TV Globo celebra 60 anos com vilãs como Nazaré Tedesco eternizadas na TV

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Cristina Foto: Cristina - Foto: Reprodução

Completando 60 anos em abril de 2025, a TV Globo consolidou-se como um marco na teledramaturgia brasileira, criando personagens que atravessaram gerações. Entre eles, os vilões e vilãs ocupam um lugar especial, capazes de despertar ódio, fascínio e até admiração no público. De Leôncio, o cruel escravocrata de “Escrava Isaura”, a Carminha, a manipuladora de “Avenida Brasil”, esses antagonistas moldaram narrativas que ainda ecoam na memória dos telespectadores. O remake de “Vale Tudo”, exibido neste ano, reacendeu a força de Odete Roitman, agora interpretada por Débora Bloch, enquanto a versão original, com Beatriz Segall, segue como referência de vilania. Esses personagens não apenas enriqueceram as tramas, mas também refletiram dilemas sociais e humanos ao longo de seis décadas.

A força dos vilões da Globo está na diversidade de suas personalidades e na capacidade de atores como Rubens de Falco, Adriana Esteves e Renata Sorrah de dar vida a figuras complexas. Leôncio, por exemplo, interpretado por Falco em 1976, tornou-se símbolo de opressão ao perseguir Isaura com castigos brutais, refletindo o peso da escravidão no Brasil do século XIX. Já Odete Roitman, na pele de Segall em 1988, trouxe à tona a frieza do poder econômico e a falta de escrúpulos em uma sociedade marcada por desigualdades. Esses papéis, reprisados em plataformas como o Globoplay e o “Vale a Pena Ver de Novo”, continuam a atrair novos públicos, mostrando a atemporalidade dessas criações.

Além do impacto emocional, os vilões da emissora influenciaram a cultura popular brasileira. Frases como “Deite que vou lhe usar”, dita por Jesuíno em “Gabriela”, ou as tiradas sarcásticas de Nazaré Tedesco em “Senhora do Destino”, viraram bordões que atravessam décadas. A TV Globo, ao longo de seus 60 anos, produziu mais de 300 novelas, muitas delas impulsionadas por antagonistas que se tornaram maiores que as próprias tramas. Neste texto, a riqueza desses personagens é explorada, relembrando nomes que marcaram época e seguem vivos no imaginário nacional.

Primeiros vilões que definiram a teledramaturgia

Rubens de Falco eternizou Leôncio em “Escrava Isaura”, exibida em 1976. O personagem, um fazendeiro obcecado pela escrava Isaura, vivida por Lucélia Santos, personificava a crueldade do sistema escravagista. Seus castigos, como chicotadas e humilhações, chocavam os telespectadores da época, em um Brasil que ainda lidava com as cicatrizes da abolição. A novela, baseada no romance de Bernardo Guimarães, foi um marco por ser a primeira a alcançar sucesso internacional, exportada para mais de 80 países. A atuação de Falco, com seu olhar penetrante e tom autoritário, transformou Leôncio em um dos primeiros grandes vilões da televisão brasileira.

Outro nome que despontou nas décadas iniciais foi Perpétua, interpretada por Joana Fomm em “Tieta”, de 1989. A irmã mais velha da protagonista, vivida por Claudia Ohana e Betty Faria, era uma figura carregada de hipocrisia. Vestida de luto eterno, Perpétua usava a fachada de devota cristã para mascarar sua inveja e ambição. Expulsa da cidade por Tieta no passado, ela voltou disposta a se vingar, mas também a lucrar com a riqueza da irmã. A personagem, criada por Aguinaldo Silva, misturava humor ácido e maldade, conquistando o público com sua dualidade.

Odete Roitman, de “Vale Tudo” (1988), elevou o padrão de vilania na TV. Beatriz Segall deu vida a uma empresária fria e manipuladora, líder do grupo Almeida Roitman. Seus embates com a filha Heleninha, interpretada por Renata Sorrah, e sua morte misteriosa, com um tiro no final da trama, marcaram a história da dramaturgia. O remake de 2025, com Débora Bloch no papel, trouxe novos olhares para a personagem, mas sem apagar o legado de Segall. Odete representava o cinismo da elite brasileira, um retrato que ressoou em uma época de crise econômica e corrupção.

  • Vilões marcantes das primeiras décadas da Globo:
    • Leôncio: Crueldade escravagista em “Escrava Isaura”.
    • Perpétua: Hipocrisia e vingança em “Tieta”.
    • Odete Roitman: Frieza empresarial em “Vale Tudo”.

Vilãs que roubaram a cena nos anos 1990

Os anos 1990 consolidaram a força das vilãs femininas na Globo. Glória Pires brilhou como Raquel em “Mulheres de Areia” (1993), uma gêmea ambiciosa que infernizou a vida da irmã Ruth, também interpretada por ela. A trama de Ivani Ribeiro explorava o contraste entre bondade e maldade, com Raquel roubando o namorado de Ruth e voltando para se vingar após desaparecer. Sua morte em um acidente de carro encerrou uma trajetória de pura perversidade, mas sua presença ficou gravada na memória dos fãs. A novela, reprisada várias vezes, segue como um clássico do horário das seis.

