Brasil tem entre 100 e 150 milhões de raios por ano, aponta Inpe

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Raios, tempestade, chuva - Triff/Shutterstock.com Foto: Raios, tempestade, chuva - Triff/Shutterstock.com

O território brasileiro recebe entre 100 milhões e 150 milhões de raios por ano, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O volume coloca o país entre os três com maior incidência do fenômeno no planeta, ao lado da República Democrática do Congo e dos Estados Unidos. A extensão continental e a posição na faixa tropical ajudam a explicar a frequência das tempestades.

Em 2025, as descargas somaram 141 milhões no país. O pesquisador do Inpe Kleber Naccarato associa a tendência de alta ao aumento da temperatura do planeta. Em suas palavras: “A Terra já aqueceu quase 1,5°C nos últimos 100 anos. Quanto mais quente estiver o ambiente, maior a chance de formar tempestades e, assim, aumentar a atividade de raios.”

Mortes, atendimentos e projeções oficiais para os raios

  • Aumento estimado da incidência: de 15% a 40% a cada 1°C de alta na temperatura média global
  • Projeção do Inpe para 2100: perto ou acima de 200 milhões de raios por ano
  • Chance individual de uma pessoa ser atingida: uma em um milhão

Os números de vítimas de 2026 vieram do Ministério da Saúde e ainda dependem de consolidação final em painel público aberto. Uma reportagem recente citou 28 mortes em 2025 e 33 em 2024, com base em dados do ministério. A apuração não confirmou esses totais em consolidação oficial.

Por que o calor e a umidade multiplicam as tempestades

A combinação de calor intenso e umidade constante favorece a formação de nuvens carregadas em diversas regiões do país. Dentro dessas nuvens, colisões sucessivas entre partículas de gelo separam cargas elétricas. Quando a diferença de potencial vence a resistência do ar, surgem o clarão do raio e o trovão. Estimativas científicas associam cada 1°C de aumento na temperatura média da Terra a uma alta relevante na ocorrência de descargas, o que sustenta a projeção do Inpe para o fim do século.

Além do clima, mudanças no uso do solo também pesam. Desmatamento, poluição do ar e expansão urbana desordenada alteram a circulação dos ventos e ampliam as ilhas de calor. Esse cenário aumenta os riscos de desastres secundários, como queimadas espontâneas no Cerrado, interrupções graves no fornecimento de energia e deslizamentos de terra. Rochas atingidas por descargas elétricas podem ficar instáveis e favorecer esses deslizamentos.

Raios mataram 2.194 pessoas entre 2000 e 2019

Um levantamento do Grupo de Eletricidade Atmosférica do Inpe registrou 2.194 mortes por raios no país entre 2000 e 2019. Os homens responderam por 82% dos óbitos confirmados, e a faixa de 20 a 29 anos reuniu 24% dos casos fatais. Pelo mesmo estudo, 43% dos incidentes fatais ocorreram no verão e 33% na primavera, períodos de umidade e calor que favorecem tempestades fortes.

Raios
Foto: Raios – Ayesha Minted Art/ shutterstock.com

O levantamento também mostrou onde as vítimas estavam no momento da descarga fatal. Os principais locais aparecem na lista a seguir.

  • Zona rural: 26% das mortes, com predomínio de atividades agropecuárias
  • Dentro de casa: 21% dos óbitos, por correntes que percorreram fiações elétricas ou tubulações
  • Próximo à água: 9% dos casos, incluindo faixas de areia em praias, calçadões e pescarias
  • Embaixo de árvores: 9% das ocorrências em todo o país

Episódios que marcaram vítimas de raios desde 1996

Em 28 de fevereiro de 1996, o preparador físico Altair Ramos sobreviveu após ser atingido por um raio durante um treino de futebol na capital paulista. O caso ficou registrado como um dos sobreviventes mais citados desse tipo de acidente no país.

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Em 1 de dezembro de 1997, um raio atingiu a praia de Garopaba, em Santa Catarina. A descarga matou Cristian Duran e Aparecida Edileusa e feriu gravemente Gisely Bolanho.

Em 28 de agosto de 2026, a turista gaúcha Edinara Gonçalves Areze, de 39 anos, foi atingida por uma descarga elétrica na Praia da Pinheira, em Palhoça. O atendimento foi feito em caráter emergencial no local, com encaminhamento ao hospital da região.

Em 29 de agosto de 2026, a morte de Edinara Gonçalves Areze foi confirmada no Hospital Regional de São José. O caso ocorreu no período que o Ministério da Saúde usa para o balanço anual de vítimas.

Até agosto de 2026, o Ministério da Saúde computou 14 mortes por raios e 63 atendimentos hospitalares em unidades públicas do país. Esse balanço ainda será consolidado no painel oficial.

Orientações de abrigo e segurança durante tempestades

A meteorologista Rachel Albrecht, professora da Universidade de São Paulo (USP), defendeu o recolhimento imediato quando nuvens pesadas se aproximam. Segundo ela, “Se você escutou um trovão e está em um lugar aberto, você já está exposto”. A pesquisadora acrescentou que “reduzir o risco também passa por uma mudança de comportamento”.

O meteorologista Fabio Hochleitner, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou que “não existe uma forma de reduzir a quantidade de raios”. Por isso, ele orientou diminuir a exposição, seja direta ou indireta. Tendas, quiosques e árvores não garantem proteção, e a recomendação é buscar refúgio em edificações de alvenaria ou em veículos metálicos fechados.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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