Governo de SP inicia remoção de 11 famílias da Favela do Moinho para criar parque em área central
A remoção das primeiras famílias da Favela do Moinho, localizada no coração de São Paulo, começou na manhã de 22 de abril de 2025, marcando o início de um processo que promete transformar a última comunidade do centro da capital. O governo estadual, liderado por Tarcísio de Freitas, planeja converter a área, pertencente à União, em um parque público, além de viabilizar a construção de uma nova estação ferroviária, a Estação Bom Retiro. A iniciativa, porém, enfrenta resistência de moradores que temem perder suas moradias e meios de subsistência. A operação, que envolve a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), foi descrita como uma “mudança programada” para as 11 famílias que aderiram ao programa habitacional. No entanto, a falta de clareza sobre o futuro das quase mil famílias que residem no local alimenta tensões e protestos.
O plano de reassentamento é visto pelo governo como uma solução para oferecer condições de vida mais seguras e dignas aos moradores, que vivem em construções precárias e sob risco de incêndios devido a instalações elétricas improvisadas. A Favela do Moinho, situada entre os trilhos das linhas 7-Rubi e 8-Diamante da CPTM, é marcada por um histórico de vulnerabilidade, com dois grandes incêndios registrados nas últimas décadas. A CDHU afirma que 86% das famílias já iniciaram o processo de adesão ao programa habitacional, com 531 delas habilitadas para assinar contratos e 444 com imóveis de destino definidos. Apesar desses números, lideranças comunitárias contestam a voluntariedade do processo, alegando pressões para aceitar as propostas.
A área, que ocupa cerca de 23 mil metros quadrados, é estratégica para o governo estadual, que enxerga na desocupação uma oportunidade de requalificação urbana. Além do parque, o projeto inclui a criação de um polo de desenvolvimento urbano, com a nova estação ferroviária destinada a melhorar a mobilidade na região. A Secretaria do Patrimônio da União (SPU), no entanto, condiciona a cessão do terreno à garantia do direito à moradia de todas as famílias, o que ainda depende de ajustes no plano de reassentamento apresentado pela CDHU.

Contexto histórico da Favela do Moinho
Formada na década de 1990, a Favela do Moinho surgiu em um terreno onde funcionava o Moinho Central, uma indústria de moagem de farinhas desativada nos anos 1980. A comunidade cresceu em uma área desafiadora, cercada por trilhos de trem e com apenas um acesso, o que a tornou isolada e vulnerável. Apesar das dificuldades, mais de 900 famílias construíram suas vidas no local, que também abriga pequenos comércios, essenciais para a renda de muitos moradores. A localização central, próxima aos bairros Campos Elíseos, Bom Retiro e Barra Funda, torna a favela um ponto estratégico, mas também alvo de disputas fundiárias e interesses urbanísticos.
Ao longo dos anos, a comunidade enfrentou tentativas de desapropriação e conflitos com o poder público. Incêndios devastadores, como os registrados em 2011 e 2019, destruíram centenas de moradias e intensificaram o debate sobre a segurança dos moradores. A ausência de regularização fundiária, devido à posse do terreno pela União, sempre foi um obstáculo para melhorias estruturais. Mesmo assim, os moradores conquistaram avanços, como a instalação de redes de água e saneamento básico, o que reforça a reivindicação de alguns por permanecer no local.
A relação da Favela do Moinho com a Cracolândia, localizada a poucos quilômetros, também moldou sua história recente. Investigações do Ministério Público apontam que a comunidade foi usada como base pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para atividades criminosas, incluindo o tráfico de drogas e monitoramento policial. Essa associação, porém, é questionada por lideranças locais, que acusam o governo de usar o argumento do crime organizado para justificar a remoção e abrir espaço para a valorização imobiliária na região central.
Principais desafios do reassentamento
O processo de reassentamento das famílias da Favela do Moinho enfrenta obstáculos que vão além da logística de mudança. A CDHU oferece opções como Carta de Crédito Associativa e Carta de Crédito Individual, com subsídios que podem cobrir até 70% do valor dos imóveis para famílias de baixa renda. Além disso, auxílios financeiros, como R$ 2.400 para mudança e R$ 800 mensais para aluguel temporário, foram propostos enquanto as moradias definitivas não são entregues. No entanto, muitos moradores consideram as alternativas insuficientes, especialmente aqueles que desejam permanecer no centro de São Paulo, onde trabalham e têm suas redes de apoio.
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A falta de moradias prontas é uma das principais críticas. Parte das unidades habitacionais prometidas ainda está em construção, com previsão de entrega em até dois anos. Para famílias como a de Leidivania Domingues, de 30 anos, que vive com o marido e dois filhos pequenos com uma renda mensal de R$ 1.518, a incerteza sobre o futuro é angustiante. Moradores relatam que a pressão para aceitar as propostas do governo, combinada com a presença constante da Polícia Militar, cria um clima de intimidação.
