Cientistas confirmam atmosfera em corpo celeste 2002 XV93 além de Netuno

Planeta Netuno

Planeta Netuno - 24K-Production/ Shutterstock.com

Uma equipe internacional de astrônomos profissionais e observadores amadores confirmou a existência de uma atmosfera extremamente fina ao redor do objeto transnetuniano 2002 XV93. A descoberta, publicada na revista Nature Astronomy, marca a primeira vez que uma atmosfera é confirmada em um corpo celeste desse tipo além de Plutão, revolucionando o entendimento sobre esses mundos distantes.

O objeto, localizado a aproximadamente 37 unidades astronômicas da Terra, cerca de 5,5 bilhões de quilômetros, desafiou as expectativas científicas. Com diâmetro de cerca de 500 quilômetros, o corpo celeste possui gravidade superficial tão fraca que teoricamente não conseguiria manter uma atmosfera por longos períodos.

Método revolucionário detecta mudanças imperceptíveis

A equipe liderada pelo professor Wataru Arimatsu do Observatório Astronômico Nacional do Japão utilizou o fenômeno de ocultação estelar para fazer a descoberta. Durante essa ocultação, em 10 de janeiro de 2024, o objeto transnetuniano passou na frente de uma estrela distante, ocultando temporariamente sua luz. Observadores em três prefeituras japonesas , Kyoto, Nagano e Fukushima, capturaram simultaneamente o evento usando telescópios profissionais e equipamentos amadores.

O instrumento Tomo-e Gozen, montado no telescópio Schmidt de 105 centímetros do Observatório Kiso da Universidade de Tóquio, registrou dados cruciais. A mudança gradual no brilho da estrela revelou algo extraordinário: a luz diminuiu progressivamente e depois se recuperou gradualmente. Esse padrão só pode ocorrer quando a luz é refratada por uma atmosfera. Sem atmosfera, a estrela desapareceria e reapareceria instantaneamente.

Características da atmosfera descoberta

As análises detalhadas dos dados confirmaram que 2002 XV93 possui uma atmosfera extremamente tênue com pressão entre 100 e 200 nanobars. Para efeito de comparação, essa pressão corresponde a apenas um dez-milionésimo da pressão atmosférica na superfície da Terra.

A descoberta surpreendeu a comunidade científica porque:

  • Nenhum outro objeto transnetuniano além de Plutão havia confirmado atmosfera anteriormente
  • Corpos celestes muito maiores, como Éris e Makemake, com diâmetros entre 1000 e 2000 quilômetros, não apresentavam evidências claras de atmosfera
  • A teoria previa impossibilidade de retenção de gases em corpos tão pequenos e distantes
  • A pressão extremamente baixa sugere atmosfera instável e de curta duração
Cientistas, astronautas – DC Studio/ Shutterstock.com

Possíveis origens da atmosfera detectada

Cientistas apontam duas hipóteses principais para explicar como 2002 XV93 adquiriu sua atmosfera. A primeira sugere liberação de gases do interior do corpo celeste relacionada a substâncias voláteis, equivalente a uma atividade vulcânica de temperatura muito baixa. A segunda possibilidade é uma colisão relativamente recente com um pequeno corpo celeste que teria liberado material volátil para o espaço circundante.

Ambas as explicações indicam que objetos transnetunianos não são mundos completamente inativos, como se acreditava anteriormente. O impacto dessa descoberta vai além dos números: redesenha a compreensão científica sobre dinâmicas geológicas e atmosféricas em regiões extremas do sistema solar.

Colaboração entre profissionais e amadores

O sucesso da observação dependeu crucialmente da colaboração entre astrônomos profissionais e observadores amadores. Essa parceria permitiu cobertura geográfica simultânea em múltiplos pontos, essencial para confirmar o padrão de refração atmosférica. Os dados obtidos em Nagano e Fukushima foram consistentes, reforçando a conclusão de que a atmosfera é real.

O professor Arimatsu descreveu os resultados como “uma descoberta que derruba as visões convencionais”. O pesquisador ressaltou a importância de continuar investigando outros objetos transnetunianos para determinar se mais corpos celestes possuem atmosferas e compreender melhor os processos que as geram.

Futuro das observações do distante sistema solar

Próximas observações com o Telescópio Espacial James Webb devem lançar luz adicional sobre as propriedades dos objetos transnetunianos, incluindo composição química de suas atmosferas e processos de formação. A equipe de pesquisa planeja expandir o programa de observação móvel para investigar sistematicamente a presença ou ausência de atmosferas em outros corpos celestes dessa região.

A descoberta em 2002 XV93 abre novo capítulo na astronomia planetária. Sugere que mundos distantes e aparentemente inertes podem possuir atividade dinâmica inesperada, alterando fundamentalmente como cientistas pensam sobre evolução e características de corpos pequenos em órbitas extremas ao redor do Sol.

Bruna: Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.