Mudança na pressão arterial: 12 por 8 deixa de ser normal, diz estudo europeuPor Beatriz
9 min de leitura
![]() |
A tradicional pressão arterial de 120/80 mmHg, por décadas vista como o padrão ideal de saúde cardiovascular, foi reclassificada como “elevada” pelas novas diretrizes da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), apresentadas no Congresso Europeu de Cardiologia, em Londres, no final de agosto de 2024. A mudança, publicada no European Heart Journal, reflete avanços científicos que mostram que riscos como infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca começam a aumentar em níveis de pressão antes considerados normais. No Brasil, onde a hipertensão afeta cerca de 30% dos adultos, segundo o Ministério da Saúde, a novidade desperta atenção de médicos e pacientes. A redefinição busca promover prevenção precoce, com foco em hábitos saudáveis e, em alguns casos, tratamento medicamentoso.
As diretrizes europeias introduzem uma nova abordagem para classificar a pressão arterial, criando três categorias distintas. Essa mudança visa identificar precocemente indivíduos em risco, especialmente aqueles com fatores como diabetes, obesidade ou histórico familiar de doenças cardíacas. A seguir, as principais alterações:
- Pressão arterial não elevada: abaixo de 120/70 mmHg (12 por 7).
- Pressão arterial elevada: entre 120/70 e 139/89 mmHg (12 por 7 a 14 por 9).
- Hipertensão arterial: igual ou superior a 140/90 mmHg (14 por 9).
Essa nova classificação reconhece que a pressão arterial não muda abruptamente de normal para hipertensa, mas segue um gradiente de risco contínuo.
Por que a pressão 12 por 8 deixou de ser ideal?
A redefinição da pressão arterial como “elevada” a partir de 120/70 mmHg é baseada em estudos que demonstram um aumento progressivo do risco cardiovascular a partir de valores mais baixos do que os anteriormente aceitos. Pesquisas revisadas pela ESC indicam que, a partir de 115/75 mmHg, cada incremento de 20 mmHg na pressão sistólica ou 10 mmHg na diastólica eleva o risco de eventos como infarto e AVC.
Essa abordagem considera o risco cardiovascular global, que inclui fatores como idade, sexo, colesterol alto, tabagismo e condições como diabetes ou doença renal crônica. Para indivíduos com esses fatores, mesmo uma pressão de 120/80 mmHg pode representar um alerta. No Brasil, especialistas como Audes Feitosa, ex-presidente do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), reforçam que a mudança europeia está alinhada com evidências científicas acumuladas nas últimas décadas.
A preocupação é ainda maior em populações com alta prevalência de hipertensão. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, globalmente, o número de hipertensos dobrou entre 1990 e 2019, passando de 650 milhões para 1,3 bilhão. No Brasil, cerca de 30 milhões de pessoas convivem com a condição, que é a principal causa de complicações cardiovasculares, como AVC e infarto.
O que mudou no diagnóstico da pressão arterial?
As novas diretrizes enfatizam a importância de medições precisas e fora do consultório para confirmar níveis elevados de pressão. A monitorização residencial da pressão arterial (MRPA) e a monitorização ambulatorial de 24 horas (MAPA) são recomendadas para evitar diagnósticos equivocados, como a hipertensão do avental branco (elevação da pressão apenas em consultórios devido à ansiedade) ou a hipertensão mascarada (pressão normal em consultórios, mas elevada no dia a dia).
Os equipamentos utilizados devem ser validados e calibrados, preferencialmente os oscilométricos, que oferecem maior precisão. Em casos de fibrilação atrial, o método auscultatório, com medidores manuais, é indicado. As diretrizes também sugerem rastreamentos regulares: a cada três anos para adultos abaixo de 40 anos e anualmente para aqueles acima dessa idade.
No Brasil, a Sociedade Brasileira de Cardiologia já adota práticas semelhantes, conforme as Diretrizes Brasileiras de Medidas da Pressão Arterial de 2023. Essas orientações reforçam a necessidade de múltiplas medições, em diferentes horários, para um diagnóstico confiável. Por exemplo, recomenda-se realizar de duas a três medições consecutivas, com intervalos de um minuto, em ambientes calmos e após repouso de cinco a dez minutos.
Como as novas diretrizes afetam o tratamento?
O tratamento da pressão arterial agora é mais personalizado, com base no risco cardiovascular de cada paciente. As recomendações variam conforme a categoria de pressão:
- Hipertensão (≥ 140/90 mmHg): Início imediato de medicamentos anti-hipertensivos combinados com mudanças no estilo de vida, como redução de sal, prática de exercícios e cessação do tabagismo.
- Pressão elevada (120/70 a 139/89 mmHg): Foco inicial em hábitos saudáveis por 6 a 12 meses. Se a pressão permanecer acima de 130/80 mmHg, especialmente em pacientes de alto risco, a terapia farmacológica pode ser considerada.
- Pressão não elevada (< 120/70 mmHg): Não há necessidade de intervenções específicas, mas a manutenção de um estilo de vida saudável é incentivada.
Para pacientes com pressão elevada, a estratificação de risco é crucial. Aqueles com risco cardiovascular elevado, como diabéticos ou pessoas com histórico de doenças cardíacas, devem iniciar mudanças no estilo de vida imediatamente. Após três meses, se a pressão não baixar, medicamentos podem ser prescritos.
