SUS passa a oferecer terapia combinada para leucemia mieloide aguda em adultos com restrições à quimioterapiaPor Carolina Costa
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O Sistema Único de Saúde (SUS) agora disponibiliza o uso do medicamento venetoclax em conjunto com a azacitidina, uma nova abordagem para pacientes adultos recém-diagnosticados com leucemia mieloide aguda (LMA). A terapia é destinada especificamente a indivíduos que não podem ser submetidos à quimioterapia intensiva.
A medida foi formalizada com a publicação da decisão nesta última segunda-feira (15). Conforme a portaria oficial, os setores técnicos do Ministério da Saúde dispõem de até 180 dias para organizar e concretizar a disponibilidade do tratamento em toda a rede pública.
Esta importante incorporação beneficiará um grupo particular de pacientes que não são considerados aptos para os regimes tradicionais de quimioterapia, geralmente mais agressivos. Essa inaptidão pode ser decorrente de idade avançada, fragilidade clínica ou a presença de outras condições de saúde preexistentes, que antes limitavam severamente as opções de tratamento.
A leucemia mieloide aguda é um tipo de câncer que se desenvolve na medula óssea, o tecido vital para a produção de todas as células sanguíneas. A condição avança quando células anormais se multiplicam sem controle, prejudicando a fabricação normal de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.
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Entendendo os diferentes tipos de leucemia
Embora a leucemia seja frequentemente vista como uma única doença, ela compreende diversas categorias de câncer que afetam o sangue. Especialistas costumam classificar a condição em dois grupos principais: leucemias agudas e crônicas. Cada uma dessas subdivisões pode ser ainda mieloide ou linfoide.
As formas agudas da doença têm origem em células jovens e progridem rapidamente, exigindo intervenção médica e tratamento imediato para controlar sua evolução.
Em contraste, as leucemias crônicas se desenvolvem de maneira mais gradual e, em muitos casos, podem não apresentar sintomas por vários meses ou até anos, tornando o diagnóstico mais desafiador.
O onco-hematologista Breno Gusmão, que atua na Beneficência Portuguesa de São Paulo e é membro do Comitê Médico da Abrale, explicou ao g1 que “as leucemias agudas representam emergências clínicas por sua reprodução abrupta e a necessidade de tratamento agressivo e imediato. As crônicas, mais comuns em pessoas mais idosas, permitem uma gestão mais tranquila com os tratamentos atuais”.
A distinção entre leucemias mieloides e linfoides também possui relevância clínica. As mieloides afetam as células precursoras que dão origem a glóbulos vermelhos, plaquetas e algumas classes de glóbulos brancos. As linfoides, por sua vez, atingem os linfócitos, componentes essenciais para a defesa imunológica do corpo.
O oncologista Thiago Kaique, da Rede Mater Dei, ressaltou que “a leucemia mieloide aguda é uma forma agressiva que compromete o sistema de defesa do organismo e demanda quimioterapia, imunoterapia ou, em alguns casos, transplante de medula”.
Quais são os principais sinais e sintomas da leucemia
Os indícios mais comuns da doença incluem cansaço excessivo, palidez da pele, febre persistente, infecções recorrentes, surgimento espontâneo de hematomas e sangramentos pelo nariz ou gengivas.
A hematologista Joana Koury, integrante do Comitê de Leucemias Agudas da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), destacou que “pequenos sangramentos, como no nariz ou na gengiva, além de infecções repetidas, são sintomas de alerta que motivam o paciente a buscar ajuda médica. A medula comprometida para de produzir plaquetas e células de defesa, o que amplifica os sangramentos e as infecções”.
Adicionalmente, os pacientes podem experimentar perda de peso inexplicável, dores nos ossos e suores noturnos. Nas manifestações agudas da leucemia, esses sintomas costumam se manifestar em poucas semanas.
Como o novo tratamento se encaixa no diagnóstico e terapia
O diagnóstico da leucemia mieloide aguda geralmente tem início com a detecção de anomalias em um exame de hemograma. A confirmação da doença requer exames da medula óssea, como o mielograma, além de testes genéticos que são fundamentais para identificar mutações específicas e orientar a escolha do tratamento mais apropriado.
Joana Koury explicou que “o cariótipo e outros exames moleculares auxiliam a prever a resposta do paciente à quimioterapia ou a identificar um maior risco de recidiva. Isso não só define o subtipo, mas também direciona a estratégia terapêutica”.
Atualmente, pacientes diagnosticados com leucemia têm acesso a diversas abordagens terapêuticas, as quais são selecionadas com base no subtipo da doença e nas características genéticas individuais. Essas opções englobam a quimioterapia convencional, terapias-alvo, imunoterapia, medicamentos orais específicos e o transplante de medula óssea.
Ação do venetoclax e azacitidina, os medicamentos aprovados pelo SUS
O venetoclax faz parte do grupo das terapias-alvo, agindo diretamente para inibir proteínas que são cruciais para a sobrevivência das células tumorais. Paralelamente, a azacitidina atua na inibição do crescimento e da replicação das células doentes no organismo.
A combinação desses dois fármacos estabeleceu-se como uma das principais opções terapêuticas para pacientes com leucemia mieloide aguda que não toleram a quimioterapia intensiva. Esta situação é particularmente comum entre pessoas idosas e aquelas que possuem outras condições de saúde associadas, preenchendo uma lacuna importante no arsenal terapêutico para esta população vulnerável.
Sabrina Brant, onco-hematologista do Hospital Sírio-Libanês de Brasília, comentou: “Nos últimos anos, obtivemos avanços significativos que possibilitam a criação de estratégias personalizadas. Em pacientes mais jovens com certas mutações genéticas, as probabilidades de cura podem ser substancialmente maiores”.
A importância e os riscos do transplante de medula óssea
Em determinados casos, especialmente em pacientes mais jovens ou que apresentam um risco elevado de recaída da doença, o transplante de medula óssea continua sendo uma das intervenções terapêuticas mais relevantes e com potencial curativo.
Este procedimento envolve a destruição da medula óssea afetada, utilizando quimioterapia ou radioterapia, e sua posterior substituição por células-tronco saudáveis provenientes de um doador compatível.
Breno Gusmão alertou: “Mesmo com doadores 100% compatíveis, existe o risco de rejeição. Por essa razão, o paciente necessita de imunossupressores por vários meses. É um equilíbrio delicado entre evitar a rejeição e não tornar o organismo excessivamente vulnerável a infecções”.
Com a oficialização da portaria, a combinação de venetoclax e azacitidina está agora formalmente incluída no rol de tecnologias oferecidas pelo SUS. Este tratamento é indicado para pacientes com leucemia mieloide aguda recém-diagnosticada que não são elegíveis para a quimioterapia intensiva, com a previsão de que esteja disponível nos serviços públicos de saúde nos próximos seis meses.







