CBF decide futuro de Dorival Júnior após goleada de 4 a 1 e mira Ancelotti para a Seleção

12 min de leitura
Dorival Junior Foto: Dorival Junior - Foto: A.RICARDO / Shutterstock.com

A derrota por 4 a 1 para a Argentina, em Buenos Aires, na noite de terça-feira, não foi apenas um resultado humilhante para a Seleção Brasileira. O placar histórico, registrado na 14ª rodada das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026, escancarou fragilidades táticas, técnicas e estruturais que vêm se acumulando no futebol brasileiro nos últimos anos. Sob o comando de Dorival Júnior, o time sofreu sua pior derrota em 61 anos contra o maior rival e, pela primeira vez, levou quatro gols em uma única partida do torneio classificatório. O revés no Estádio Monumental de Núñez, diante de mais de 85 mil torcedores, colocou em xeque não apenas o treinador, mas todo o organograma da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) responsável pela gestão da equipe nacional. Agora, o presidente Ednaldo Rodrigues enfrenta um dilema que pode redefinir os rumos do futebol pentacampeão mundial.

Pressão sobre Dorival Júnior não é novidade. Desde que assumiu o cargo em janeiro de 2024, após a passagem irregular de Fernando Diniz, o técnico tem convivido com críticas ao desempenho da equipe. A vitória por 2 a 1 contra a Colômbia, na semana anterior, em Brasília, trouxe um alívio momentâneo, mas o “baile” imposto pela Argentina reacendeu o debate sobre sua continuidade. Ednaldo Rodrigues, que acompanhou o jogo na capital argentina, já havia sinalizado antes da Data Fifa o desejo de ver resultados convincentes. A reunião marcada para sexta-feira, na sede da CBF, no Rio de Janeiro, será decisiva para o futuro do treinador e de outros nomes do departamento de seleções.

Enquanto isso, o nome de Carlo Ancelotti, técnico do Real Madrid, volta a ganhar força nos bastidores. O italiano, que já foi alvo da CBF em 2023, é visto como o “técnico dos sonhos” de Ednaldo. A possibilidade de contratá-lo, no entanto, esbarra em um calendário apertado: Ancelotti está focado no Mundial de Clubes, que termina em julho, e uma negociação só poderia avançar após esse período. Diante disso, a CBF avalia se mantém Dorival até lá ou opta por uma ruptura imediata, mesmo sem um interino definido.

Reunião decisiva na CBF

O encontro agendado para sexta-feira à tarde não será apenas uma conversa protocolar. Ednaldo Rodrigues planeja discutir o trabalho de Dorival Júnior e do diretor de seleções, Rodrigo Caetano, analisando os números e o desempenho da equipe nas Eliminatórias. Com 21 pontos em 14 rodadas, o Brasil ocupa a quarta posição na tabela sul-americana, seis pontos à frente da Venezuela, sétima colocada. Apesar da vaga para a Copa de 2026 não estar ameaçada matematicamente — quatro pontos em quatro jogos bastam para a classificação direta —, o futebol apresentado preocupa. Desde a eliminação na Copa do Catar, em 2022, a Seleção já sofreu 31 gols em 25 partidas, um contraste gritante com os cinco gols sofridos em 17 jogos nas Eliminatórias para o Mundial de 2022.

A goleada em Buenos Aires foi o ápice de uma crise que se arrasta. O domínio argentino, com 57% de posse de bola e sete finalizações certas contra apenas uma do Brasil, evidenciou a falta de organização tática e a incapacidade de reação da equipe. Dorival, em entrevista coletiva após o jogo, admitiu que o plano traçado não funcionou desde o primeiro minuto e pediu desculpas aos torcedores. A pressão sobre ele aumentou ainda mais com as declarações de Raphinha antes do clássico, prometendo “porrada” nos rivais, algo que não se concretizou em campo e gerou ironias da imprensa argentina.

Ancelotti como plano A

Carlo Ancelotti surge como a principal aposta de Ednaldo Rodrigues para mudar o cenário. O técnico italiano, de 65 anos, tem um currículo invejável: cinco títulos da Liga dos Campeões, dois Mundiais de Clubes e passagens vitoriosas por clubes como Milan, Chelsea, Bayern de Munique e Real Madrid. Em 2023, a CBF chegou a negociar com ele, mas Ancelotti optou por renovar com o clube espanhol, frustrando os planos da entidade. Agora, com o contrato dele se aproximando do fim e o Mundial de Clubes como último grande compromisso na temporada, a possibilidade de trazê-lo ganha novo fôlego.

