Impacto da pressão e ansiedade em atletas e trabalhadores: como o cérebro reage ao desafio constante no esporte e nas empresas
A estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026, com um empate de 1 a 1 contra o Marrocos, levantou discussões sobre o desempenho da equipe. Tanto os jogadores quanto o treinador Carlo Ancelotti identificaram a ansiedade como um elemento-chave que impactou a performance do time.
“Houve certa apreensão, sim. No primeiro tempo, eles conseguiam escapar da nossa marcação e criavam jogadas ofensivas arriscadas. Deveríamos ter exercido maior domínio sobre o jogo”, declarou Ancelotti.
Além das declarações do comandante técnico, os defensores Danilo e Ibañez também mencionaram a inquietude como um fator que dificultou a atuação da equipe em sua partida inicial. Em torneios de grande porte, aspectos psicológicos podem alterar significativamente a escolha de estratégias, o foco e a produtividade.
A experiência ininterrupta de ser avaliado, a demanda por resultados imediatos, o receio de cometer erros, a comparação constante com outros e a incapacidade de desconectar-se são elementos presentes na rotina de inúmeros profissionais, tanto no cenário esportivo quanto no corporativo.
Conforme a análise de especialistas, o suporte psicológico tornou-se um componente essencial na preparação de atletas de alto rendimento, transcendendo seu papel anterior de mero acessório. Já no ambiente empresarial, a preocupação com o bem-estar mental frequentemente surge de forma reativa, apenas quando o esgotamento profissional já se instalou.
A influência da pressão nas funções cerebrais
Gustavo Drago, especialista em saúde, comportamento humano e alta performance, que atuou na preparação de diversos atletas olímpicos, esclarece que a conexão fundamental entre o universo esportivo e o profissional reside na essência da pressão e no modo como ela é interpretada por cada indivíduo.
Em seus estudos, ao monitorar desportistas de 16 diferentes disciplinas, Drago constatou que indivíduos expostos a cenários idênticos apresentavam reações fisiológicas, emocionais e comportamentais distintas.
Uma ilustração evidente dessa variação é percebida ao contrastar competições realizadas no território nacional com aquelas disputadas em solo estrangeiro.
Determinados atletas viam o contexto desafiador como um perigo. Essa interpretação desencadeava uma resposta biológica quantificável, incluindo elevação dos níveis de cortisol, modificações no sistema imunológico e atitudes mais titubeantes, como um menor vigor físico e escolhas menos assertivas.
Contudo, outros esportistas demonstravam uma reação inversa. Frente à mesma tensão, consideravam a situação um incentivo, o que se correlacionava com o aumento da testosterona livre, uma maior vigorosidade e condutas mais assertivas em competição.
Essa perspectiva é útil para compreender por que contextos de trabalho análogos podem resultar em vivências tão díspares para diferentes pessoas.
É possível que dois indivíduos atuem sob a mesma meta, na mesma equipe e com a mesma liderança; no entanto, enquanto um mantém sua estabilidade emocional, o outro se encontra em um permanente estado de prontidão e tensão, detalha o pesquisador.
Tal condição acarreta um custo significativo para a capacidade cognitiva. Quando a mente percebe o ambiente como uma ameaça persistente, ela redireciona suas energias para a autopreservação, explica o especialista. O foco integral na tarefa é comprometido, dividindo-se com preocupações sobre falhas, avaliação externa, exclusão ou receio de perder sua posição.
Consequentemente, a criatividade é diminuída, a capacidade de decisão é afetada negativamente, a ansiedade se intensifica e padrões de comportamento defensivos são incentivados, como a postergação, o perfeccionismo exagerado e a relutância em introduzir novidades.
No cenário esportivo, esse processo pode levar um atleta a titubear em uma etapa crucial. No contexto profissional, ele se manifesta em indivíduos com alta capacidade técnica que, ainda assim, não conseguem alcançar o desempenho esperado sob condições de grande pressão.
- A mesma tensão pode ser interpretada como um perigo ou um estímulo.
- Ao detectar uma ameaça, o sistema cerebral ativa um estado de prontidão e prioriza a defesa pessoal.
- Este processo pode impactar adversamente a criatividade, a escolha de ações e o rendimento.
Na avaliação de Drago, a persistência prolongada em um estado de vigilância contínua constitui um dos aspectos mais problemáticos do cenário corporativo contemporâneo.
“A mente humana percebe a incerteza constante como um risco, e essa percepção impacta diretamente a capacidade de execução”, declara o especialista.
A rotina de avaliação contínua
Thiago Brehmer, sócio-líder de Auditoria da CLA Brasil, aponta que essa dinâmica é intensificada por arranjos corporativos que enfatizam a checagem ininterrupta e objetivos de curto prazo.
“Há uma convergência entre a pressão por resultados e o sentimento permanente de ser analisado, tanto no esporte quanto no contexto profissional”, afirma Brehmer.
Conforme sua análise, a questão se torna mais crítica em culturas onde a falha é vista como um defeito moral, em vez de um estágio natural do aprendizado, intensificando o temor, a autoexigência e a incerteza pessoal.
A hiperconectividade adicionou novas dimensões a essa pressão, de acordo com Brehmer. Se no passado existia uma distinção mais evidente entre períodos de demanda e de repouso, atualmente a sensação de ser avaliado parece constante.
