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Mix Vale

Complicações de saúde tiraram a vida de Guilherme Reis nesta quarta-feira, em Brasília. O ator, diretor e ex-secretário de Cultura do Distrito Federal completava 70 anos e estava internado há dias. Sua trajetória no teatro e na produção cultural marcou gerações na capital.

Nascido em Goiânia em 1954, Reis chegou à cidade aos seis anos e encontrou nos palcos sua vocação aos 18. Peças como Os Saltimbancos e A Vida é Sonho integraram seus primeiros passos profissionais. A paixão surgiu em uma sala escura de escola, onde o ritual das luzes e das vozes o cativou imediatamente.

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  • Início nos palcos com montagens clássicas e contemporâneas;
  • Colaborações com diretores renomados como Antônio Abujamra;
  • Transição para direção em 1980 com A Revolução dos Bichos;
  • Produções infantis como Chapeuzinho Amarelo em 1981.

Esses marcos iniciais revelam um artista versátil, que equilibrou atuação e criação desde jovem.

A cena teatral brasiliense perde um de seus construtores essenciais. Reis dirigiu espetáculos que viajaram internacionalmente, como Reta do Fim do Fim, premiado em Cuba em 1997. Sua visão integrou textos argentinos em uma trilogia com o Grupo Cena entre 2005 e 2008.

Trajetória inicial nos palcos de Brasília

Estabelecido em Brasília desde 1960, Guilherme Reis iniciou sua jornada artística em 1972. A cidade, ainda em formação, oferecia poucos espaços para o teatro experimental. Ele atuou em montagens que misturavam clássico e moderno, como O Noviço e Pequenos Burgueses. Essas experiências forjaram sua abordagem prática, sempre atenta às demandas locais.

Aos 26 anos, assumiu a direção pela primeira vez com A Revolução dos Bichos, adaptação de George Orwell. O espetáculo ganhou repercussão por sua crítica social afiada e uso inovador de cenários minimalistas. Em seguida, veio Chapeuzinho Amarelo em 1981, voltado para o público infantil, que consolidou sua habilidade em narrativas acessíveis. Pedro e o Lobo, de 1983, seguiu essa linha, incorporando música ao vivo para enriquecer a encenação.

Reis trabalhou com Hugo Rodas desde o começo, formando uma parceria fraterna. Rodas descreveu-o como uma escola viva, capaz de ensinar pela ação. Essa colaboração resultou em mais de uma década de projetos conjuntos, incluindo O Exercício e Um Grito Parado no Ar. Cada peça reforçava o compromisso de Reis com o teatro como ferramenta de reflexão coletiva.

  • Colaborações iniciais com Zeno Wilde e B. de Paiva;
  • Foco em adaptações literárias para públicos variados;
  • Ênfase em produção independente para superar limitações orçamentárias;
  • Integração de atores locais em elencos diversificados.

Esses elementos destacam como Reis transformou desafios em oportunidades criativas durante os anos 1970 e 1980.

Passos decisivos na direção teatral

A década de 1990 marcou a maturidade de Guilherme Reis como diretor. Movimentos do Desejo, em 1998, explorou temas de identidade com coreografias integradas ao texto. Reveillon, de 1999, trouxe um tom festivo, mas crítico, sobre transições sociais. Essas obras viajaram por festivais nacionais, ampliando o alcance brasiliense.

No cinema, Reis estreou em 1982 com O Sonho Não Acabou, de Sérgio Rezende. O filme contava com Miguel Falabella e Daniel Dantas, e sua atuação secundária ganhou elogios pela sutileza. Anos depois, A República dos Anjos em 1991 o levou a papéis mais complexos, lidando com dilemas éticos em cenários urbanos. O Cego que Gritava Luz, de 1996, destacou sua capacidade de transmitir emoção através de expressões faciais mínimas.

O Tronco, em 1999, representou um ponto alto, com críticas que o compararam a veteranos do cinema nacional. Sagrado Segredo, de 2009, foi sua última aparição nas telas, em um thriller psicológico que demandou imersão total. Em 2016, dirigiu Dentro da Caixinha, musical que uniu teatro e cinema em uma narrativa sobre memórias familiares.

