Pesquisa japonesa detecta ausência de amônia em cometa interestelar e aponta origem exótica

3I/Atlas

3I/Atlas - Reprodução/Nasa

Novos dados astronômicos divulgados pela Universidade de Kyoto Sangyo trouxeram à tona características singulares sobre a composição química do cometa interestelar 3I/ATLAS. As observações realizadas no Japão indicam uma deficiência significativa de amônia na estrutura do objeto, diferenciando-o da maioria dos corpos celestes observados no Sistema Solar.

As análises foram conduzidas no Observatório Mitayama e focaram na espectroscopia do cometa para identificar seus componentes voláteis. Diferente dos cometas locais, que geralmente apresentam abundância de compostos nitrogenados, o visitante interestelar mostrou um padrão químico inesperado para os cientistas.

Cometa 3I/ATLAS – Telescópio Espacial Hubble/NASA,

Durante o monitoramento, os instrumentos detectaram a presença de diversas moléculas, mas a ausência de um marcador específico chamou a atenção dos pesquisadores:

– Emissões confirmadas de moléculas de carbono diatômico (C₂);

– Presença de carbono triatômico (C₃) e radical cianeto (CN);

– Detecção de oxigênio atômico na coma do cometa;

– Ausência notável de emissões de NH₂, indicativo da falta de amônia (NH₃).

Essa configuração química sugere que o 3I/ATLAS se formou em um ambiente estelar com condições de temperatura e pressão distintas das que deram origem ao nosso sistema planetário. A ausência de amônia no gelo do cometa levanta questões sobre a diversidade dos discos protoplanetários na Via Láctea e fornece pistas valiosas sobre a distribuição de elementos voláteis em outras regiões da galáxia.

Detalhes da trajetória e confirmação interestelar

O objeto foi identificado inicialmente em julho de 2025, despertando imediato interesse da comunidade astronômica global devido à sua órbita hiperbólica. Ele atingiu o periélio, ponto de maior aproximação com o Sol, no dia 29 de outubro do mesmo ano, momento em que o aquecimento solar maximizou a liberação de gases e poeira, facilitando a análise espectral.

Após a passagem próxima à estrela, o corpo celeste seguiu uma trajetória de escape, confirmando que não está preso gravitacionalmente ao Sol e que deixará o sistema permanentemente. A natureza interestelar do objeto foi corroborada por observações complementares feitas pelo telescópio espacial Hubble, da NASA, no final de novembro de 2025, consolidando o 3I/ATLAS como o terceiro visitante confirmado dessa categoria.

A raridade desses eventos torna cada descoberta crucial para a compreensão da dinâmica galáctica. Antes do 3I/ATLAS, apenas o 1I/ʻOumuamua, em 2017, e o 2I/Borisov, em 2019, haviam sido catalogados como objetos provenientes de outros sistemas estelares, oferecendo oportunidades limitadas, porém ricas, de estudo.

Metodologia aplicada no Observatório Mitayama

Para desvendar a composição do cometa, a equipe de pesquisadores utilizou o telescópio de 1,3 metro do Observatório Mitayama ao longo de três noites entre novembro e dezembro. O equipamento principal foi o espectrógrafo LOSA/F2, configurado para capturar dados em luz visível com baixa dispersão, técnica ideal para identificar as assinaturas de gases em objetos em movimento rápido.

A resolução espectral obtida permitiu a decomposição da luz em detalhes suficientes para isolar as linhas de emissão dos elementos químicos. Embora o espectro geral apresentasse semelhanças com cometas solares em certos comprimentos de onda, a análise detalhada revelou a discrepância fundamental na região onde a amônia deveria aparecer.

A molécula NH₂ é normalmente observada como um subproduto da fotodissociação da amônia pela luz solar. Sua inexistência nos dados coletados é a prova mais forte de que o gelo do núcleo do 3I/ATLAS é pobre em nitrogênio volátil, uma característica que desafia os modelos padrões baseados apenas na química do Sistema Solar.

Esses dados são complementados por informações de outros observatórios e instrumentos espaciais, como o Telescópio Espacial James Webb (JWST), que também têm reportado variações na composição de gases em corpos celestes distantes, reforçando a validade das observações terrestres feitas no Japão.

Relevância para a formação planetária

Os cometas são considerados fósseis da formação estelar, preservando em seu gelo as condições químicas primordiais da nuvem de gás e poeira que originou seus respectivos sistemas. O Sistema Solar formou-se há aproximadamente 4,6 bilhões de anos, e seus cometas refletem a química daquela época específica.

Ao analisar um objeto como o 3I/ATLAS, os cientistas têm acesso direto a materiais formados em outro local e tempo, possivelmente em torno de uma estrela com metalicidade ou histórico de radiação diferente. A presença de elementos baseados em carbono e oxigênio, contrastada com a falta de amônia, indica que a “receita” para a formação de sistemas planetários não é universal.

Equipe responsável e publicações

O estudo contou com a participação ativa de estudantes e especialistas renomados. Yuki Tsujimoto, aluno do primeiro ano de pós-graduação em Ciências Naturais, desempenhou um papel central na aquisição e processamento dos dados, demonstrando a integração entre ensino e pesquisa de ponta na universidade.

A liderança do projeto ficou a cargo de Hideyo Kawabe, autor principal do artigo científico, com a colaboração de pesquisadores como Yoshiharu Niinaka, Hitomi Kobayashi e Takafumi Otsubo. Os resultados detalhados foram aceitos para publicação na revista especializada The Astrophysical Journal Letters, garantindo a revisão por pares e a disseminação global dos achados.

Junichi Watanabe, especialista em cometas e nomeado para assumir a direção do Instituto de Ciência Espacial Mitayama em abril de 2026, ressaltou a importância dessas descobertas para posicionar o Sistema Solar em um contexto cósmico mais amplo. O financiamento da pesquisa foi viabilizado por grants governamentais destinados ao avanço da astronomia.

Carolina Costa: Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração