o sacerdote, o que motivou a solicitação de detenção expedida pelo delegado Antonio Giovanni, titular do 37° Distrito Policial (Campo Limpo).
O delegado afirmou que o inquérito reúne elementos sobre a consumação de múltiplos delitos sexuais cometidos no âmbito religioso.
A autoridade policial declarou: “Ele está sendo investigado por estupro de vulnerável por ter realizado esses atos com uma pessoa à época tinha 13 anos de idade, outra de 14, que também teria relatado que já vinha sendo abusada. Temos também a violação sexual mediante fraude, que é quando um ato sexual é realizado com um adulto que a princípio poderia consentir ao ato sexual, porém, ele é induzido a um erro. Ele consente ao ato sexual sobre um contexto fraudulento, que nesse caso seria o a desculpa religiosa”.
O responsável pela condução do inquérito acrescentou que determinadas condutas configuram crime de importunação sexual diante da consumação de atos libidinosos na ausência de consentimento.
A ordem de custódia preventiva tem validade fixada em 30 dias pela Justiça, período em que diligências de busca e apreensão foram efetuadas em imóveis vinculados ao líder para recolher provas documentais e eletrônicas.
Situação do inquérito e dados apurados
- Investigado: Ailton Ribeiro da Silva, 62 anos
- Medida judicial: prisão temporária válida por 30 dias
- Locais apurados: Templo Espírita de Umbanda Caboclo Tatuy de Oxóssi (Capão Redondo) e chácara (Itapecerica da Serra)
- Crimes apurados: estupro de vulnerável, violação sexual mediante fraude e importunação sexual
- Denúncias: 10 vítimas identificadas e 5 boletins de ocorrência formalizados
Testemunhas acreditam que a ampla repercussão da prisão estimule novas queixas formais de fiéis que passaram pelo centro ao longo dos últimos anos.
Um profissional da área de tecnologia de 34 anos atuava na preparação doutrinária de jovens iniciantes no templo e relatou que, durante o ano de 2025, acabou colocado em isolamento numa sala e foi submetido a toques em suas genitálias e no corpo enquanto meditava.
“Eu achava que era uma situação isolada que só tinha acontecido comigo. Mas um dos meus alunos me contou que ele também tinha passado por isso e me acendeu o sinal de alerta. Comecei a perguntar para outros rapazes e cheguei ao pai dos dois menores. E aí a situação ficou clara que se tratava de uma conduta comum”, pontuou a testemunha.
O homem explicou ter telefonado em duas ocasiões para o sacerdote a fim de oficializar seu afastamento do templo em conjunto com os aprendizes, obtendo apenas evasivas como resposta.
O jovem declarou: “No telefone ele me disse que não se lembrava de nada, mas que lamentava o que tinha acontecido comigo, que tava chateado. Chegou a falar que também passou por esse tipo de assédio lá atrás, em 1980, quando estava iniciando, mas que era comum na religião”.
Ele concluiu: “Quando narrei que outras vítimas também tinham narrado o mesmo, ele disse que precisava se recompor e me procuraria para explicar o tinha acontecido, mas nunca mais nos falamos”.
Por se tratar de uma instituição aberta há três décadas na Zona Sul, os frequentadores estimam que outros casos venham a público nos próximos dias.







