Influenciadora Deolane Bezerra é detida em São Paulo por suspeita de lavagem de dinheiro do PCC
A advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra foi detida na manhã desta quinta-feira na região metropolitana de São Paulo. A ação integra a Operação Vérnix, deflagrada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil paulista. O objetivo central dos agentes de segurança é desarticular um esquema complexo de lavagem de dinheiro diretamente associado ao Primeiro Comando da Capital. Mandados de busca e apreensão também foram cumpridos simultaneamente em diversos endereços ligados à cúpula da organização criminosa.
Esta é a segunda vez que a influenciadora perde a liberdade em um intervalo inferior a um ano, somando-se a um histórico recente de embates com a Justiça. O caso atual envolve a ocultação de bens, repasses financeiros fracionados e transações que teriam beneficiado empresas registradas em seu nome. A investigação aponta que a estrutura financeira da facção utilizava negócios de fachada para movimentar recursos ilícitos no sistema bancário formal, distanciando o dinheiro de sua origem criminosa.
Prisão após retorno da Europa e alvos ligados a Marcola
A captura ocorreu apenas um dia após Deolane Bezerra desembarcar em território brasileiro. Ela passou as últimas semanas em Roma, na Itália, acompanhada de familiares. Durante esse período de permanência no exterior, as autoridades brasileiras solicitaram que seu nome fosse incluído na lista da Difusão Vermelha da Interpol. Essa medida a classificou como procurada internacionalmente, alertando polícias de fronteira em todo o mundo. Os policiais civis localizaram a advogada em sua residência principal, situada em um condomínio de alto padrão em Barueri, município da Grande São Paulo.
A operação expediu um total de seis mandados de prisão preventiva contra integrantes do esquema de lavagem. Everton de Souza foi preso sob a acusação formal de atuar como o principal operador financeiro do grupo, orquestrando as transferências. A ofensiva policial também mirou familiares diretos de Marco Herbas Camacho, o Marcola, apontado pelos órgãos de inteligência como o líder máximo da facção paulista.
Alejandro Camacho, irmão de Marcola, recebeu uma nova ordem de prisão preventiva enquanto já cumpre pena na Penitenciária Federal de Brasília, unidade de segurança máxima. Outros dois parentes do líder criminoso, identificados como Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, não foram localizados pelas equipes policiais durante as buscas matinais. Ambos são considerados foragidos da Justiça e há fortes indícios investigativos de que estejam escondidos fora do território nacional.
Descoberta do esquema financeiro e uso de transportadora
O rastreamento do fluxo financeiro começou há cinco anos, a partir de uma apreensão rotineira no sistema prisional paulista. Em 2019, agentes penais interceptaram manuscritos com dois detentos na Penitenciária II de Presidente Venceslau, no interior do estado. Os bilhetes continham diretrizes internas da organização criminosa e ordens expressas para monitorar a rotina de servidores públicos. Os responsáveis pelo material foram imediatamente isolados e transferidos para presídios federais.
Um dos trechos dos documentos apreendidos chamou a atenção dos investigadores ao mencionar uma funcionária de uma transportadora. Essa mulher seria a encarregada de levantar os endereços residenciais de agentes de segurança para subsidiar o planejamento de atentados. A partir dessa pista documental, a Polícia Civil instaurou um inquérito paralelo, focado exclusivamente em mapear a empresa de logística, seus proprietários legais e sua movimentação contábil.
As diligências revelaram que a transportadora, sediada em Presidente Venceslau, operava quase que exclusivamente como uma empresa de fachada. A Operação Lado a Lado, executada no ano de 2021, comprovou que o negócio apresentava um crescimento patrimonial totalmente incompatível com a realidade do mercado de fretes. A estrutura funcionava, na prática, como o braço financeiro responsável por injetar o dinheiro oriundo do tráfico de drogas na economia formal.