Mudanças no estilo de vida em destaque
As diretrizes europeias reforçam a importância de intervenções não farmacológicas para prevenir e controlar a pressão arterial. Essas medidas são especialmente relevantes para a categoria de pressão elevada, onde o objetivo é evitar a progressão para hipertensão. As principais recomendações incluem:
- Redução de sal: Limitar o consumo de sódio a menos de 5 gramas por dia, equivalente a cerca de uma colher de chá.
- Atividade física: Praticar pelo menos 150 minutos de exercícios aeróbicos moderados por semana, como caminhada, corrida ou natação, ou 75 minutos de exercícios intensos.
- Controle de peso: Manter um índice de massa corporal (IMC) entre 18,5 e 24,9, já que a obesidade é um fator de risco significativo.
- Cessação do tabagismo: Parar de fumar reduz diretamente o risco cardiovascular.
- Gestão do estresse: Técnicas como meditação e respiração profunda ajudam a controlar a pressão arterial.
No Brasil, especialistas destacam que essas medidas são acessíveis e podem ser implementadas no dia a dia, mas a adesão ainda é baixa. Apenas 30% dos hipertensos brasileiros têm a pressão controlada, segundo a Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH).
Novas opções terapêuticas em foco
Para casos de hipertensão resistente, quando a pressão não é controlada com três medicamentos, as diretrizes europeias sugerem o uso de espironolactona como quarta droga ou a denervação renal, uma técnica minimamente invasiva com recomendação classe IIb. Essa abordagem, embora não seja de primeira linha, representa um avanço no manejo de casos complexos.
Além disso, a monoterapia inicial é indicada para pacientes com pressão elevada ou hipertensão acompanhada de condições como hipotensão ortostática, fragilidade ou idade acima de 85 anos. Para gestantes com hipertensão leve (≥ 140/90 mmHg), o tratamento também é recomendado, com meta de manter a pressão abaixo de 140/90 mmHg.
A visão brasileira sobre as mudanças
A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) está revisando suas diretrizes, com previsão de publicação no primeiro semestre de 2025. Há uma tendência de alinhamento com as recomendações europeias, mas com adaptações à realidade brasileira. Por exemplo, a SBC mantém o limite de 130/80 mmHg para iniciar tratamento medicamentoso em pacientes com pré-hipertensão e condições como infarto prévio ou insuficiência cardíaca.
Críticas, no entanto, surgem entre especialistas brasileiros. Luiz Bortolotto, diretor da Unidade de Hipertensão do Instituto do Coração (InCor), questiona a redução do limite diastólico para 70 mmHg, argumentando que não há evidências robustas para considerar esse valor como risco. Além disso, o termo “pressão elevada” pode gerar confusão, já que o público brasileiro associa “pressão alta” à hipertensão.
Prevenção precoce como prioridade
A reclassificação da pressão arterial reforça a necessidade de prevenção desde idades mais jovens. As diretrizes europeias recomendam triagem oportunística para detectar pressão elevada, com intervalos específicos por faixa etária. No Brasil, a baixa adesão ao controle da hipertensão é um desafio, com apenas 30% dos pacientes alcançando metas de pressão, segundo a SBH.
Campanhas de conscientização e o incentivo à aferição domiciliar são estratégias destacadas. Medir a pressão em casa, com equipamentos validados, permite um acompanhamento mais preciso e reduz o impacto de fatores como ansiedade no consultório. Além disso, a educação sobre hábitos saudáveis pode prevenir a progressão da pressão elevada para hipertensão.
Fatores de risco adicionais para mulheres
As diretrizes europeias destacam modificadores de risco específicos para mulheres, que podem aumentar a probabilidade de complicações cardiovasculares. Esses fatores incluem:
- Diabetes gestacional.
- Hipertensão gestacional.
- Pré-eclâmpsia.
- Parto prematuro.
- Abortos recorrentes.
Quando presentes, esses fatores justificam a introdução de mudanças no estilo de vida e, se necessário, tratamento farmacológico após três meses, caso a pressão permaneça acima de 130/80 mmHg.
Implicações para o sistema de saúde
A redução do limite de pressão arterial normal pode aumentar o número de pessoas classificadas como “elevadas” ou hipertensas, demandando mais recursos para diagnóstico, acompanhamento e tratamento. No Brasil, onde o Sistema Único de Saúde (SUS) já enfrenta desafios, a adoção dessas diretrizes exigirá investimentos em campanhas educativas, acesso a equipamentos de medição validados e treinamento de profissionais.
Por outro lado, a prevenção precoce pode reduzir os custos associados a complicações graves, como internações por AVC ou infarto. Especialistas como José Maria Braga Neto, cardiologista da Livemed Gestão em Saúde, destacam que tratar a hipertensão precocemente aumenta as chances de evitar desfechos graves, beneficiando tanto os pacientes quanto o sistema de saúde.
Alvos terapêuticos mais agressivos
As novas diretrizes estabelecem metas mais rígidas para a pressão arterial, recomendando valores sistólicos entre 120 e 129 mmHg e diastólicos entre 70 e 79 mmHg para a maioria dos pacientes. Essas metas são baseadas em ensaios clínicos que mostram benefícios na redução de eventos cardiovasculares com níveis mais baixos de pressão.
Para pacientes com fragilidade, idade acima de 85 anos ou hipotensão ortostática, as metas são menos agressivas, buscando o menor valor tolerado sem efeitos adversos, como tonturas ou quedas. Essa abordagem individualizada reflete a necessidade de equilibrar benefícios e riscos, especialmente em populações vulneráveis.