A espera por Ancelotti, porém, traz riscos. Se Dorival for demitido agora, a CBF precisaria de um interino até junho, quando estão marcados os próximos jogos das Eliminatórias, contra Equador e Paraguai. Ramon Menezes, que já comandou a Seleção em amistosos em 2023, não é visto como opção ideal no momento. A diretoria teme que uma solução temporária exponha ainda mais Ednaldo a críticas, especialmente após a reeleição unânime do presidente em março, apesar dos resultados irregulares da equipe.

Organograma em xeque

A decisão de Ednaldo Rodrigues não se limitará a Dorival Júnior. Todo o departamento de seleções, estruturado no início de 2024, está sob avaliação. Rodrigo Caetano, diretor de seleções, é um dos nomes na berlinda. Contratado para organizar o futebol nacional após a saída de Fernando Diniz, ele tem sido questionado pela falta de avanços no desempenho da equipe. Outros profissionais, como o gerente Cícero Souza, o supervisor Sérgio Dimas e o ex-zagueiro Juan, também podem ser afetados por uma eventual reformulação.

Desde que assumiu, a atual gestão enfrentou desafios. A eliminação nas quartas de final da Copa América de 2024, nos pênaltis contra o Uruguai, e a campanha irregular nas Eliminatórias expuseram falhas na preparação e na escolha de jogadores. A ausência de Neymar, lesionado desde outubro de 2023 e recém-retornado ao Santos, é outro fator que tem impactado o time, embora Dorival tenha optado por não convocá-lo para a última Data Fifa, priorizando sua recuperação.

Números que pesam na balança

Os números de Dorival Júnior à frente da Seleção Brasileira são um ponto central na discussão. Em 14 jogos oficiais, entre Eliminatórias e Copa América, o treinador soma seis vitórias, quatro empates e quatro derrotas. O aproveitamento de 52,38% está longe de empolgar, especialmente se comparado ao ciclo de Tite, que, entre 2016 e 2022, levou o Brasil a duas Copas do Mundo com um futebol mais consistente. Sob o comando de Dorival, a equipe marcou 22 gols e sofreu 19, um saldo que reflete a fragilidade defensiva vista contra a Argentina.

Na partida em Buenos Aires, os gols de Julián Álvarez, Enzo Fernández, Mac Allister e Giuliano Simeone foram um retrato do descontrole brasileiro. Matheus Cunha, autor do único gol do Brasil, foi uma exceção em uma noite de atuações apagadas de nomes como Vinicius Jr. e Rodrygo. A defesa, que já havia sofrido 16 gols nas Eliminatórias atuais, contra apenas cinco no ciclo anterior, tornou-se o maior símbolo da crise.

Cronograma das próximas etapas

Com a Data Fifa de março encerrada, a Seleção Brasileira só volta a campo em junho, para enfrentar Equador e Paraguai, nas 15ª e 16ª rodadas das Eliminatórias. Até lá, a CBF terá tempo para definir seu rumo. Confira as datas-chave que podem influenciar o futuro da equipe:

  • 28 de março: Reunião entre Ednaldo Rodrigues, Dorival Júnior e Rodrigo Caetano na sede da CBF.
  • Junho: Jogos contra Equador e Paraguai, últimos compromissos antes do Mundial de Clubes.
  • Julho: Fim do Mundial de Clubes, momento em que Ancelotti poderia negociar com a CBF.
  • Setembro: Retorno das Eliminatórias, com duelos contra Chile e Peru.

Esses prazos serão cruciais para determinar se Dorival terá mais uma chance ou se a CBF apostará em uma mudança radical.

Debate interno na CBF

Nos corredores da sede da CBF, no Rio de Janeiro, o clima é de tensão. A quinta-feira foi marcada por reuniões informais entre dirigentes, que avaliam os prós e contras de cada cenário. Manter Dorival até junho garantiria estabilidade temporária e tempo para negociar com Ancelotti, mas poderia agravar a crise de confiança com os torcedores. Uma demissão imediata, por outro lado, sinalizaria ação rápida, mas deixaria a entidade sem um plano claro até a próxima convocação.

A percepção de que o Brasil não tem convencido nas Eliminatórias é unânime. Mesmo com a vitória sobre a Colômbia, o desempenho contra a Argentina reforçou a ideia de que o time está longe de competir em alto nível. A Argentina, atual campeã mundial, lidera a tabela com 31 pontos e já garantiu sua vaga na Copa de 2026, enquanto o Brasil luta para recuperar o protagonismo perdido.

Impactos além do campo

A crise na Seleção Brasileira vai além das quatro linhas. A goleada sofrida em Buenos Aires reacendeu debates sobre a formação de jogadores e a gestão do futebol nacional. Nos últimos anos, o Brasil não disputou as Olimpíadas no masculino, fracassou em Mundiais de base e foi eliminado na primeira fase da Copa do Mundo feminina. A falta de renovação e de um projeto claro para a equipe principal tem sido apontada como um dos motivos para o momento atual.