Maria Altiva, de “A Indomada” (1997), trouxe Eva Wilma em um papel inesquecível. Esposa de Pedro Afonso, vivido por Cláudio Marzo, Altiva era uma aristocrata mesquinha e soberba, obcecada por status. Seus ataques contra Zenilda, interpretada por Renata Sorrah, e as mocinhas da Casa de Campo revelavam um ódio visceral. A personagem, outra criação de Aguinaldo Silva, misturava vilania com humor, especialmente em suas tentativas de se passar por virtuosa. A novela, ambientada na fictícia Greenville, usava o realismo fantástico para destacar os exageros de Altiva, tornando-a um ícone da década.

Laurinha Figueroa, vivida por Glória Menezes em “Rainha da Sucata” (1990), trouxe elegância à maldade. Madrasta de Eduardo, interpretado por Tony Ramos, ela liderava a falida família Albuquerque Figueroa com charme e manipulação. Sua perseguição a Maria do Carmo, personagem de Regina Duarte, era movida por inveja e desespero para manter as aparências. A novela de Silvio de Abreu satirizava a alta sociedade brasileira, e Laurinha, com sua sofisticação cínica, tornou-se um símbolo dessa crítica. Sua atuação rendeu a Menezes um lugar entre as grandes vilãs da emissora.

Odete Roitman em 'Vale Tudo'
Odete Roitman em ‘Vale Tudo’ – Foto: Reprodução/Tv Globo

Vilões sobrenaturais e suas marcas únicas

A teledramaturgia da Globo também se destacou por vilões que fugiam do realismo. Vlad, o vampiro-chefe de “Vamp” (1991), interpretado por Ney Latorraca, encantava e aterrorizava na mesma medida. Seguidor de Natasha, vivida por Claudia Ohana, ele era um aristocrata imortal de aparência jovem, mas capaz de se transformar em um monstro sedento por sangue. A novela, com seu tom cômico e fantástico, marcou os anos 1990 ao misturar terror e humor. Vlad, com sua elegância macabra, tornou-se um dos antagonistas mais peculiares da TV brasileira.

Alexandre, de “A Viagem” (1994), trouxe uma vilania que transcendeu a morte. Interpretado por Guilherme Fontes, o jovem sem caráter morria no início da trama, mas voltava como espírito para atormentar os vivos. Filho de dona Maroca, vivida por Yara Cortes, ele culpava os irmãos e amigos por seu destino trágico, perseguindo-os com vingança sobrenatural. A novela de Ivani Ribeiro, sucesso no horário das sete, explorava temas espirituais que cativaram o público, e Alexandre ficou conhecido como um dos vilões mais persistentes da Globo.

Cristina, vivida por Flávia Alessandra em “Alma Gêmea” (2005), elevou a vilania a outro patamar. Falsa e dissimulada, ela infernizava Serena e Rafael, interpretados por Priscila Fantin e Eduardo Moscovis, com o objetivo de conquistar o cunhado. Sua fachada de bondade escondia uma ambição sem limites, e suas ações levaram a momentos de tensão na trama de Walcyr Carrasco. A novela, que misturava romance e espiritualidade, fez de Cristina uma vilã memorável, reforçando o talento de Alessandra para papéis intensos.

Auge da vilania nas tramas dos anos 2000

Nazaré Tedesco, interpretada por Renata Sorrah em “Senhora do Destino” (2004), é um marco absoluto. A vilã, criada por Aguinaldo Silva, matava suas vítimas empurrando-as escada abaixo, um método que virou sua assinatura. Engraçada e cruel, ela roubava cenas com tiradas irônicas e um carisma único. Sua morte, ao se jogar de uma ponte, encerrou uma trajetória que até hoje inspira memes e páginas de fãs nas redes sociais. A novela foi um fenômeno de audiência, e Nazaré permanece como uma das vilãs mais comentadas da história.

Carminha, de “Avenida Brasil” (2012), consolidou Adriana Esteves como rainha das vilãs. Casada com Tufão, vivido por Murilo Benício, ela manipulava a família enquanto planejava destruir Nina, interpretada por Débora Falabella. Sua volta ao lixão, após ser desmascarada, foi um desfecho humilhante que o público aplaudiu. A trama de João Emanuel Carneiro parou o país, com o último capítulo alcançando mais de 50 pontos de audiência no Ibope. Carminha, com sua mistura de cinismo e vulnerabilidade, tornou-se um ícone cultural.

Flora, vivida por Patrícia Pillar em “A Favorita” (2008), surpreendeu ao revelar sua verdadeira face. Inicialmente vista como vítima, ela se mostrou uma assassina fria, disposta a tudo para se vingar de Donatela, personagem de Claudia Raia. A novela de João Emanuel Carneiro inovou ao esconder a identidade da vilã por boa parte da trama, mantendo o público em suspense. Presa no final, Flora marcou a carreira de Pillar e reforçou o poder das reviravoltas na teledramaturgia.

