Tailandia impõe bloqueio de turistas em disputa com Camboya, novas restrições afetam viagens na regiãoPor Carolina Costa
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BANGKOK — A Tailândia anunciou, em 23 de junho de 2025, novas restrições nas fronteiras terrestres com a Camboja, bloqueando a saída de turistas em meio a uma disputa territorial que ganhou força após um confronto armado em maio. A medida, liderada pela primeira-ministra Paetongtarn Shinawatra, visa conter o fluxo de visitantes, especialmente para os cassinos cambojanos, mas impacta estudantes, pacientes médicos e outros viajantes. O conflito, centrado em áreas disputadas como Preah Vihear, escalou tensões diplomáticas, levando a retaliações como o boicote de Camboja a combustíveis tailandeses. As restrições afetam cinco províncias tailandesas e alteram rotas turísticas populares no sudeste asiático. A decisão gerou críticas internas e protestos nacionalistas, enquanto ambos os países tentam evitar uma escalada militar.
As relações entre Tailândia e Camboja, historicamente marcadas por disputas territoriais, atingiram um novo ponto de tensão. Um confronto em 28 de maio, que resultou na morte de um soldado cambojano, reacendeu rivalidades em uma região onde o templo de Preah Vihear, declarado patrimônio da UNESCO, é um símbolo de discórdia. Ambos os lados concordaram em reduzir a presença militar, mas a retórica nacionalista mantém o clima instável.
- Confronto de maio: Tiroteio em área disputada matou um soldado cambojano.
- Medidas tailandesas: Bloqueio de turistas e reforço em cinco províncias.
- Resposta cambojana: Boicote a combustíveis e serviços de internet tailandeses.
A situação é agravada por questões políticas internas, especialmente na Tailândia, onde Paetongtarn enfrenta críticas por sua postura considerada branda em relação à Camboja.
Medidas tailandesas e impacto imediato
As restrições anunciadas por Paetongtarn Shinawatra entraram em vigor imediatamente, com o exército tailandês implementando controles rigorosos em todos os postos de controle nas províncias de Surin, Sisaket, Sa Kaeo, Trat e Chanthaburi. Apenas estudantes, pacientes médicos e pessoas em busca de bens essenciais podem cruzar a fronteira, enquanto turistas enfrentam barreiras intransponíveis. A medida, segundo o governo, busca limitar o acesso aos cassinos cambojanos, que atraem milhares de visitantes anualmente.
O impacto no turismo é significativo. A Tailândia, um dos principais destinos do sudeste asiático, viu suas rotas de viagem para a Camboja, como a popular conexão entre Bangkok e Siem Reap, interrompidas. Agências de viagem relatam cancelamentos em massa, e operadores de ônibus que conectam os dois países suspenderam serviços. A decisão também afeta trabalhadores transfronteiriços, que dependem da mobilidade entre as nações para seu sustento.
Embora a Tailândia justifique as restrições como uma resposta à segurança nacional, críticos apontam que a medida pode ter motivações políticas. Paetongtarn, filha do ex-primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, enfrenta pressões de grupos nacionalistas que a acusam de fraqueza diante da Camboja, especialmente após uma ligação telefônica vazada com o ex-líder cambojano Hun Sen.
Reação cambojana e retaliações
A Camboja respondeu às restrições tailandesas com medidas próprias, intensificando o conflito econômico. O governo de Hun Manet, atual primeiro-ministro, anunciou um boicote a 30% do fornecimento de combustíveis importados da Tailândia, além de suspender serviços de internet originados no país vizinho. Essas ações visam pressionar Bangkok, mas também geram desafios internos, já que a Camboja depende de importações tailandesas para parte de sua energia.
Além disso, a Camboja mantém sua posição de não recuar das áreas disputadas, como o território próximo ao templo de Preah Vihear. Em 9 de junho, o governo cambojano reiterou que suas tropas permanecem em pontos estratégicos, apesar de acordos para desescalada. A retórica de ambos os lados reflete um esforço para apaziguar bases nacionalistas, enquanto líderes militares negociam para evitar novos confrontos.
Histórico de disputas territoriais
A rivalidade entre Tailândia e Camboja tem raízes profundas, com disputas territoriais que remontam ao século XX. O templo de Preah Vihear, localizado na cordilheira Dangrek, é o epicentro de conflitos desde que a Corte Internacional de Justiça (CIJ) o concedeu à Camboja em 1962, decisão reafirmada em 2013. A Tailândia, no entanto, contesta áreas adjacentes, alegando soberania com base em mapas históricos.
Outros pontos de tensão incluem os templos de Ta Moan Thom, Ta Moan Toch e Ta Krabei, todos localizados em áreas de selva densa e com presença de minas terrestres. Esses locais, construídos durante o império Khmer no século XII, são reivindicados por ambos os países, com incidentes frequentes, como o confronto de fevereiro de 2025, quando soldados cambojanos cantaram seu hino nacional em um templo disputado, provocando reações tailandesas.
- Marcos históricos:
- 1962: CIJ concede Preah Vihear à Camboja.
