Conitec veta Wegovy e Ozempic no SUS por alto custo de até R$ 6 bi em cinco anosPor Luís Henrique Costa
Atualizado 8 min de leitura
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A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) rejeitou, em 20 de agosto de 2025, a inclusão de medicamentos à base de semaglutida e liraglutida, como Wegovy, Ozempic e Saxenda, no Sistema Único de Saúde. A decisão, tomada após análises técnicas e consulta pública, foi motivada pelo alto custo estimado, que poderia alcançar R$ 6 bilhões em cinco anos. Os medicamentos, amplamente utilizados para tratar obesidade e diabetes tipo 2, seguirão restritos à rede particular, enquanto o SUS mantém a cirurgia bariátrica como principal alternativa para casos graves de obesidade. A medida impacta milhões de pacientes que buscavam acesso gratuito a esses tratamentos inovadores, conhecidos como “canetas emagrecedoras”.
A análise da Conitec envolveu dois pedidos específicos. O primeiro, da farmacêutica Novo Nordisk, propunha o uso de semaglutida para pacientes com obesidade grau II e III, acima de 45 anos, com histórico de doenças cardiovasculares. O segundo visava incorporar a liraglutida para indivíduos com obesidade e diabetes tipo 2. Ambos os medicamentos, já aprovados pela Anvisa, têm se destacado por sua eficácia, mas o custo elevado foi determinante para a negativa.
O impacto financeiro foi o principal entrave apontado. Relatórios do Ministério da Saúde indicaram que o fornecimento dessas medicações demandaria R$ 4,1 bilhões em cinco anos, podendo chegar a R$ 6 bilhões em cenários de uso contínuo. Além disso, a necessidade de acompanhamento médico e psicológico foi destacada como um desafio logístico para a rede pública.

Como funcionam as canetas emagrecedoras
Os medicamentos à base de semaglutida e liraglutida pertencem à classe dos análogos de GLP-1, que simulam um hormônio intestinal responsável por regular a glicose no sangue e promover saciedade. A semaglutida, presente em Ozempic e Wegovy, é administrada semanalmente e tem demonstrado maior eficácia na perda de peso, com estudos indicando redução média de 17,4% do peso corporal após 68 semanas. Já a liraglutida, encontrada em Saxenda e Victoza, exige aplicação diária e promove perda média de 8% em 56 semanas.
- Semaglutida: Aplicação semanal, indicada para obesidade e diabetes tipo 2, com maior perda de peso.
- Liraglutida: Uso diário, aprovada para obesidade a partir dos 12 anos e diabetes tipo 2.
- Mecanismo: Reduzem apetite, retardam o esvaziamento gástrico e estimulam a produção de insulina.
- Eficácia: Estudos mostram resultados significativos, mas com necessidade de uso contínuo.
A popularidade dessas medicações cresceu exponencialmente, com buscas por “canetas emagrecedoras” superando até mesmo “dieta para emagrecer” no Google em 2025. A chegada de versões nacionais, como o Olire da EMS, intensificou o interesse, mas o acesso permanece limitado ao setor privado.
Restrições orçamentárias do SUS
A decisão da Conitec reflete as dificuldades financeiras enfrentadas pelo SUS. O orçamento da saúde pública já é pressionado por demandas crescentes, como o aumento de casos de doenças crônicas. Incorporar medicamentos de alto custo, como as canetas emagrecedoras, exigiria realocação de recursos, comprometendo outras áreas essenciais. O relatório da comissão estimou que o impacto financeiro seria insustentável, mesmo com a produção nacional de medicamentos similares planejada para 2026.
O SUS já oferece a cirurgia bariátrica como alternativa para obesidade grave, realizada em pacientes com índice de massa corporal (IMC) acima de 40 ou entre 35 e 40 com comorbidades. Em 2024, cerca de 80 mil cirurgias foram realizadas no sistema público, mas a fila de espera pode chegar a anos em algumas regiões. A Conitec argumentou que essa opção, embora invasiva, é mais viável financeiramente do que os medicamentos de uso contínuo.
- Custo estimado: R$ 4,1 bilhões a R$ 6 bilhões em cinco anos para as canetas.
- Cirurgia bariátrica: Alternativa consolidada no SUS, mas com longas filas de espera.
- Demanda crescente: Obesidade afeta 30% dos adultos brasileiros, segundo dados do IBGE.