- Falta de moradias no centro: A maioria dos imóveis oferecidos está localizada fora da região central, dificultando o acesso ao trabalho e à rede social dos moradores.
- Custo das habitações: Apesar dos subsídios, as prestações dos imóveis podem ser inviáveis para famílias de baixa renda.
- Impacto nos comércios: Os pequenos negócios, como vendas ambulantes e oficinas, enfrentam dificuldades para se realocar, ameaçando a subsistência de dezenas de famílias.
- Falta de transparência: Moradores alegam que o plano de reassentamento não é claro, e muitos sentem que a adesão foi feita sob coerção.
Operações policiais e tensões com a comunidade
A presença da Polícia Militar na Favela do Moinho intensificou as tensões nos últimos meses. Em 18 de abril de 2025, uma operação da Rocam, com apoio do Batalhão de Ações Especiais (Baep), resultou na prisão de um suspeito de tráfico de drogas. A ação, que envolveu cerca de 20 policiais e cinco viaturas, foi marcada por protestos dos moradores, que montaram barricadas e atearam fogo nos trilhos de trem, interrompendo temporariamente a circulação da Linha 8-Diamante da CPTM. A comunidade acusou os agentes de truculência, incluindo o uso de bombas de efeito moral contra a população.
Dias antes, em 15 de abril, outra manifestação contra o projeto de desocupação terminou em confronto na Avenida 9 de Julho, quando a polícia dispersou os manifestantes com gás lacrimogêneo. Esses episódios reforçam a percepção de parte da comunidade de que o governo adota táticas de intimidação para acelerar a remoção. A Secretaria de Segurança Pública, por sua vez, defende as operações como parte da Operação Dignidade, que visa combater a criminalidade na região dos Campos Elíseos e Bom Retiro, incluindo a Favela do Moinho.
A associação da comunidade com o crime organizado, especialmente o PCC, é um ponto sensível. Em 2024, a Operação Salus et Dignitas, deflagrada pelo Ministério Público, revelou que a favela era usada como uma base de inteligência do PCC, com equipamentos como detectores de radiofrequência para interceptar comunicações policiais. A operação resultou na prisão de suspeitos, incluindo Leonardo Monteiro Moja, conhecido como Léo do Moinho, apontado como líder do tráfico na região. Apesar disso, moradores argumentam que a criminalização generalizada da comunidade é injusta e serve como pretexto para a desocupação.
Impactos sociais e econômicos da remoção
A remoção da Favela do Moinho não afeta apenas as moradias, mas também a dinâmica social e econômica da comunidade. Muitos moradores, como Isnar Machado, de 54 anos, que trabalha como vendedor ambulante, veem na proposta de reassentamento uma oportunidade de melhorar suas condições de vida. Ele destaca a oferta da carta de crédito de até R$ 250 mil e os auxílios financeiros como fatores positivos. No entanto, outros, como Solange Rondini, de 56 anos, auxiliar de limpeza, expressam preocupação com a pressão para sair rapidamente, sem garantias de que as novas moradias atenderão às suas necessidades.
Os comércios locais, que vão desde pequenas mercearias até oficinas de reparos, enfrentam um futuro incerto. A favela é um polo de economia informal, onde muitas famílias dependem de atividades locais para sobreviver. A realocação para áreas periféricas pode romper essas redes econômicas, dificultando a manutenção dos negócios. Além disso, a proximidade com o centro permite que os moradores acessem empregos em setores como limpeza, construção e comércio, algo que pode ser comprometido com a mudança para locais mais distantes.
A Defensoria Pública de São Paulo tem acompanhado o processo e, em 7 de abril de 2025, enviou um ofício à SPU com recomendações para o plano de reassentamento. O documento solicita que não haja remoções ou demolições até que o terreno seja formalmente cedido ao estado e que as necessidades dos moradores sejam plenamente atendidas. A Defensoria também defende a possibilidade de regularização fundiária, uma reivindicação antiga da comunidade, mas considerada inviável pelo governo devido aos riscos associados à proximidade com os trilhos de trem.
Cronologia das ações na Favela do Moinho
A trajetória da Favela do Moinho é marcada por eventos que refletem os desafios de sua permanência no centro de São Paulo. Abaixo, uma linha do tempo com os principais acontecimentos recentes:
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- Década de 1990: A favela começa a se formar no terreno desativado do Moinho Central, atraindo famílias em busca de moradia acessível.
- 2011: Um grande incêndio destrói parte da comunidade, deixando centenas de famílias desabrigadas e reacendendo o debate sobre reassentamento.
- 2017: Operação policial na Cracolândia atinge a favela, com alegações de que o local era um entreposto do tráfico, gerando protestos.
- 2019: Novo incêndio agrava as condições da comunidade, intensificando a pressão por soluções habitacionais.
- 2024: A Operação Salus et Dignitas prende suspeitos ligados ao PCC, apontando a favela como base de atividades criminosas.
