Aumento de incêndios por baterias de lítio em voos alerta autoridades e reforça regras de transportePor Carolina Costa
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A segurança na aviação civil enfrenta um desafio crescente relacionado ao transporte de dispositivos eletrônicos portáteis, especificamente os carregadores externos conhecidos como powerbanks. O registro de incidentes envolvendo fumaça, superaquecimento e fogo a bordo de aeronaves comerciais tem se intensificado, exigindo respostas rápidas de agências reguladoras e companhias aéreas. O foco das preocupações recai sobre a instabilidade química das baterias de lítio, que podem entrar em combustão espontânea sob determinadas condições de pressão e temperatura, colocando em risco passageiros e tripulações durante as operações aéreas.
Casos recentes e impacto nas operações globais
O cenário atual é marcado por uma série de eventos graves que ilustram a magnitude do problema enfrentado pelo setor aéreo. Um exemplo crítico ocorreu com a Air Busan, onde um incêndio originado em um carregador portátil resultou na destruição total de uma aeronave que ainda estava em solo. A evacuação de emergência envolveu cerca de 170 pessoas, entre passageiros e tripulantes, evitando uma tragédia maior, embora ferimentos leves tenham sido reportados durante o processo de saída da aeronave.
Em outubro de 2025, um voo da Air China que cobria a rota entre Hangzhou e Seul precisou desviar para Xangai após a explosão de um dispositivo na cabine. A interrupção do trajeto demonstrou como um único equipamento defeituoso pode alterar toda a logística de voo e gerar pânico a bordo. Outro episódio significativo envolveu a Scandinavian Airlines, em Oslo, onde o embarque foi suspenso devido à fumaça tóxica emanada de uma mala de mão, levando oito passageiros a necessitarem de atendimento médico hospitalar.
O Brasil também integra as estatísticas recentes de incidentes com baterias de lítio. Uma aeronave da Latam precisou realizar um pouso não programado em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, após um powerbank entrar em combustão durante um voo doméstico. A atuação rápida da tripulação, utilizando extintores apropriados para esse tipo de material, foi crucial para controlar as chamas. Além disso, rotas internacionais partindo de São Paulo, como um voo com destino a Amsterdã, registraram ocorrências similares, com fumaça densa saindo de compartimentos superiores de bagagem.
O fenômeno da fuga térmica e suas causas
A raiz técnica desses incidentes é um processo químico denominado fuga térmica. Esse fenômeno ocorre quando a temperatura interna da bateria de lítio sobe de maneira descontrolada, desencadeando uma reação em cadeia que frequentemente resulta em fogo ou explosão. Fatores como defeitos de fabricação, danos físicos por quedas ou compressão e sobrecarga elétrica são gatilhos comuns para esse processo. O ambiente pressurizado da cabine de um avião pode agravar comportamentos instáveis de baterias que já apresentam avarias.
A qualidade dos componentes utilizados na fabricação dos dispositivos é um ponto central na análise de riscos. O mercado global é inundado por modelos de baixo custo que utilizam células de energia de procedência duvidosa, aumentando exponencialmente a probabilidade de falhas. Quando esses dispositivos são armazenados em locais de difícil acesso dentro da aeronave, como vãos entre assentos ou bagageiros lotados, a detecção inicial de fumaça pela tripulação torna-se mais lenta, dificultando a contenção imediata do fogo.
Estatísticas e monitoramento internacional
Dados compilados pela Federal Aviation Administration (FAA), autoridade aeronáutica dos Estados Unidos, apontam para uma tendência de alta nas ocorrências. O ano de 2025 encerrou com mais de 80 registros de incidentes envolvendo baterias em aeronaves, um número que representa praticamente o dobro do verificado no início da década. Apenas no primeiro semestre do ano passado, foram contabilizados mais de 38 casos de superaquecimento extremo ou fogo.
O padrão de crescimento não é isolado e reflete uma realidade global acompanhada por agências internacionais. Relatórios de segurança indicam que a frequência de incidentes saltou de menos de um caso semanal para uma média de três em um curto período. Esse aumento está diretamente atrelado à onipresença de dispositivos eletrônicos entre os viajantes, que transportam cada vez mais equipamentos dependentes de energia extra durante seus deslocamentos.
Regulamentação e limites para transporte
Para mitigar os riscos, órgãos como a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e a Associação Internacional de Transportes Aéreos (Iata) mantêm regras estritas sobre o transporte desses itens. A determinação principal é que powerbanks e baterias sobressalentes devem ser transportados exclusivamente na bagagem de mão, sendo terminantemente proibido o despacho desses itens no porão da aeronave, onde um incêndio poderia não ser detectado a tempo.
As normas técnicas estabelecem limites de potência para o embarque. Dispositivos com capacidade de até 100 Wh, o que equivale a aproximadamente 27.000 mAh, são permitidos sem necessidade de autorização especial. Para equipamentos que variam entre 100 Wh e 160 Wh, o passageiro deve solicitar aprovação prévia da companhia aérea. Qualquer bateria que ultrapasse a marca de 160 Wh tem seu transporte proibido em voos comerciais, devido ao alto potencial energético e risco de explosão.
Prevenção e responsabilidade do passageiro
A segurança a bordo depende também da conscientização dos usuários quanto à qualidade e ao manuseio dos equipamentos. Especialistas recomendam o uso de marcas reconhecidas que submetem seus produtos a testes rigorosos de segurança e incluem mecanismos de proteção contra curto-circuito. É fundamental que o passageiro verifique se a capacidade em watt-hora está visível no corpo do produto, pois a ausência dessa informação pode levar ao confisco do item na inspeção de segurança.
Durante o voo, a recomendação é manter os carregadores em locais de fácil acesso e visualização, evitando deixá-los soltos em bolsões onde possam ser esmagados pelo mecanismo de reclinação das poltronas. Algumas operadoras aéreas já instruem os passageiros a manterem os dispositivos desligados durante todo o trajeto como medida preventiva adicional. A indústria segue investindo em novas tecnologias de baterias com sensores de anomalia, visando reduzir as ocorrências no médio prazo e garantir a integridade das viagens aéreas.