Reis equilibrava essas frentes com produção cultural. Antes do Cena Contemporânea, organizou o Festival Latino-americano de Cultura na UnB e o Temporada Nacional, trazendo Fernanda Montenegro e Antunes Filho à capital. Esses eventos preencheram lacunas, conectando Brasília ao circuito nacional.

  • Prêmios internacionais por Reta do Fim do Fim em Cuba;
  • Integração de música e dança em espetáculos como Pedro e o Lobo;
  • Participações em longas com diretores como Sérgio Rezende;
  • Criação de trilogias temáticas com autores estrangeiros.

Sua multifacetada carreira ilustra um profissional que navegava entre artes cênicas sem fronteiras rígidas.

Criação e expansão do Cena Contemporânea

Guilherme Reis fundou o Cena Contemporânea em 1995, respondendo à isolamento cultural de Brasília. O festival surgiu da percepção de que faltava um produtor dedicado para atrair grupos internacionais. Na primeira edição, espetáculos de Europa e América Latina lotaram teatros locais, provando o apetite público por diversidade.

Ao longo de 26 edições, Reis curou programações que misturavam contemporâneo e experimental. A 26ª, encerrada em agosto de 2025, incluiu Dentro da Cabeça de Alguém, com Renata Sorrah, e peças argentinas como Soré. Grupos paulistas como Cia Graxa apresentaram Cabo Enrolado, enquanto o Levante brasiliense exibiu Sombrio. Esses espetáculos abordaram temas como culpa e identidade, com plateias que superaram 20 mil espectadores anuais.

O evento se tornou referência, com mais de 500 montagens apresentadas até 2025. Reis enfatizava a acessibilidade, com ingressos gratuitos em sessões periféricas. Sua curadoria priorizava vozes marginais, incluindo coletivos indígenas e queer. O Espaço Cena, anexo à sua produtora, serviu como hub para ensaios, com capacidade para 70 pessoas.

  • Edições iniciais com foco em intercâmbio latino-americano;
  • Crescimento para 30 espetáculos por ano em múltiplos venues;
  • Inclusão de performances interativas e imersivas;
  • Parcerias com instituições como UnB para residências artísticas;
  • Impacto em formação de plateia jovem através de oficinas gratuitas.

Essas estratégias posicionaram o Cena como pilar da agenda cultural da capital.

Gestão cultural durante mandato no GDF

Em 2015, Guilherme Reis assumiu a Secretaria de Cultura no governo Rodrigo Rollemberg. O cargo permitiu escalar suas ideias para políticas públicas. A principal iniciativa foi a Lei Orgânica da Cultura, sancionada em 2016, que instituiu o Sistema de Arte e Cultura do DF. Essa estrutura uniu órgãos públicos para formular e financiar ações, com editais anuais que distribuíram R$ 50 milhões em incentivos até 2018.

Reis coordenou reformas no Espaço Cultural Renato Russo, modernizando auditórios e acústica para 1.500 assentos. O Centro de Dança de Brasília ganhou estúdios ampliados, beneficiando 500 bailarinos por ano. Essas obras revitalizaram espaços ociosos, aumentando ocupação em 40% durante seu mandato.

Ele também ampliou o Plano Nacional de Cultura local, integrando metas federais com demandas regionais. Programas como o Cultura Viva nas Comunidades levaram espetáculos a 15 regiões administrativas, alcançando 100 mil pessoas em três anos. Reis priorizava transparência, com relatórios públicos sobre alocações orçamentárias.

  • Criação de fundos específicos para teatro e cinema independentes;
  • Reformas que preservaram patrimônio arquitetônico modernista;
  • Expansão de bibliotecas comunitárias com acervo de 10 mil títulos;
  • Diálogos com artistas para co-criação de editais.

Sua gestão equilibrou inovação e sustentabilidade, fortalecendo a rede cultural distrital.

Vozes do meio artístico ecoam homenagens

Claudio Abrantes, atual secretário de Cultura, encontrou Reis recentemente para entregar a maior honraria do DF. A conversa versou sobre projetos futuros, revelando o otimismo persistente do artista. Abrantes destacou o altruísmo de Reis, que priorizava simplicidade em meio a demandas administrativas.

