Exageros estéticos impulsionam looksmaxxing entre jovens e acendem alerta para a saúde no Brasil

Looksmaxxing

Looksmaxxing - Koshiro K/ Shutterstock.com

Recentemente, um episódio envolvendo o influenciador digital Ronan Androgenic, da Austrália, chamou a atenção ao ser impedido de embarcar em um voo de volta ao seu país. Ele retornava de uma cirurgia estética na Tailândia quando a equipe de bordo avaliou que sua condição de saúde estava comprometida, solicitando sua saída. O retorno de Ronan para casa foi adiado por alguns dias.

O nome de Ronan Androgenic já é familiar no ambiente online. Em suas plataformas digitais, ele compartilha detalhadamente as múltiplas cirurgias plásticas a que se submete, exibindo desde os desfechos das operações até o percurso clínico e o tempo de convalescença. Sua fisionomia, por vezes, adquire uma aparência imóvel. Em sua conta do Instagram, ele se autoidentifica como um praticante do looksmaxxing.

“O movimento looksmaxxing é marcado pela busca incessante de padrões de beleza que, em muitas situações, são inatingíveis”, pontua o cirurgião plástico André Maranhão, que atua como diretor do Departamento de Eventos Científicos da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Ele complementa que essas referências são comumente potencializadas por plataformas digitais, filtros e edições de imagem. “Muitos indivíduos, mesmo após atingirem um resultado estético considerado bom, persistem na procura por novas transformações”, adiciona o especialista.

Este fenômeno, looksmaxxing, concentra-se principalmente em adolescentes e jovens que declaram almejar o “máximo da estética corporal” para se tornarem, em sua percepção, mais desejáveis para o público feminino. A nomenclatura e os critérios desse movimento derivam de comunidades como os incels (indivíduos celibatários de forma involuntária) e outros círculos da machosfera. Os padrões estéticos valorizam, em especial, maxilares proeminentes, um tipo específico de olhar (“caçadores”, com leve inclinação superior) e a constituição física.

Influenciador enfrenta restrições de viagem devido à aparência alterada

Os padrões visuais também se estendem à forma física, incentivando regimes de exercícios extremos e dietas restritivas na busca por musculatura acentuada, independentemente dos riscos. Embora existam referências a essa prática online há cerca de uma década, o número de seguidores do looksmaxxing cresceu expressivamente, principalmente na plataforma TikTok. Para se adequarem a esses critérios, jovens e adultos recorrem a procedimentos estéticos, itens de beleza com promessas exageradas e até intervenções cirúrgicas, exemplificado pelo caso de Ronan.

Os participantes do movimento dividem suas ações em fases distintas: a inicial, denominada Softmaxxing, engloba “aprimoramentos suaves”, considerados naturais, reversíveis e de fácil acesso. Esta etapa abrange desde a utilização de cosméticos, mudanças no cabelo e barba, até a adesão a rotinas de exercícios físicos e planos alimentares. Por outro lado, o estágio mais intenso, conhecido como Hardmaxxing, envolve procedimentos estéticos de maior invasividade, como preenchimentos faciais e cirurgias plásticas. Vídeos chocantes divulgados mostram homens instruindo sobre atos de automutilação, incluindo golpes no rosto com martelos ou manipulação forçada da região ocular com outros utensílios.

O cenário do looksmaxxing no contexto brasileiro

A recente perda do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, no Brasil, gerou grande repercussão pública. O atleta havia chocado seus colegas ao revelar um ganho de peso de 20kg em apenas dois dias, um fato que intensificou o debate sobre a busca de padrões corporais inatingíveis por parte de jovens e o uso de substâncias como anabolizantes.

Gabriel Ganley – Instagram

Apesar de não ser uma tendência amplamente disseminada no território nacional, essa prática já suscita inquietações entre responsáveis e profissionais da área da saúde.

“As cirurgias plásticas são limitadas por aspectos anatômicos e biológicos. Há um limite onde procedimentos adicionais deixam de ser benéficos e começam a elevar os riscos, podendo afetar a naturalidade, a funcionalidade e até a segurança do indivíduo”, explica Maranhão. O cirurgião enfatiza que a função do especialista vai além da execução técnica, incluindo a análise criteriosa dos benefícios reais para o paciente. “Se as expectativas não condizem com a realidade, ou se há insatisfação contínua após várias operações ou indícios de transtorno dismórfico corporal, a opção mais ética pode ser a recusa do procedimento. A saúde mental é um componente essencial da prática médica de qualidade”, conclui Maranhão, ressaltando que a maioria dos homens que busca cirurgia plástica procura por resultados sutis, naturais e alinhados à sua própria imagem.

Médicos internacionais igualmente manifestam preocupação com a possibilidade de a prática transcender a busca por equilíbrio, transformando-se em uma obsessão com condutas perigosas à saúde e integridade física dos jovens. Embora o looksmaxxing possa ser encarado como um mero desdobramento da vaidade masculina, uma tendência global crescente, ele é sustentado pela retórica de grupos incel, que defendem a crença de que a atração feminina é primordialmente, se não exclusivamente, determinada pela aparência física masculina. Essa premissa direciona um discurso que fomenta o desprezo às mulheres, encontrando eco entre os jovens que iniciam sua vida sexual e se deparam com as primeiras experiências de rejeição.

O professor Andrew Thomas, psicólogo da Universidade de Swansea, enfatizou a necessidade desse apoio em seu trabalho “A psicologia do acasalamento dos Incels (Celibatários Involuntários: Infortúnios, Equívocos e Representações Erradas)”. Esta pesquisa foi veiculada na revista especializada The Journal of Sex Research.

Em declaração ao portal da universidade, o pesquisador esclareceu: “Nossos resultados sublinham a relevância de um suporte psicológico individualizado para os incels, uma vez que eles demonstram padrões de pensamento distorcidos sobre as relações sexuais, com potenciais reflexos negativos em suas interações sociais. Tais questões podem ser abordadas por meio de terapias cognitivo-comportamentais, visando corrigir essas falhas de percepção e mitigar o viés de confirmação que sustenta suas convicções prejudiciais.”

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