- 2008: Templo é declarado patrimônio da UNESCO, reacendendo tensões.
- 2011: Confrontos esporádicos deixam mortos em ambos os lados.
- 2013: CIJ reafirma soberania cambojana sobre Preah Vihear.
Pressões políticas internas na Tailândia
A decisão de impor restrições fronteiriças também reflete o cenário político volátil da Tailândia. Paetongtarn Shinawatra, eleita em 2024, enfrenta críticas de grupos nacionalistas de direita, que há anos se opõem à sua família. A ligação telefônica vazada com Hun Sen, ex-primeiro-ministro cambojano e figura influente, gerou indignação. Na conversa, Paetongtarn referiu-se a um comandante tailandês como “oponente”, o que foi interpretado como uma postura conciliatória em relação à Camboja.
Ativistas planejam protestos em Bangkok, exigindo a renúncia da primeira-ministra. A pressão é intensificada pela proximidade de Paetongtarn com seu pai, Thaksin, cuja relação com Hun Sen é vista com desconfiança por setores conservadores. A líder tailandesa pediu desculpas pelo vazamento, mas o episódio continua a alimentar tensões internas.
Resposta internacional e esforços diplomáticos
A comunidade internacional acompanha a situação com preocupação, temendo uma escalada em uma região conhecida por sua estabilidade relativa. A Organização das Nações Unidas (ONU) e países vizinhos, como a Indonésia, ofereceram mediação, mas a Tailândia insiste em resolver a disputa bilateralmente. A Camboja, por sua vez, anunciou planos de levar o caso à CIJ, buscando um veredicto sobre as áreas disputadas, incluindo os templos de Ta Moan e Ta Krabei.
O ministro das Relações Exteriores tailandês, Maris Sangiampongsa, declarou que a iniciativa cambojana não afetará as negociações bilaterais, mas a decisão de Phnom Penh pode reacender ressentimentos nacionalistas em Bangkok. Reuniões entre autoridades dos dois países estão previstas para os próximos dias, com foco na reabertura de canais de diálogo.
Impacto econômico no turismo regional
O fechamento das fronteiras terrestres tem consequências diretas para o turismo, um dos pilares econômicos do sudeste asiático. A Tailândia recebeu cerca de 40 milhões de visitantes em 2024, muitos dos quais combinavam viagens à Camboja para visitar os templos de Angkor Wat. A suspensão das rotas terrestres força turistas a depender de voos, encarecendo os roteiros e reduzindo a acessibilidade.
Na Camboja, os cassinos da região fronteiriça, como os de Poipet, enfrentam queda abrupta no faturamento. Pequenos comerciantes, guias turísticos e motoristas de tuk-tuk relatam perdas significativas, enquanto hotéis em Siem Reap registram cancelamentos. A situação também afeta trabalhadores migrantes, que cruzam a fronteira diariamente para empregos sazonais.
Ameaças de cibercrime e operações de estafa
Outro aspecto da disputa envolve acusações de cibercrime. Paetongtarn anunciou que a Tailândia considera bloquear exportações que possam facilitar operações de estafa baseadas na Camboja. Um relatório da ONU, publicado em abril de 2025, identificou a Camboja como um centro de esquemas fraudulentos, incluindo golpes românticos e jogos ilegais online.
As autoridades tailandesas planejam coordenar com agências internacionais para combater essas atividades, mas a medida pode intensificar as tensões econômicas. A Camboja nega as acusações, afirmando que está comprometida em combater o crime organizado, mas a falta de cooperação bilateral dificulta os esforços conjuntos.
Perspectivas de desescalada militar
Apesar das tensões, ambos os países expressaram interesse em evitar novos confrontos armados. Em 29 de maio, os chefes militares da Tailândia e da Camboja acordaram uma retirada mútua das tropas da área disputada, após o confronto que matou o soldado cambojano. Reuniões subsequentes, como a de 8 de junho, reforçaram o compromisso com a desescalada, embora incidentes menores continuem a ocorrer.
O primeiro-ministro cambojano, Hun Manet, pediu calma e criticou a disseminação de informações não verificadas, que alimentam o sentimento nacionalista. A Tailândia, por sua vez, mantém patrulhas reforçadas, mas sinaliza disposição para negociações. A presença de minas terrestres e a complexidade da demarcação fronteiriça, no entanto, permanecem obstáculos para uma solução definitiva.
Papel dos templos na identidade nacional
Os templos disputados, como Preah Vihear e Ta Moan, transcendem a questão territorial, sendo símbolos culturais e religiosos para ambos os países. Na Camboja, eles representam o legado do império Khmer, enquanto na Tailândia são vistos como parte de sua herança histórica. Essa carga simbólica dificulta concessões, já que qualquer recuo é percebido como uma derrota nacional.
Eventos como o incidente de fevereiro, quando tropas cambojanas entoaram seu hino em um templo disputado, ilustram como gestos simbólicos podem escalar tensões. A preservação desses locais, muitos dos quais estão em áreas de selva remota, também é um desafio, com minas terrestres e falta de infraestrutura dificultando o acesso e a manutenção.