Jogadores como Vinicius Jr., cotado para a Bola de Ouro, e Raphinha, destaque no Barcelona, não conseguiram repetir o brilho na Seleção. A ausência de Neymar, que voltou a jogar pelo Santos em 2025 com três gols e três assistências em sete jogos, também pesa. Dorival justificou a não convocação do craque pela necessidade de ele recuperar o ritmo, mas a decisão dividiu opiniões.

Possíveis mudanças na escalação

Para os próximos jogos, caso Dorival permaneça, ajustes na equipe são esperados. A defesa, principal ponto fraco contra a Argentina, pode ganhar reforços como Léo Ortiz, do Flamengo, ou Beraldo, do PSG, testados em treinos recentes. No meio-campo, nomes como João Gomes, do Wolverhampton, e Éderson, da Atalanta, são cotados para trazer mais consistência. No ataque, a volta de Neymar é uma possibilidade, dependendo de sua condição física.

A escalação contra a Argentina, com Bento, Wesley, Marquinhos, Murillo, Guilherme Arana, André, Joelinton, Raphinha, Vinicius Jr., Rodrygo e Matheus Cunha, foi amplamente criticada. As seis mudanças feitas em relação ao jogo contra a Colômbia, algumas forçadas por lesões e suspensões, não surtiram efeito, e o treinador foi acusado de não reagir durante a partida.

Repercussão da goleada

A derrota por 4 a 1 teve impacto imediato. Na Argentina, a imprensa celebrou o “baile” dado pela equipe de Lionel Scaloni, que, mesmo sem Messi, mostrou organização e força coletiva. No Brasil, torcedores e comentaristas pediram mudanças drásticas. A atuação apagada de estrelas como Vinicius Jr. e Rodrygo, somada à falta de resposta tática, alimentou a narrativa de que o time precisa de uma reformulação urgente.

O gol de Matheus Cunha, que aproveitou um erro da defesa argentina, foi um raro momento de alívio em uma noite dominada pelos donos da casa. Os gritos de “olé” da torcida no Monumental de Núñez ecoaram como um símbolo do abismo entre as duas seleções, algo que não se via desde os 5 a 0 aplicados pela Argentina em 1964.

Alternativas ao comando

Se Dorival não resistir à pressão, outros nomes podem entrar na mira da CBF. Além de Ancelotti, técnicos como Renato Gaúcho, que já manifestou o desejo de treinar a Seleção, e Jorge Jesus, com passagem vitoriosa pelo Flamengo, são especulados. A escolha, porém, dependerá do timing e da estratégia de Ednaldo Rodrigues, que busca evitar os erros de 2023, quando a negociação com Ancelotti naufragou.

A experiência de Ancelotti em competições internacionais é vista como um trunfo para recolocar o Brasil entre os favoritos ao título mundial. Sua chegada, no entanto, exigiria paciência, algo que os torcedores, frustrados com o desempenho recente, podem não estar dispostos a oferecer.

Desafios até a Copa de 2026

Com menos de dois anos até a Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, Canadá e México, o Brasil precisa de soluções rápidas. As Eliminatórias sul-americanas, que classificam diretamente as seis primeiras colocadas e enviam a sétima para a repescagem, ainda têm quatro rodadas pela frente. O Brasil enfrenta Equador, Paraguai, Chile e Peru, adversários que, embora não estejam no mesmo nível da Argentina, já mostraram capacidade de complicar a vida da Seleção.

A reunião de sexta-feira será um marco. Seja com a permanência de Dorival ou com uma mudança de rumo, a CBF sabe que o tempo para ajustes é curto. A expectativa é que o próximo treinador, seja ele quem for, consiga resgatar a confiança de uma torcida que não vê o Brasil na final de uma Copa desde 2002.

Curiosidades sobre o clássico

O confronto entre Brasil e Argentina sempre carrega uma carga histórica. Confira alguns dados marcantes:

  • A Argentina não perde para o Brasil em casa há 16 anos, desde 2009.
  • O 4 a 1 foi a maior derrota brasileira para os argentinos desde 1964, quando o placar foi 5 a 0.
  • Em Eliminatórias, o Brasil nunca havia sofrido quatro gols em uma única partida até agora.
  • Dos últimos cinco jogos contra a Argentina, o Brasil perdeu quatro e empatou um.

Esses números reforçam a superioridade recente dos rivais e o desafio que a Seleção Brasileira enfrenta para reverter o cenário.

Thiago Lemos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2020: Formação: Administração.

Notícias relacionadas