- Abril de 2025: O governo inicia a remoção de 11 famílias, enquanto protestos e operações policiais aumentam as tensões.
Resistência e perspectivas para o futuro
A resistência dos moradores da Favela do Moinho é liderada por figuras como Yasmin Moja, de 24 anos, nascida na comunidade e uma das vozes mais ativas contra a remoção. Ela defende a gratuidade das moradias e a regularização fundiária, argumentando que a comunidade tem direito de permanecer no local onde construiu sua história. A pressão por moradias no centro é compartilhada por outros moradores, que temem perder o acesso a empregos e serviços essenciais. A Defensoria Pública e organizações de direitos humanos acompanham o caso, exigindo transparência e garantias de que nenhuma família será desalojada sem uma solução adequada.
O projeto do governo estadual, que inclui o parque e a Estação Bom Retiro, é apresentado como parte de uma estratégia maior de revitalização do centro de São Paulo. A gestão Tarcísio de Freitas argumenta que a requalificação urbana trará benefícios como maior segurança, mobilidade e valorização da região. Críticos, no entanto, apontam que a iniciativa pode favorecer a especulação imobiliária, deslocando populações vulneráveis para áreas periféricas. A proximidade da favela com a Cracolândia também é usada como justificativa para a desocupação, embora lideranças comunitárias contestem a narrativa de que a comunidade é responsável pelo problema do tráfico.
A Secretaria do Patrimônio da União ainda não definiu o prazo para a cessão do terreno, e o processo depende de um acordo entre os governos estadual e federal. Enquanto isso, as famílias da Favela do Moinho vivem um momento de incerteza, divididas entre a esperança de melhores condições de vida e o medo de perderem suas raízes no centro da capital. A CDHU mantém equipes sociais na região para esclarecer dúvidas e negociar com os moradores, mas o clima de desconfiança persiste.
Papel da comunidade na economia local
A Favela do Moinho não é apenas um espaço residencial, mas também um centro de atividade econômica que sustenta centenas de famílias. Os comércios informais, como vendas de alimentos, roupas e serviços de reparos, são a base da economia local. Esses negócios dependem da localização central da favela, que atrai clientes dos bairros vizinhos e de outras partes da cidade. A remoção ameaça desestruturar essa rede, especialmente para trabalhadores como Adailda Alves da Costa, de 71 anos, que já visitou o apartamento oferecido pelo governo, mas teme perder sua fonte de renda.
A economia informal da favela também é marcada pela resiliência dos moradores, que, apesar das condições precárias, criaram um sistema de trocas e serviços que atende às necessidades da comunidade. A proximidade com o centro permite que muitos trabalhem em empregos temporários ou informais, como faxinas e entregas, que dependem da facilidade de deslocamento. A mudança para áreas distantes pode dificultar o acesso a essas oportunidades, aumentando a vulnerabilidade econômica das famílias.
- Impacto nos trabalhadores informais: Muitos moradores dependem de empregos no centro, como limpeza e comércio, que podem ser inviabilizados pela realocação.
- Fechamento de comércios: Pequenos negócios, como mercearias e oficinas, enfrentam dificuldades para se estabelecer em novos locais.
- Desafios para idosos: Moradores mais velhos, como Adailda, temem perder sua independência financeira com a mudança.
- Ruptura de redes sociais: A comunidade é um espaço de apoio mútuo, que pode ser fragmentado com a dispersão das famílias.
Conflitos fundiários e interesses urbanísticos
A disputa pelo terreno da Favela do Moinho reflete um conflito mais amplo sobre o uso do solo no centro de São Paulo. A região central, historicamente marcada por ocupações populares, tornou-se alvo de projetos de requalificação que buscam atrair investimentos e revitalizar a área. O plano do governo estadual, que inclui o parque e a nova estação ferroviária, é visto como parte de uma estratégia para aumentar a atratividade do centro, mas também levanta suspeitas de que a desocupação favoreça a especulação imobiliária.
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A valorização imobiliária na região dos Campos Elíseos e Bom Retiro já é perceptível, com a construção de novos empreendimentos residenciais e comerciais. A remoção da favela, segundo críticos, pode abrir espaço para projetos que priorizem o lucro em detrimento das necessidades das populações vulneráveis. A proximidade com a Cracolândia também alimenta o debate, já que o governo argumenta que a desocupação é essencial para reduzir o consumo de drogas a céu aberto, enquanto moradores acusam as autoridades de usar o problema como pretexto para deslocar a comunidade.
A tensão entre o direito à moradia e os interesses urbanísticos não é nova na história da Favela do Moinho. Desde sua formação, a comunidade enfrentou pressões para ceder espaço a projetos de infraestrutura e desenvolvimento. A ausência de regularização fundiária, devido à posse do terreno pela União, sempre limitou a capacidade dos moradores de garantir sua permanência. A atual negociação entre o governo estadual e a SPU será decisiva para definir o futuro da área e das famílias que ali vivem.

