A produção local, como a parceria entre Fiocruz e EMS para fabricar liraglutida e semaglutida, poderia reduzir custos no futuro. Contudo, a transferência de tecnologia para Farmanguinhos, no Rio de Janeiro, ainda está em fase inicial, com previsão de conclusão após 2026.
Impacto para pacientes e médicos
A exclusão das canetas emagrecedoras do SUS limita o acesso de pacientes de baixa renda a tratamentos modernos. No setor privado, o custo de uma caneta de Saxenda ou Ozempic varia de R$ 600 a R$ 1.699 por mês, dependendo da dosagem. A chegada do Olire, com preços entre R$ 307,26 e R$ 760,61, trouxe alívio, mas ainda é inacessível para a maioria. A liraglutida nacional, produzida pela EMS, custa cerca de 20% menos que o Saxenda, mas a semaglutida genérica só estará disponível após a expiração da patente em março de 2026.
Médicos destacam a importância de terapias complementares. Além da medicação, pacientes precisam de acompanhamento nutricional e psicológico para resultados sustentáveis. A Conitec apontou que a falta de estrutura para esse suporte em larga escala no SUS também pesou na decisão.
- Custo mensal: R$ 600 a R$ 1.699 para Saxenda, Ozempic ou Wegovy no setor privado.
- Olire e Lirux: Preços a partir de R$ 307,26, mas ainda restritos à rede particular.
- Acompanhamento: Necessidade de suporte psicológico e nutricional no tratamento.
A decisão gerou reações mistas. Enquanto alguns especialistas defendem a priorização de recursos para outras áreas da saúde, outros lamentam a exclusão de medicamentos que poderiam reduzir complicações associadas à obesidade, como infartos e derrames.
Produção nacional e perspectivas futuras
A EMS lançou, em agosto de 2025, as primeiras canetas emagrecedoras 100% nacionais, Olire e Lirux, baseadas em liraglutida. Produzidas em Hortolândia (SP), elas atendem à crescente demanda por tratamentos de obesidade e diabetes tipo 2. A empresa planeja fabricar 500 mil unidades até agosto de 2026 e exportar para mercados como os Estados Unidos. A parceria com a Fiocruz visa transferir a tecnologia para produção pública, o que poderia facilitar a inclusão no SUS no futuro.
A semaglutida, por sua vez, segue protegida pela patente da Novo Nordisk até março de 2026. Empresas como Hypera, Biomm e Cimed já anunciaram planos para lançar versões genéricas assim que a exclusividade expirar, o que pode reduzir preços em até 30%. A produção nacional é vista como um passo para democratizar o acesso, mas a decisão da Conitec adia esse impacto para o setor público.
- Produção inicial: 100 mil canetas de Olire e 50 mil de Lirux em 2025.
- Exportação: EMS planeja alcançar US$ 1 bilhão nos EUA em dois anos.
- Semaglutida genérica: Prevista para o segundo semestre de 2026.
- Fiocruz: Transferência de tecnologia para produção pública em andamento.
A Anvisa reforçou o controle sobre esses medicamentos, exigindo retenção de receita desde junho de 2025, devido ao uso indiscriminado e eventos adversos. A medida visa garantir prescrição responsável, especialmente para uso off-label.
Debate sobre acesso e saúde pública
A obesidade é um problema crescente no Brasil, afetando cerca de 30% da população adulta, segundo o IBGE. As canetas emagrecedoras representam uma revolução no tratamento, mas o alto custo e a necessidade de uso contínuo desafiam sua viabilização no SUS. A decisão da Conitec reflete a tensão entre inovação médica e sustentabilidade financeira do sistema público.
Organizações de pacientes defendem a inclusão, argumentando que os medicamentos poderiam reduzir custos indiretos, como internações por complicações da obesidade. Por outro lado, gestores apontam a necessidade de equilibrar o orçamento da saúde, que também cobre tratamentos para câncer, doenças raras e outras condições graves.
- Prevalência: 30% dos brasileiros adultos são obesos, segundo o IBGE.
- Custos indiretos: Complicações da obesidade geram gastos com internações.
- Equilíbrio orçamentário: SUS prioriza tratamentos de maior alcance populacional.
A produção nacional e a expiração da patente da semaglutida em 2026 abrem perspectivas para redução de custos. Até lá, o acesso às canetas emagrecedoras seguirá restrito à rede privada, enquanto o SUS foca em alternativas como a cirurgia bariátrica e programas de prevenção.






