Uma pesquisa coordenada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, constatou que ao menos 30% dos municípios do país não contam com plano de contingência contra desastres climáticos. Essas cidades não têm um plano para enfrentar inundações, secas severas ou tempestades. Outros 37% das prefeituras também não possuem sistema próprio de alerta para avisar a população sobre eventos extremos.
Os dados foram divulgados em 20 de outubro de 2026 e fazem parte de um artigo publicado em 4 de setembro de 2026 no periódico científico International Journal of Disaster Risk Science. Para o sociólogo Victor Marchezini, pesquisador do Cemaden e coordenador do estudo, a falta de planejamento local compromete diretamente a segurança de quem vive nas áreas atingidas. “Às vezes, as pessoas recebem um alerta emitido pelo estado para procurar um lugar seguro e não sabem qual é.”
Como o Cemaden chegou aos números das prefeituras
Para mapear a estrutura das prefeituras, os pesquisadores aplicaram um questionário nacional. Ele foi respondido em 2025 por 2.289 dos 5.570 municípios do país, o que equivale a 41% do total. O estudo usou a metodologia inédita Capacidade de Implementação de Sistemas Locais de Alerta Precoce, conhecida pela sigla ICLEWS em inglês, desenvolvida no projeto Capacidades Organizacionais de Preparação para Eventos Extremos (COPE). O projeto tem financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O modelo segue diretrizes da iniciativa Early Warnings for All (Alertas Precoces para Todos, ou EW4All), criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2022. A meta da iniciativa é proteger a população mundial com sistemas nacionais de alerta até o fim de 2027, e 119 países, ou 60% do total, já aderiram.
A falta de planejamento local ocorre em um momento de alerta climático. As projeções para o fenômeno El Niño 2026-2027 indicam aumento superior a 3 °C na temperatura do oceano Pacífico durante o período de pico. Esse aquecimento pode provocar chuvas intensas na região Sul e secas extremas no Norte e no Nordeste, além de altas temperaturas em diversos estados. Mesmo assim, menos de 8% das cidades pesquisadas têm planos de contingência para ondas de calor. Entre os municípios litorâneos avaliados, somente 25% possuem planos específicos para erosão costeira, e 61% mantêm coordenação intermunicipal.
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Defesas Civis com equipes pequenas e mapas de risco incompletos
A Lei Nacional de Proteção e Defesa Civil, em vigor desde 2012, determina que as prefeituras elaborem o mapeamento das zonas sujeitas a desastres. O levantamento, porém, encontrou falhas tanto na aplicação dessa norma quanto na estrutura de atendimento às comunidades. Na prática, a responsabilidade municipal esbarra em equipes reduzidas, com pouca experiência e alta troca de profissionais. Os principais pontos registrados entre as cidades que responderam ao questionário estão listados a seguir.
- Mapas de risco: 25% das cidades pesquisadas não dispõem do instrumento, enquanto 57% afirmam utilizá-lo na gestão.
- Cartas geotécnicas de aptidão à urbanização: usadas por apenas 14% dos municípios, segundo o levantamento.
- Agentes de Defesa Civil: pouco mais de 13,5 mil nos municípios participantes, sendo 22% dos órgãos com um único profissional, 16% com dois e 35% com de três a cinco.
- Experiência: 25% dos agentes que responderam têm menos de um ano de atuação na área.
- Apoio às famílias: quase 25% das prefeituras não adotam medidas de suporte a famílias em áreas de risco, e 6,4% registram participação frequente dos moradores na prevenção.
Ao comentar o quadro, Marchezini afirmou que as equipes acumulam tarefas além do próprio tamanho. “Temos observado, em alguns casos, que as equipes são pequenas, às vezes com uma única pessoa, sem experiência e com alta rotatividade.” Para o pesquisador, a rotina exige atualizar o mapa de risco, preparar alertas e envolver a população, sem que a preparação aconteça antes das emergências. “Infelizmente, o que ainda impera no Brasil é a cultura do improviso. Quando há uma emergência, um desastre, todo mundo se mobiliza.”
Prefeituras afirmam ter capacidade, mas poucas usam alerta formal
A pesquisa também comparou a percepção dos gestores com os recursos disponíveis nas prefeituras. Das administrações municipais, 69% classificam sua capacidade de emitir avisos aos moradores como alta ou média. Somente 32%, porém, usam um sistema formal de alerta. O restante recorre a grupos de mensagens, redes sociais ou rádio, o que indica uma comunicação mais informal com a população.
O governo brasileiro disponibiliza a Interface de Divulgação de Alertas Públicos (Idap), plataforma oficial que permite às defesas civis estaduais e municipais cadastradas enviar notificações por SMS e TV por assinatura. A ferramenta passou por reformulações em 2026 para reforçar a segurança, depois de sofrer um ataque hacker. Ou seja, o canal existe e está à disposição das cidades cadastradas, mas a maior parte das prefeituras ainda não o utiliza como sistema formal de alerta.
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O impacto da falta de prevenção aparece nos números do Atlas Digital de Desastres no Brasil, que contabilizou cerca de 8,9 mil ocorrências entre 2024 e 2025. Desse total, 2,7 mil foram registros de estiagens ou secas e 2,4 mil de chuvas intensas. No período, os eventos climáticos atingiram pelo menos 24,7 milhões de pessoas e deixaram mais de 1,5 milhão de desalojados ou desabrigados. Ao analisar o cenário, o coordenador do estudo declarou: “Temos Defesas Civis precárias e população que não participa das ações. Isso é preocupante. Que lições temos aprendido com os desastres?”
Além de Marchezini e de Adriano Mota Ferreira, também do Cemaden, assinam o artigo os pesquisadores Paula Sayeko Souza Oda, Karolina Gameiro Cota Dias e Monique Ribeiro Polera Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). André Luiz Martins Cotting e Caroline Martins Coura são da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e Murilo Noli da Fonseca completa a autoria. Na próxima etapa, a equipe vai separar os dados por região e porte populacional dos municípios. Depois, pretende promover rodadas de trabalho com as prefeituras e reaplicar a metodologia nos próximos anos para medir o avanço das ações de prevenção.
