Uma recepcionista de Salvador, na Bahia, acionou a Justiça do Trabalho em maio de 2025 após ter seu pedido de licença-maternidade negado por sua empregadora, uma empresa do setor imobiliário. A solicitação, feita para cuidar de uma boneca hiper-realista conhecida como bebê reborn, batizada de Olívia, gerou polêmica ao ser rejeitada sob o argumento de que a trabalhadora “não era mãe de verdade”. A ação, protocolada na 16ª Vara do Trabalho, alega que a funcionária sofreu constrangimentos e zombarias no ambiente de trabalho, resultando em abalo emocional. O caso, que também inclui pedidos de indenização por danos morais e rescisão indireta do contrato, foi arquivado após a desistência da autora devido à repercussão negativa. A situação expõe debates sobre maternidade afetiva e os limites da legislação trabalhista brasileira.
A trabalhadora, contratada desde abril de 2020, informou à empresa em fevereiro de 2025 que havia desenvolvido um vínculo materno com a boneca, tratada como sua filha. A petição inicial detalha que a recusa do benefício foi acompanhada de comentários depreciativos, como a sugestão de que ela “precisava de psiquiatra”. A ação trabalhista, inicialmente estimada em R$ 40 mil, incluía pedidos de salário-família retroativo e indenização de R$ 10 mil por danos morais.
O caso ganhou notoriedade nas redes sociais e na imprensa, gerando críticas e ameaças à autora e sua advogada, Vanessa Homem. Menos de 48 horas após a protocolização, a defesa anunciou a desistência, citando riscos à integridade física das envolvidas. A petição de desistência também solicitou segredo de justiça, apontando mensagens de ódio e até visitas indesejadas à residência da advogada.
- Principais pedidos da ação:
- Licença-maternidade de 120 dias para cuidados com a boneca.
- Pagamento de salário-família retroativo.
- Indenização de R$ 10 mil por danos morais.
- Rescisão indireta do contrato, com liberação de FGTS e multa de 40%.
Origem da polêmica
Bebês reborn são bonecas hiper-realistas, feitas de vinil ou silicone, que simulam características de recém-nascidos, como peso, textura da pele e cabelos implantados. No Brasil, a popularidade dessas bonecas cresceu nos últimos anos, com preços variando de R$ 500 a mais de R$ 9 mil, dependendo da complexidade. Algumas pessoas, como a recepcionista de Salvador, desenvolvem laços emocionais profundos, tratando as bonecas como filhos. A petição inicial da ação argumentava que a maternidade vai além da biologia, destacando o “comprometimento afetivo” envolvido no cuidado com a boneca Olívia.
A defesa da trabalhadora baseou-se em princípios constitucionais, como a dignidade da pessoa humana e o livre desenvolvimento da personalidade, para justificar o pedido. A advogada Vanessa Homem afirmou que a ação não buscava apenas a licença, mas também reparação pelos constrangimentos sofridos no ambiente de trabalho. A empresa, por sua vez, ainda não havia apresentado defesa formal antes da desistência do processo.
Repercussão nas redes sociais
A notícia do processo rapidamente se espalhou por plataformas como X, onde usuários compartilharam reações que variavam entre surpresa e deboche. Algumas publicações destacaram a singularidade do caso, enquanto outras criticaram a trabalhadora, gerando um debate acalorado. A advogada relatou que sua cliente recebeu centenas de mensagens ofensivas, incluindo ameaças de violência física. Em grupos de WhatsApp, prints divulgados na petição de desistência mostravam incitações a agressões contra a autora e sua representante legal.
A exposição midiática também afetou a advogada, que desativou suas redes sociais após receber mensagens hostis. Um episódio relatado na petição mencionava uma visita à sua residência às 5h da manhã por pessoas em busca de “esclarecimentos” sobre o caso. Esses eventos levaram a defesa a priorizar a segurança das envolvidas, resultando no pedido de arquivamento.
- Fatos que intensificaram a repercussão:
- Publicações em portais como CNN Brasil e G1, que detalharam a ação.
- Comentários em X, com hashtags como #BebeReborn e #LicencaMaternidade.
- Reações de juízes do trabalho em grupos privados, expressando incredulidade.
Limites da legislação trabalhista
A legislação brasileira prevê licença-maternidade de 120 dias para gestantes, adotantes ou em casos de guarda judicial para fins de adoção. O benefício visa garantir o cuidado e o vínculo com uma criança recém-chegada à família. No caso dos bebês reborn, não há precedentes legais que reconheçam bonecas como sujeitos de direitos, o que torna o pedido da recepcionista juridicamente inviável, segundo especialistas consultados por portais de notícias. A advogada trabalhista Érika de Mello, em entrevista ao Correio Braziliense, destacou que a parentalidade, seja biológica ou socioafetiva, envolve relações entre seres humanos, inexistentes no caso de objetos inanimados.
Apesar da falta de respaldo legal para a licença, a ação levantou questões sobre assédio moral no ambiente de trabalho. A petição inicial apontava que a trabalhadora sofreu “abalo psíquico profundo” devido às zombarias, o que poderia justificar o pedido de indenização por danos morais e rescisão indireta com base no artigo 483 da CLT.
