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Cientistas identificaram que a contaminação por mercúrio em sítios maias atingiu proporções geográficas e ecológicas muito maiores do que as registradas até então. A análise de camadas de sedimentos retiradas do fundo de lagos nas cidades de Coba e Xcach, na península de Yucatán, no México, demonstrou que compostos altamente venenosos romperam os limites toxicológicos modernos durante séculos seguidos. O estudo publicado pela revista Science Advances neste sábado (07) documenta como o mineral cinábrio, utilizado intensamente em práticas rituais da civilização pré-colombiana, provocou a extinção localizada de organismos aquáticos vitais e gerou riscos severos de envenenamento aos habitantes da era clássica.

Pesquisadores das universidades norte-americanas colheram amostras geológicas profundas nos dois reservatórios naturais para rastrear a dispersão do metal pesado no tempo. Os testes laboratoriais revelaram episódios de pico toxicológico que acompanharam a expansão populacional e construtiva das urbes centro-americanas entre os séculos segundo e nono de nossa era.

Em Coba, centro urbano imponente reconhecido pela pirâmide de Nohoch Mul, os registros apontaram um derramamento tóxico contínuo iniciado por volta de 250 d.C., perdurando com intensidade por quase 150 anos. No sítio vizinho de Xcach, a estratigrafia indicou uma primeira onda entre 125 d.C. e 200 d.C., sucedida por uma repetição no apogeu construtivo e por um terceiro surto registrado entre 535 d.C. e 820 d.C., coincidindo com a fase final de ocupação regional.

O elemento central dessa poluição duradoura foi o cinábrio, composto mineral sulfetado de coloração escarlate intensa que os povos pré-colombianos associavam simbolicamente ao sangue, à vitalidade e às entidades celestes. O pigmento revestia paredes externas de pirâmides, ornatos funerários, pisos cerimoniais, peças de cerâmica e recipientes de sepultamento. Chuvas tropicais frequentes lavaram os complexos arquitetônicos, transportando partículas metálicas diretamente aos mananciais utilizados para abastecimento e pesca.

Sedimentos comprovam ruptura na cadeia alimentar aquática

A deposição contínua do elemento atingiu diretamente os organismos mais sensíveis das lagoas de água doce. Os testes paleoambientais detectaram declínios abruptos e sumiço de colônias biológicas em épocas de maior atividade cerimonial.

  • Algas unicelulares e cianobactérias registraram quedas bruscas de população nas camadas equivalentes aos séculos terceiro e quarto.
  • Organismos bentônicos com conchas e larvas de mosquitos desapareceram completamente dos estratos lacustres mais contaminados.
  • Moléculas metálicas sofreram bioacumulação nos tecidos de peixes carnívoros consumidos rotineiramente pelas famílias residentes.
  • Níveis de metais pesados superaram em várias vezes as normas toxicológicas estipuladas atualmente por autoridades sanitárias globais.

“Nosso estudo mostra que os limites estabelecidos pelas regulamentações modernas de toxicologia e poluição foram amplamente ultrapassados nos níveis mais tóxicos durante séculos nas proximidades de Coba e Xcach”, afirmou o paleolimnologista Matt Waters, professor de ciências ambientais da Universidade de Auburn, no Alabama, e coordenador dos levantamentos científicos.

O pesquisador detalhou que a drenagem de resíduos alterou profundamente a vida subaquática das comunidades.

“Além disso, medimos vários marcadores biológicos nos sedimentos, como bactérias, algas, cianobactérias, organismos com concha e mosquitos, que diminuíram ou desapareceram nos lagos, o que significa que o mercúrio havia se infiltrado em vários níveis da cadeia alimentar”, disse Waters.

A bioacumulação do composto afetou peixes e crustáceos que serviam como esteio calórico primário de trabalhadores rurais e nobres maias.