  • Momentos icônicos dos vilões dos anos 2000:
    • Nazaré empurrando vítimas escada abaixo em “Senhora do Destino”.
    • Carminha voltando ao lixão em “Avenida Brasil”.
    • Flora desmascarada como vilã em “A Favorita”.
Perpetua Tieta
Perpetua Tieta – Foto: reprodução TV Globo

Vilões que refletiram questões sociais

Marcos, de “Mulheres Apaixonadas” (2003), trouxe à tona a violência doméstica. Interpretado por Dan Stulbach, o personagem agredia Raquel, vivida por Helena Ranaldi, com raquetadas em cenas que chocaram o público. A trama de Manoel Carlos abordava o machismo de forma crua, e Marcos, com sua obsessão doentia, tornou-se um símbolo desse problema social. Sua atuação rendeu a Stulbach reconhecimento e destacou a novela como um marco na discussão de gênero.

Sophia, de “O Outro Lado do Paraíso” (2017), mostrou a ganância em sua forma mais cruel. Marieta Severo deu vida a uma mulher que internou a nora Clara, interpretada por Bianca Bin, em um manicômio para roubar suas terras. A vilã, criada por Walcyr Carrasco, manipulava todos ao seu redor com frieza, refletindo disputas por poder e riqueza. Sua derrota, após anos de crimes, foi um alívio para os telespectadores, que acompanharam a novela com fervor.

Theo, de “Vai na Fé” (2023), expôs o lado sombrio do narcisismo. Emilio Dantas interpretou um homem que escondia abusos e manipulações sob a máscara de pai de família. Suas agressões contra Sol, vivida por Sheron Menezzes, e sua tentativa final de vingança, incendiando um galpão, marcaram o desfecho da trama. A novela, exibida no horário das sete, trouxe debates sobre violência psicológica e física, com Theo como um vilão contemporâneo e assustadoramente real.

Vilãs recentes que conquistaram o público

Josiane, de “A Dona do Pedaço” (2019), mostrou que a maldade pode vir de onde menos se espera. Agatha Moreira viveu a filha ambiciosa de Maria da Paz, interpretada por Juliana Paes, que traiu a mãe para roubar sua fortuna. Seus crimes, como assassinatos e alianças com Régis, personagem de Reynaldo Gianecchini, chocaram os fãs da trama de Walcyr Carrasco. Sem redenção, Josiane terminou sozinha, um fim que sublinhou sua incapacidade de mudar.

Gilda, de “Amor Perfeito” (2023), trouxe Mariana Ximenes em um papel de pura vilania. A ruiva incriminou a enteada Marê, vivida por Camila Queiroz, e cometeu uma série de crimes para roubar sua felicidade. Sua morte, ao jogar o carro em um precipício, foi uma escolha dramática que encerrou sua trajetória. A novela das seis, ambientada nos anos 1930, destacou Gilda como uma das vilãs mais intensas dos últimos anos, com Ximenes brilhando em cada cena.

Agatha, de “Terra e Paixão” (2023), surpreendeu ao voltar dos mortos. Eliane Giardini interpretou a ex-mulher de Antônio, vivido por Tony Ramos, que retornou a Nova Primavera para se vingar. Envenenando o ex-marido aos poucos, ela eliminava quem cruzasse seu caminho, mas acabou assassinada antes de completar o plano. A trama rural, sucesso no horário das nove, reforçou o talento de Giardini para vilãs complexas e imprevisíveis.

Legado dos vilões na cultura brasileira

A influência dos vilões da Globo vai além das telas. Personagens como Nazaré Tedesco e Carminha inspiraram memes, paródias e até fantasias de carnaval, mostrando como a teledramaturgia se entrelaça com a identidade nacional. A emissora, que já exportou mais de 100 novelas para o exterior, levou esses antagonistas a públicos globais, com tramas como “Avenida Brasil” alcançando sucesso em países como Portugal e Argentina. Esses vilões refletem não apenas conflitos fictícios, mas também traços da sociedade brasileira, como desigualdade, machismo e corrupção.

A cada década, a Globo reinventou seus vilões, adaptando-os aos tempos. Dos escravagistas como Leôncio aos narcisistas como Theo, a emissora criou um panteão de personagens que desafiam mocinhos e mexem com as emoções do público. Em 60 anos, mais de 50 vilões e vilãs ganharam destaque, muitos reprisados em horários como o “Vale a Pena Ver de Novo” ou disponíveis no Globoplay, que hoje conta com um catálogo de mais de 150 títulos. Essa longevidade prova o poder dessas figuras na narrativa brasileira.

O impacto cultural também se mede pela memória coletiva. Quem não se lembra do mistério sobre quem matou Odete Roitman ou da redenção inesperada de Félix, de “Amor à Vida” (2013), vivido por Mateus Solano? Esses momentos marcaram épocas e continuam a gerar debates entre fãs. A capacidade de criar vilões memoráveis é um dos pilares do sucesso da Globo, que, ao celebrar 60 anos, reafirma sua influência na televisão mundial.

  • Vilões que viraram ícones culturais:
    • Nazaré Tedesco: Bordões e memes eternos.
    • Carminha: Símbolo de vilania popular.
    • Félix: Redenção que dividiu opiniões.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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