Outros casos envolvendo bebês reborn
O caso de Salvador não é o primeiro a trazer bebês reborn ao debate público. Em Quedas do Iguaçu, no Paraná, uma mulher foi demitida em maio de 2025 após solicitar afastamento para cuidar de uma boneca hiper-realista. A trabalhadora apresentou um atestado psicológico, mas a empresa optou pela dispensa. Em Goiás, uma advogada relatou ter sido procurada para defender a guarda de uma boneca reborn após o fim de um relacionamento, embora tenha recusado o caso por falta de base jurídica.
No Rio de Janeiro, a aprovação do Dia da Cegonha Reborn, a ser celebrado em 4 de setembro, gerou discussões entre vereadores. Projetos de lei também tramitam no Congresso Nacional para restringir o uso de serviços públicos, como hospitais, para atendimentos simulados envolvendo bonecas. Um projeto proposto pelo deputado Paulo Bilynskyj prevê multas de cinco a 20 salários mínimos para infrações, com os valores destinados a fundos para a primeira infância.
- Casos recentes no Brasil:
- Demissão no Paraná por pedido de afastamento para cuidar de boneca.
- Disputa por guarda de bebê reborn em Goiás.
- Projeto de lei no Congresso para limitar atendimentos em serviços públicos.
Produção e mercado de bebês reborn
A fabricação de bebês reborn envolve artesãs conhecidas como “cegonhas”, que utilizam kits de vinil ou silicone para criar bonecas com detalhes realistas. O processo inclui pintura manual, implantação de cabelos fio a fio e adição de pesos para simular o corpo de um bebê. Em Campinas, São Paulo, uma loja especializada oferece “partos” simulados, com certidões de nascimento e carteiras de vacinação fictícias, atraindo colecionadores e pessoas em busca de suporte emocional.
O mercado brasileiro de bebês reborn movimenta milhares de reais anualmente. Artesãs como Sara Gomes, que atua na área desde 2002, relatam aumento na demanda, impulsionado por redes sociais. Influenciadoras como Nane Reborns, com milhares de seguidores, compartilham rotinas de cuidados com as bonecas, ampliando sua visibilidade.
Debate sobre saúde mental
Alguns profissionais da psicologia apontam que bebês reborn podem servir como ferramentas terapêuticas, ajudando em casos de luto ou ansiedade. A psicanalista Maysa Campos, em entrevista ao G1, destacou que a relação com as bonecas pode ser uma forma lúdica de lidar com o medo da morte, comum na maternidade. No entanto, especialistas alertam que o uso excessivo pode indicar questões emocionais que requerem acompanhamento profissional.
A recepcionista de Salvador não apresentou laudos psicológicos na ação, mas a petição mencionava o impacto emocional das zombarias no trabalho. O caso reforça a necessidade de políticas corporativas que evitem assédio e promovam respeito à diversidade de experiências pessoais.
- Perspectivas da psicologia:
- Uso de bonecas como suporte emocional em casos de luto.
- Riscos de dependência emocional sem acompanhamento profissional.
- Importância de ambientes de trabalho livres de discriminação.
Reações no meio jurídico
O processo chamou a atenção de magistrados, que compartilharam reações em grupos privados, segundo a advogada Vanessa Homem. A falta de precedentes legais para o pedido de licença-maternidade gerou debates sobre os limites do reconhecimento de vínculos afetivos no Direito. A desistência da ação, no entanto, impediu que o caso fosse julgado, deixando questões em aberto.
A audiência, inicialmente marcada para 28 de julho de 2025, foi cancelada após o arquivamento. O Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região informou que o pedido de desistência seria avaliado por um juiz, que poderia homologar o fim do processo sem custas, caso o benefício da justiça gratuita fosse concedido.
Projetos legislativos em tramitação
Além do caso de Salvador, bebês reborn têm motivado iniciativas legislativas. Três projetos de lei apresentados na Câmara dos Deputados em maio de 2025 buscam regular o uso de bonecas em serviços públicos. As propostas incluem proibições de atendimentos médicos simulados e multas para funcionários que descumprirem as regras. No Rio de Janeiro, a criação do Dia da Cegonha Reborn reflete o reconhecimento cultural do fenômeno, mas também gera críticas de setores que veem a iniciativa como desnecessária.
A tramitação dos projetos ainda está em fase inicial, com audiências públicas previstas para o segundo semestre de 2025. Deputados argumentam que a regulamentação é necessária para evitar o uso indevido de recursos públicos, enquanto defensores das bonecas destacam seu valor emocional para colecionadores.
- Propostas legislativas:
- Multas para atendimentos simulados em hospitais.
- Destinação de recursos de multas para fundos de primeira infância.
- Criação do Dia da Cegonha Reborn no Rio de Janeiro.
Impacto nas empresas
O caso de Salvador expôs a necessidade de políticas corporativas que abordem situações sensíveis no ambiente de trabalho. A recusa da licença-maternidade, embora juridicamente embasada, foi agravada pelas reações inadequadas de colegas e gestores, segundo a petição. Especialistas em recursos humanos recomendam treinamentos para prevenir assédio moral e promover a inclusão, especialmente em casos que envolvem escolhas pessoais incomuns.
A empresa imobiliária não se manifestou publicamente sobre o caso, e a falta de defesa formal no processo limita as informações sobre sua posição. A desistência da ação evitou um precedente jurídico, mas o episódio permanece como um alerta para a gestão de conflitos trabalhistas.