Toxicidade do cinábrio e riscos crônicos para a saúde humana

O contato humano com vapores de mercúrio ou sua ingestão crônica por alimentos contamina tecidos moles de forma cumulativa e irreversível. A medicina ocupacional contemporânea cataloga esse composto como uma potente neurotoxina com alto potencial degenerativo.

No organismo, o elemento ataca estruturas vitais do sistema nervoso central, compromete células neuronais do córtex cerebral, lesiona glomérulos renais e desencadeia falências respiratórias e vasculares progressivas. Nas gestantes, a exposição prolongada ultrapassa a barreira placentária, provocando más-formações congênitas e déficit neuropsicomotor duradouro em recém-nascidos.

A rota de envenenamento das populações antigas ocorria pela inalação de pós voláteis durante a trituração de blocos rochosos e pela ingestão direta de água doce das lagoas e canais. Coautora da pesquisa e integrante do centro Ichauway, na Geórgia, a doutora Savanna Wooten destacou o alcance da descoberta sobre a vida cotidiana maia.

“Embora não demonstremos isso em nossos registros de sedimentos, esse movimento trófico sugere que o povo maia pode ter sido exposto ao mercúrio por meio do consumo de água ou peixes”, disse Savanna Wooten.

O quadro toxicológico insere um elemento material concreto no debate secular acerca das causas da fragmentação social na América Central. A escassez de recursos hídricos potáveis, associada a disfunções neurológicas em lideranças e trabalhadores, soma-se a cenários de secas prolongadas, desmatamento do solo cárstico e conflitos bélicos generalizados no final do Período Clássico.

“Essa pesquisa pouco contribui para vincular diretamente o mercúrio ao declínio das cidades maias da Era Clássica. Mas acrescenta mais um fator de estresse à crescente lista de pressões ambientais e climáticas documentadas como tendo ocorrido simultaneamente com os maias do Período Clássico”, acrescentou a especialista.

Orientações de segurança para visitantes e arqueólogos em sítios históricos

Vestígios arqueológicos construídos com alvenarias pigmentadas conservam resíduos minerais mesmo após centenas de anos de abandono e intemperismo. Turistas, pesquisadores de campo e equipes de conservação patrimonial necessitam adotar protocolos básicos em áreas de escavação ativa e monumentos fechados da Mesoamérica.

  • Evite tocar diretamente murais antigos decorados com tintas avermelhadas e nunca leve as mãos à boca ou aos olhos após circular em ruínas.
  • Utilize máscaras com filtros contra partículas em escavações confinadas, câmaras funerárias subterrâneas e túmulos recém-abertos.
  • Abstenha-se de consumir água não engarrafada proveniente de fontes naturais ou lagoas localizadas nas imediações de sítios arqueológicos preservados.
  • Realize higienização rigorosa de calçados, botas de trilha e equipamentos de expedição com água corrente antes de retornar a áreas residenciais ou urbanizadas.

Geólogos e arqueólogos do Instituto Nacional de Antropologia e História do México dão prosseguimento ao mapeamento geoquímico nas bacias lacustres vizinhas para estabelecer a extensão das anomalias metálicas em outras províncias maias.

O mineral causador do envenenamento contínuo é o cinábrio, composto de sulfeto de mercúrio de coloração avermelhada intensa.

Para as autoridades religiosas e os governantes maias, o cinábrio carregava valor sagrado vinculado ao sangue, à vitalidade e à consagração espiritual. A substância era moída para a pintura de templos, palácios, murais cerimoniais e sepulturas da nobreza. Com a ação das chuvas tropicais e a lavagem superficial das estruturas de alvenaria, o pó tóxico escorreu para as bacias hidrográficas locais, depositando-se nos reservatórios e lagoas de água doce utilizados pelos moradores.

A investigação paleoecológica recolheu testemunhos geológicos profundos no fundo das lagoas das duas cidades históricas para rastrear a linha temporal dos depósitos metálicos.

