Uma mulher britânica compartilhou uma experiência traumática envolvendo a plataforma FabSwingers, um dos maiores sites de troca de casais do Reino Unido. Ruth O’Grady relata ter vivenciado abusos e um profundo trauma psicológico após participar de mais de cem atos sexuais com desconhecidos, facilitados pelo portal, ao longo de dezoito meses. Sua decisão de tornar a história pública, três anos após os acontecimentos, visa alertar outras mulheres sobre os perigos ocultos.
O’Grady direciona sua indignação tanto ao ex-marido, Chris, quanto ao FabSwingers. Ela acusa a plataforma, líder no segmento de troca de casais no Reino Unido, de ter proporcionado ao seu então parceiro uma vasta rede de homens para se relacionar com ela. A emissora BBC procurou Chris para comentar as alegações, mas não obteve retorno.
A prática de troca de casais, geralmente bilateral, pode também ocorrer de forma unilateral, com apenas um dos parceiros envolvido em encontros sexuais. A repercussão do caso de Ruth O’Grady impulsionou a BBC a conduzir uma investigação de oito meses, revelando que a participação voluntária, muitas vezes alegada, nem sempre corresponde à realidade. Para O’Grady, o FabSwingers atuou como mediador dos abusos sofridos.
Em sua defesa, a plataforma FabSwingers, que afirma ter 600 mil usuários ativos por mês, declarou à BBC que o consentimento é a base de todas as interações. Contudo, essa afirmação contrasta com dados de departamentos de polícia britânicos, que registraram centenas de boletins de ocorrência mencionando o site em crimes recentes, levantando sérias questões sobre a eficácia de suas políticas de consentimento.
A vivência de O’Grady, embora distinta do caso da francesa Gisèle Pelicot – que lutou pelo julgamento público de seus agressores –, foi inspirada pela ampla repercussão. A surpresa e o choque gerados pela história de Pelicot motivaram Ruth a dar voz à sua própria denúncia, percebendo que a sua experiência, embora igualmente grave, não despertava o mesmo espanto em si.
O começo da relação e o agravamento das pressões psicológicas
O relacionamento de Ruth e Chris, iniciado no País de Gales em 2008, foi marcado por constantes insistências do ex-marido para que ela se envolvesse sexualmente com outros homens, propostas às quais O’Grady resistia. Em 2021, durante uma crise de saúde mental de Ruth, Chris, atuando como seu cuidador, a teria induzido a se sentir culpada por expectativas frustradas na vida a dois. Nesse período, ele retomou a proposta de troca de casais, e após um longo e gradual processo de convencimento, que se estendeu por doze anos de convivência, ela finalmente cedeu.
Após o registro do casal no FabSwingers, Ruth O’Grady esperava participar de encontros com outros casais, mas a realidade divergiu para uma dinâmica unilateral. Ela se viu envolvida sexualmente com diversos homens da plataforma, muitas vezes sob a observação de Chris, que também esperava por perto ou estava ausente. Os locais variavam, de sua própria casa a veículos e estacionamentos, e em situações em que estava sozinha, a exigência era que ela filmasse os atos e enviasse as imagens ao ex-marido.
Com o passar dos meses, Ruth O’Grady descreve que sua rotina se intensificou para múltiplas relações sexuais semanais, chegando a ter quatro encontros em um único dia. Embora na época ela demonstrasse um entusiasmo aparente e até agendasse alguns desses encontros, hoje ela reitera que nunca houve um desejo genuíno de sua parte. Constantemente, ela comunicava ao marido seu desejo de parar, expressando o medo e o trauma que essas experiências lhe causavam. Apesar de algumas pausas, Chris retomava o agendamento de novos encontros, e Ruth acabava cedendo novamente.
Os encontros deixaram profundas cicatrizes em Ruth O’Grady, que contraiu infecções sexualmente transmissíveis e engravidou. Durante sua recuperação de um aborto espontâneo, o ex-marido chegou a marcar um novo encontro para que ela praticasse sexo oral. Nessas vivências, ela percebeu a completa indiferença de Chris em relação à sua dor e seu corpo, sentindo-se abusada por todos os homens envolvidos.
Para O’Grady, em certos momentos, fingir entusiasmo e cumprir o papel esperado era a maneira mais fácil de suportar e acelerar o fim dos encontros, superando a resistência. Ela se sentia invisível, notando que muitos homens sequer a olhavam nos olhos, o que a fazia sentir como se não existisse. Refletindo sobre o período, Ruth questiona a natureza consensual de qualquer ato, afirmando categoricamente: “Não. Eu não queria estar ali. Eu não queria estar [no site], para começar.”
Após denunciar o ex-marido, a polícia conduziu uma investigação por controle coercitivo e outras infrações, mas nenhuma acusação formal foi registrada. Durante o processo, foram apresentadas mensagens de WhatsApp do casal que, superficialmente, indicavam o entusiasmo de Ruth O’Grady com a prática. A experiência dela ressalta uma questão fundamental: como e por que indivíduos podem demonstrar aparente consentimento e até motivação para atos sexuais, mesmo quando não há desejo genuíno.
A visão de especialistas sobre o consentimento complexo
Especialistas na área afirmam que a questão do consentimento é intrinsecamente complexa. A professora Nicola Gavey, da Universidade de Auckland, Nova Zelândia, que pesquisa o sexo não desejado desde a década de 1980, explica que é bastante comum que indivíduos aparentem consentir em atividades sexuais mesmo sem desejo. Ela já ouviu diversos relatos que se assemelham à experiência de O’Grady, enfatizando que a pressão e a manipulação podem encobrir a falta de consentimento genuíno, e as vítimas podem levar um tempo considerável para processar o que realmente ocorreu.
