A liquidação nas ações de inteligência artificial nos Estados Unidos levou investidores a voltarem a comprar Treasuries, os títulos de dívida pública do governo americano, na semana encerrada em 23 de outubro de 2026. O movimento fez o indicador que mede a relação inversa entre esses papéis soberanos e as empresas de tecnologia atingir níveis registrados pela última vez há um ano.
A busca por proteção ocorreu enquanto os índices Nasdaq 100 e Philadelphia Semiconductor registravam as maiores quedas desde junho, pressionados por dúvidas do mercado sobre a sustentabilidade e o retorno efetivo dos aportes em inteligência artificial. “Os títulos estão, pasmem, voltando a funcionar como proteção para a carteira”, escreveu o estrategista multimercados da Nomura Holdings, Charlie McElligott. Segundo ele, “o mercado parece estar reavaliando em tempo real as probabilidades de um susto de crescimento nos EUA após o ajuste de expectativas em torno da IA”.
Desempenho dos Treasuries e oscilações do petróleo em outubro
Os títulos públicos americanos registraram na quinta-feira (22) o melhor desempenho em mais de um ano, movimento que antecedeu uma devolução parcial dos ganhos na sexta-feira (23), à medida que as ações de tecnologia nos Estados Unidos e os títulos da França se estabilizaram. Mesmo com tensões renovadas no Oriente Médio, ataques na Arábia Saudita e turbulências no mercado francês, a procura por segurança nos papéis do governo americano se manteve ativa ao longo da semana.
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Os indicadores de rendimentos da dívida pública e as cotações internacionais das commodities energéticas registraram as seguintes marcas durante as sessões da semana:
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- Queda de até 20 pontos-base nos rendimentos dos Treasuries de prazo mais curto na sessão de quinta-feira (22).
- Fechamento do rendimento do Treasury de 10 anos abaixo do teto de 5% na quinta-feira (22), permanecendo ligeiramente abaixo desse nível na sexta-feira (23).
- Avanço de 3 a 4 pontos-base nos rendimentos dos títulos americanos ao longo da curva na sexta-feira (23).
- Cotação do barril de petróleo Brent acima de US$ 113 após ataques na Arábia Saudita, ultrapassando US$ 115 na sexta-feira (23), o maior valor desde abril.
- Alta superior a 3% no petróleo WTI, referência nos Estados Unidos, que superou a marca de US$ 102 por barril na sexta-feira (23).
A combinação entre a alta das commodities energéticas e o recuo do setor tecnológico alterou a postura dos agentes financeiros. “O mercado sofreu um golpe duplo: petróleo mais caro e uma liquidação ampla de posições ligadas à IA”, afirmou o diretor de pesquisa da Pepperstone Group, Chris Weston. O executivo acrescentou que “os danos técnicos são reais, e o posicionamento defensivo dos investidores está aumentando”.
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Como a queda das ações de IA afeta as decisões do Federal Reserve?
Os receios sobre o setor de tecnologia somaram-se a indicadores econômicos mais fracos nos Estados Unidos, o que levou os investidores a reduzirem as apostas em novas altas de juros pelo Federal Reserve, o banco central americano, ainda em 2026. Os dados recentes da economia americana incluem queda na confiança do consumidor, crescimento mais lento do emprego e retração nas vendas pendentes de imóveis, fatores que indicam desaceleração da atividade diante dos custos de empréstimo mais elevados.
Na sexta-feira (23), o mercado reconstruiu parcialmente as projeções de aperto monetário que haviam sido reduzidas na véspera. Nos contratos de juros de curto prazo com vencimento em 2027, os investidores ainda embutem integralmente duas altas de 0,25 ponto percentual. Já para o encontro de outubro do banco central, a probabilidade precificada de uma elevação de 0,25 ponto percentual caiu para menos de 15%, o equivalente a menos de 5 pontos-base de aperto.
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O calendário de eventos e referências que balizam as expectativas de juros nos Estados Unidos contempla as seguintes datas:
- 22 de setembro de 2026: última data, antes de outubro, em que o rendimento do título público americano de 10 anos havia encerrado abaixo do patamar de 5%.
- 14 de outubro de 2026: divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) referente a setembro nos Estados Unidos, que apontou inflação persistente e levou contratos a precificarem mais da metade de uma alta de juros.
- 28 de outubro de 2026: próxima reunião do Federal Reserve para decisão sobre a taxa de juros.
- 9 de dezembro de 2026: reunião de política monetária de fim de ano do banco central americano, para a qual o mercado precificava integralmente uma elevação de juros até a véspera do recuo tecnológico.
Endividamento em tecnologia e histórico dos títulos em 2026
Durante a maior parte de 2026, as ações e os títulos públicos recuaram simultaneamente, o que enfraqueceu a função tradicional de refúgio financeiro dos Treasuries, considerado o maior e mais líquido mercado de dívida soberana do mundo. Esse comportamento decorreu da inflação persistente, do alto volume de emissão de dívida pelo governo dos Estados Unidos, das incertezas sobre a condução da política econômica e das demandas de financiamento para expandir projetos de inteligência artificial, exigindo rendimentos maiores para atrair compradores.
Na semana anterior, entre a quinta-feira (15) e a sexta-feira (16), preocupações com os gastos de capital em infraestrutura de IA e com o endividamento corporativo já haviam pressionado empresas de data centers, como a CoreWeave, aumentando a procura por títulos soberanos nos Estados Unidos e na zona do euro. Nesse período, os credit default swaps (CDS, contratos financeiros que funcionam como seguro contra o risco de calote de uma dívida) de companhias de tecnologia atingiram máximas históricas.
Para o gestor na Guinness Global Investors, Craig Veysey, a movimentação recente representa um “ponto de inflexão” para o setor de renda fixa, pois os papéis voltaram a atuar como ativos defensivos em vez de replicarem a queda das bolsas. “Se os investidores começarem a se preocupar com uma recessão, e não com um boom de inteligência artificial, poderemos ver os títulos apresentarem um desempenho muito mais expressivo”, disse Veysey.
O impacto de longo prazo da inteligência artificial sobre o mercado de títulos americanos permanece sem consenso entre os investidores: enquanto uma ala avalia que os ganhos de produtividade da tecnologia terão efeito desinflacionário e permitirão cortes de juros, outra corrente aponta que o crescimento econômico mais forte e os altos investimentos exigidos pelo setor manterão os rendimentos em patamares elevados. A próxima definição sobre o rumo dos juros nos Estados Unidos ocorrerá na quarta-feira (28), data da decisão de política monetária do Federal Reserve.