Em Coba, um dos maiores assentamentos maias da região norte, a concentração de mercúrio registrou uma elevação contínua com início por volta de 250 d.C., mantendo patamares tóxicos por cerca de 150 anos ininterruptos. Esse intervalo coincidiu com a expansão construtiva e política que marcou o início do Período Clássico daquela sociedade.

Os dados de Xcach apresentaram três picos sucessivos de deposição química:

  • O primeiro ciclo de alta contaminação ocorreu entre 125 d.C. e 200 d.C., antecedendo o ápice clássico
  • O segundo ciclo manifestou-se por volta de 250 d.C., acompanhando o mesmo movimento detectado em Coba
  • O terceiro intervalo prolongou-se de 535 d.C. até 820 d.C., estendendo a toxicidade até a fase final do esvaziamento urbano

A densidade de mercúrio documentada em Yucatán superou marcas anteriores anotadas na América Central, incluindo a metrópole de Tikal, na Guatemala. Os cientistas relataram que o metal pesado desestruturou a base biológica das lagoas analisadas, liquidando comunidades inteiras de microrganismos.

O paleolimnologista Matt Waters, professor de ciências ambientais da Universidade de Auburn, explicou as consequências ecológicas registradas nos extratos de solo lacustre.

“Nosso estudo mostra que os limites estabelecidos pelas regulamentações modernas de toxicologia e poluição foram amplamente ultrapassados nos níveis mais tóxicos durante séculos nas proximidades de Coba e Xcach”, afirmou Matt Waters.

A destruição dos organismos basais representou a prova direta da contaminação em cascata nos reservatórios maias.

“Além disso, medimos vários marcadores biológicos nos sedimentos, como bactérias, algas, cianobactérias, organismos com concha e mosquitos, que diminuíram ou desapareceram nos lagos, o que significa que o mercúrio havia se infiltrado em vários níveis da cadeia alimentar”, declarou Waters.

A presença do elemento na fauna aquática colocou as populações humanas em rota direta de absorção crônica do veneno. O consumo continuado de pescados retirados dessas lagoas e a ingestão de água das bacias contaminadas expuseram governantes, sacerdotes e trabalhadores a doses contínuas da substância.

A ingestão ou inalação de mercúrio provoca danos neurológicos severos no organismo humano, atingindo o sistema nervoso central, o cérebro, os rins, as vias pulmonares e o sistema cardiovascular. Tremores, desorientação cognitiva, falência de órgãos internos e anomalias congênitas são efeitos clínicos conhecidos da exposição prolongada aos compostos derivados do cinábrio.

A pesquisadora Savanna Wooten, especialista de pós-doutorado no Jones Center at Ichauway, detalhou o reflexo alimentar dessa dinâmica no cotidiano das cidades.

“Embora não demonstremos isso em nossos registros de sedimentos, esse movimento trófico sugere que o povo maia pode ter sido exposto ao mercúrio por meio do consumo de água ou peixes”, avaliou Savanna Wooten.

A constatação de envenenamento generalizado soma-se às explicações científicas sobre o colapso e abandono das grandes capitais maias entre os séculos VIII e IX. Crises climáticas severas, secas prolongadas, esgotamento do solo agrícola e conflitos armados entre cidades-estados já constavam no rol das causas primárias da derrocada daquela civilização.

“Essa pesquisa pouco contribui para vincular diretamente o mercúrio ao declínio das cidades maias da Era Clássica. Mas acrescenta mais um fator de estresse à crescente lista de pressões ambientais e climáticas documentadas como tendo ocorrido simultaneamente com os maias do Período Clássico”, acrescentou Wooten.

A descoberta em bacias mexicanas reforça o papel da contaminação ambiental induzida por atividades humanas na história de civilizações desaparecidas. O manuseio de matérias-primas perigosas para fins religiosos e arquitetônicos gerou passivos ecológicos milenares que permaneceram sepultados na lama dos lagos da América Central.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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