Depoimentos de usuários da plataforma sugerem coação
Um usuário do FabSwingers, identificado como Martin (nome fictício), concordou em conceder entrevista à equipe de reportagem da BBC. Ele, que nunca se encontrou com O’Grady, revelou ter utilizado a plataforma por anos, resultando em cerca de cinquenta encontros sexuais, majoritariamente com mulheres casadas cujos maridos desejavam observar.
Martin afirmou que sempre tentou garantir o consentimento das mulheres que conheceu, mas admitiu que, em certas ocasiões, sentiu que algo estava errado ao entrar nos quartos. Ele acredita que mais da metade das mulheres com quem teve encontros na plataforma não desejavam realmente participar. O depoimento de Martin inclui uma situação em que ele percebeu medo nos olhos de uma mulher ao ser informada de que o marido a filmaria, levando-o a confessar, emocionado: “Eu deveria ter ido embora. Eu deveria ter denunciado de imediato.” Em outro encontro, ele viu uma mulher sendo coagida pelo marido e outro homem. Questionado se sentiu que estava estuprando alguém, ele respondeu “Sim”, afirmando que acreditava no consentimento da mulher até aquele ponto.
Diante das revelações da reportagem, o FabSwingers reiterou que sua plataforma não endossa, incentiva ou tolera a premissa de que discussões prévias online dispensem a necessidade de consentimento explícito no momento do encontro.
A plataforma FabSwingers e as inúmeras denúncias criminais
Com base na lei de liberdade de informação, a BBC solicitou a todas as 45 forças policiais do Reino Unido dados sobre boletins de ocorrência que mencionassem o portal FabSwingers desde o início de 2023. Até o final de abril de 2024, 39 dessas corporações responderam, com a Polícia Metropolitana de Londres, a maior do país, não fornecendo qualquer informação.
As forças policiais que responderam à solicitação identificaram 329 boletins de ocorrência citando o FabSwingers, abrangendo crimes como estupro, assédio, chantagem, perseguição, agressões e posse de pornografia extrema, além de outros delitos sexuais graves e comportamento controlador e coercitivo. Embora a simples menção do nome da plataforma nos registros não a torne diretamente responsável, os dados revelam sua presença recorrente em investigações de natureza séria. Além disso, 26 indivíduos foram acusados ou intimados em casos relacionados ao site, com 23 desses ainda em andamento, indicando um padrão preocupante de envolvimento da plataforma em incidentes criminais.
A BBC não estendeu sua investigação a outros sites britânicos de troca de casais. Enquanto o FabSwingers afirma que prioriza queixas sobre atividades não consensuais, agindo e colaborando com a polícia quando necessário, Ruth O’Grady expressou surpresa com essa declaração. Ela relata ter denunciado à plataforma ameaças de violência e estupro por parte de homens que conheceu através do site, mas, segundo seu testemunho, nenhuma ação foi tomada.
Para Rachel Horman-Brown, advogada conselheira-real honorária e especialista em abuso doméstico no Reino Unido, a história de Ruth O’Grady não é incomum. Ela já acompanhou dezenas de mulheres que relataram ter sido coagidas a participar de trocas de casais. Horman-Brown aponta que parceiros abusivos podem explorar essa prática, pois a vítima, sentindo culpa, tende a não denunciar. Além disso, a produção de vídeos e fotos explícitas, comum nesses ambientes, se torna uma “munição” potencial, exacerbando a vulnerabilidade da pessoa.
Grupos de apoio a sobreviventes de abuso corroboram esses padrões, recebendo relatos semelhantes. Charlotte Eastop, supervisora da linha de apoio nacional contra abusos da organização britânica Refuge, confirmou ter ouvido depoimentos de mulheres forçadas a participar de trocas de casais. Ela observa que muitas vítimas não identificam ou não sabem como descrever o abuso que sofrem, e expressou a esperança de que a denúncia de Ruth O’Grady possa encorajar e influenciar outras pessoas a buscar ajuda.
O resgate da liberdade e a jornada de superação do trauma
O’Grady relata que um episódio da série distópica “Black Mirror”, que abordava humilhação e degradação sexual, foi o ponto de virada para ela. Ao ver seu ex-marido achar o conteúdo engraçado, ela teve um despertar e compreendeu: “É isso o que você pensa de mim.” Após mais de dezoito meses na plataforma FabSwingers, ela informou Chris sobre sua decisão de deixar o site, mas ele continuou a pressioná-la para que encontrasse outros homens ou explorasse novas práticas sexuais.
Com o auxílio de apoio externo, Ruth O’Grady conseguiu desenvolver um plano para sair do relacionamento. Ela retirou discretamente documentos, roupas e dinheiro da residência, garantindo um local seguro para se abrigar. Em 2023, Ruth finalmente se separou do ex-marido e, desde então, não teve mais contato com ele. No entanto, ela ainda lida com profundos abalos emocionais e um nervosismo intenso em relação aos homens, a ponto de atos cotidianos, como tomar banho, desencadearem lembranças de suas preparações para os encontros no FabSwingers.
Ao ser questionada sobre os motivos de tornar sua história pública, Ruth O’Grady expressa que seu principal objetivo é impactar outras mulheres. Para ela, se ao menos uma pessoa se identificar com sua vivência e reconhecer que está em uma situação que não deseja, seu esforço terá valido a pena.