Técnica de fracionamento e bloqueio milionário de bens
A conexão direta com Deolane Bezerra surgiu após a análise minuciosa de um telefone celular apreendido pelas autoridades. O aparelho pertencia a Ciro Cesar Lemos, investigado por gerenciar as contas bancárias da facção. Os peritos criminais extraíram comprovantes de depósitos e conversas que indicavam transferências favorecendo diretamente as contas pessoais e empresariais da influenciadora digital.
Os relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras detalharam a mecânica dos repasses suspeitos. Entre os anos de 2018 e 2021, Deolane recebeu R$ 1.067.505,00 por meio de uma técnica de lavagem conhecida como smurfing. O método consiste em realizar múltiplos depósitos em valores inferiores a R$ 10 mil para evitar o acionamento dos sistemas de alerta do Banco Central. Everton de Souza era o responsável por coordenar e autorizar esses fechamentos contábeis mensais.
O poder judiciário autorizou a indisponibilidade de um vasto patrimônio ligado a todos os investigados na ação. Os números consolidados da Operação Vérnix demonstram a alta capacidade econômica da célula desarticulada:
- Bloqueio judicial de R$ 357,5 milhões em contas bancárias e aplicações financeiras do grupo criminoso.
- Apreensão de 39 veículos de luxo, com valor de mercado estimado em mais de R$ 8 milhões.
- Congelamento específico de R$ 27 milhões vinculados aos CPFs e CNPJs de Deolane Bezerra.
- Identificação de quase 50 depósitos irregulares, somando R$ 716 mil, originários de uma empresa que se apresentava como banco de crédito.
A Justiça paulista destacou em sua decisão que não foram encontrados contratos formais ou notas fiscais de prestação de serviços advocatícios que justificassem a entrada desses valores milionários. A tese dos investigadores aponta que a projeção pública da investigada, aliada à sua atividade empresarial, servia como uma camada de proteção legal para dificultar o rastreio do dinheiro ilícito pelo Estado.
Prisão anterior em Pernambuco e ascensão na internet
O histórico recente da advogada inclui outra detenção de grande repercussão nacional ocorrida há poucos meses. Em setembro de 2024, ela foi o principal alvo da Operação Integration, conduzida de forma ostensiva pela Polícia Civil de Pernambuco. A investigação nordestina focou em um esquema bilionário de lavagem de capitais operado por meio de plataformas de apostas esportivas e jogos de azar online não regulamentados.
Naquela ocasião específica, Deolane permaneceu encarcerada por cinco dias em uma unidade prisional feminina na cidade do Recife. A soltura ocorreu mediante a concessão de um habeas corpus, que impôs medidas cautelares rigorosas, incluindo o monitoramento constante por tornozeleira eletrônica. A polícia pernambucana rastreou a compra de 12 imóveis de alto padrão, avaliados em R$ 65 milhões, adquiridos em um intervalo de apenas três anos. O bloqueio total de bens daquela operação atingiu a marca de R$ 2,1 bilhões. A defesa sempre negou as acusações, alegando abuso de autoridade.
A figura pública de Deolane ganhou tração em todo o país em maio de 2021, após a morte trágica de seu marido, o cantor MC Kevin. O artista faleceu aos 23 anos ao cair da varanda de um quarto de hotel localizado na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro. A investigação conduzida pela Polícia Civil fluminense e a perícia oficial concluíram que a queda foi estritamente acidental, descartando qualquer hipótese de agressão prévia ou homicídio.
Desde o acidente fatal, ela consolidou sua imagem na internet e passou a atuar fortemente no mercado publicitário digital. Com mais de 21,7 milhões de seguidores apenas no Instagram, a rotina compartilhada envolvia viagens constantes para destinos luxuosos como Dubai, aquisição de veículos superesportivos e voos em aeronaves particulares. Todo esse material de ostentação publicado nas redes sociais passou a integrar os relatórios de investigação sobre a evolução patrimonial da suspeita, culminando na atual ofensiva policial.
Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.