Rodrigo Rollemberg, ex-governador, recordou a energia contagiante de Reis. Chamava-o de Guilla em encontros casuais, celebrando sua versatilidade como amigo e profissional. Rollemberg mencionou a saudade de colaborações recentes, enfatizando o vazio na cena teatral local.

Bartolomeu Rodrigues, ex-secretário, elogiou a mente aberta de Reis. Manteram contato para políticas de fomento ao teatro, impressionados pela capacidade produtiva dele. Outros artistas, como atores formados em suas oficinas, creditam a ele a construção de suas carreiras.

  • Homenagens de diretores como Hugo Rodas pela parceria duradoura;
  • Depoimentos de alunos do Espaço Cena sobre formação pessoal;
  • Reconhecimentos internacionais por curadoria inovadora no Cena;
  • Mensagens de familiares, incluindo esposa Carmen Moretzsohn, sobre apoio mútuo.

Essas vozes tecem um retrato de um homem que unia arte e comunidade.

Influência duradoura em produções independentes

Guilherme Reis fundou a Cena Promoções Culturais, escritório que executou dezenas de eventos. O Planeta Circo, por exemplo, trouxe circos internacionais em 2000, misturando tradição e contemporaneidade. Essa iniciativa atraiu 15 mil visitantes em edições anuais, diversificando a oferta cultural.

Como roteirista, contribuiu para adaptações como A Hora do Pesadelinho, de 1991, que usou marionetes para explorar medos infantis. Sua escrita priorizava diálogos fluidos, influenciados por autores como Calderón de la Barca. No cinema, Sagrado Segredo demandou pesquisa profunda sobre rituais urbanos.

Reis era irmão de Luis Antônio Reis, presidente da Caesb, e Luis André Reis, comodoro do Iate Clube de Brasília. Essa rede familiar contrastava com sua dedicação pública, sempre ancorada em Brasília. Sua esposa, atriz Carmen Moretzsohn, compartilhou palcos em produções como Movimentos do Desejo.

O Espaço Cena, com 70 lugares, serviu como laboratório para emergentes. Ali, ensaiaram mais de 100 espetáculos, muitos estreados no Cena Contemporânea. Reis incentivava residências, cobrindo custos para grupos periféricos.

  • Execução de festivais como Temporada Nacional com grandes nomes;
  • Apoio a coletivos como Levante em montagens locais;
  • Integração de cinema e teatro em híbridos como Dentro da Caixinha;
  • Fomento a roteiros originais para cinema nacional;
  • Rede de contatos que facilitou turnês internacionais.

Essas contribuições sustentam a vitalidade da produção independente na capital.

Presença marcante em adaptações cinematográficas

O cinema ocupou espaço significativo na carreira de Guilherme Reis. O Sonho Não Acabou, de 1982, foi seu batismo nas telas, em um elenco estelar dirigido por Rezende. O papel explorava tensões políticas da ditadura, com cenas que demandavam intensidade emocional contida.

Em A República dos Anjos, de 1991, interpretou um burocrata conflituoso, ganhando prêmios em festivais regionais. O filme circulou em 50 salas pelo país, ampliando sua visibilidade. O Cego que Gritava Luz, de 1996, trouxe um personagem introspectivo, baseado em relatos reais de artistas cegos.

O Tronco, de 1999, marcou sua fase madura, com atuações que mesclavam humor e drama. Sagrado Segredo, em 2009, foi um thriller que o levou a locações remotas no Nordeste. Como diretor, Dentro da Caixinha uniu atores de teatro em um formato híbrido, exibido em 20 festivais.

Reis via o cinema como extensão do palco, adaptando técnicas teatrais para câmeras. Seus papéis somaram 150 minutos de tela em longas, influenciando atores mais jovens. Ele defendia coproduções DF-RJ para democratizar o acesso.

  • Colaborações com cineastas como Sérgio Rezende em narrativas históricas;
  • Uso de métodos stanislavskianos em cenas intimistas;
  • Participação em curtas experimentais nos anos 1980;
  • Direção de musicais que migraram para plataformas digitais.

Sua ponte entre teatro e cinema enriqueceu ambos os campos.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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