Desportistas enfrentam julgamentos instantâneos nas redes sociais. Profissionais, por sua vez, lidam com medições contínuas, visibilidade digital e comparações incessantes em plataformas de carreira.
O desfecho é uma percepção de que a performance deve ser constante. E é precisamente aqui que o esporte se distingue, não por estar isento de pressão, mas por possuir um preparo estruturado para lidar com ela.
No contexto de alto rendimento, a expectativa não é que o atleta simplesmente resista à pressão. Ele é capacitado para gerenciá-la antes mesmo que ela se manifeste. Há uma preparação organizada que abrange táticas de visualização, regulação emocional, concentração e estratégias de recuperação após falhas. A finalidade é mitigar a incerteza e familiarizar a mente com cenários desafiadores.
No ambiente empresarial, essas abordagens estão começando a ser adotadas, porém de maneira menos organizada, conforme Brehmer. A visualização, por exemplo, capacita o cérebro a prever situações, atenuando a percepção de perigo. Ao praticar mentalmente uma apresentação ou uma rodada de negociações, o profissional eleva a previsibilidade e reduz a impulsividade. Essa mudança reflete uma crescente conscientização, especialmente intensificada nos últimos anos, sobre a saúde mental no trabalho, impulsionando empresas a investirem mais ativamente em bem-estar e resiliência psicológica de seus colaboradores.
Uma outra tática fundamental consiste em focar a atenção em elementos que podem ser controlados pelo indivíduo.
Em modalidades aquáticas, um nadador pode concentrar-se no total de braçadas, na cadência e na respiração. No contexto profissional, isso se traduz em dedicar-se à preparação, à lucidez do pensamento, ao aprimoramento técnico e à execução, em vez de se preocupar com a opinião alheia ou o receio de errar.
De acordo com os especialistas, essa reorientação tem um impacto direto no cérebro: ela diminui a sensação de perigo e potencializa a capacidade de concentração e a eficácia cognitiva.
Como lidar com as decepções
Uma similaridade adicional entre o esporte de alta performance e o ambiente empresarial reside na maneira como os indivíduos reagem a frustrações e a expectativas que não foram concretizadas.
No campo esportivo, a exclusão de uma lista de convocados pode provocar um abalo emocional profundo após anos de dedicação. Na esfera profissional, cenários como a não obtenção de uma promoção ou a perda de uma oportunidade estratégica geram um impacto comparável.
“Para muitos, uma parcela significativa da identidade é construída com base no desempenho”, observa Drago.
O perigo emerge quando a frustração deixa de ser vista como um evento isolado e passa a ser assimilada como uma característica definidora da pessoa. Trata-se da metamorfose da percepção de “eu não obtive sucesso” para “eu não sou competente”.
Segundo os especialistas, essa transformação assinala a transição de uma frustração construtiva para uma destrutiva, capaz de minar a autoestima, intensificar a ansiedade e contribuir para o desenvolvimento de condições de saúde mental adversas.
No universo esportivo, a experiência com as derrotas é um pilar fundamental da formação. Desde cedo, atletas assimilam que perder é um componente intrínseco do percurso e elaboram estratégias para converter a frustração em capacidade de adaptação.
Contudo, no contexto empresarial, essa mentalidade ainda se encontra menos estabelecida. “Muitas empresas ainda focam na busca por êxito instantâneo, em vez de priorizar o desenvolvimento progressivo”, declara Brehmer.
Tal distinção se reflete também em outro aspecto crucial: o processo de recuperação.
A relação entre descanso e alta produtividade
No cenário de esporte de elite, o repouso não é encarado como um período de inatividade improdutiva. Ele integra, na verdade, a própria estratégia para otimizar o desempenho.
O monitoramento das funções fisiológicas, o gerenciamento da carga de treinamento, o apoio psicológico e as metodologias de recuperação são empregados especificamente para prevenir a diminuição do rendimento e o esgotamento profissional. A premissa é clara: a tensão sem o devido descanso compromete a performance.
No entanto, no universo corporativo, ainda prevalece a ligação entre produtividade e uma presença ininterrupta. A hiperconectividade, as longas jornadas de trabalho e a dificuldade em se desconectar geram um ambiente onde o estado de alerta deixa de ser uma ocorrência excepcional para se tornar a norma.
Brehmer ainda argumenta que “o cérebro humano não foi concebido para funcionar incessantemente sob condições de ameaça”. Os resultados dessa condição manifestam-se gradualmente: ansiedade, problemas de sono, declínio na capacidade de foco, diminuição da criatividade, esgotamento emocional e uma elevação no risco de síndrome de burnout.
Adicionalmente, contextos caracterizados pela instabilidade psicológica tendem a frear a inovação e a qualidade das deliberações, uma vez que os trabalhadores adotam uma postura voltada para a prevenção de falhas, em detrimento da busca por geração de resultados.
De acordo com Drago, um dos debates mais cruciais para o futuro será a compreensão de que um desempenho duradouro não é meramente fruto da exigência. Ele está intrinsecamente ligado a elementos como a confiança, a independência, a segurança psicológica e a sensação de fazer parte de algo.
Ou seja, a sustentabilidade da performance está atrelada a ensinamentos que o esporte de alto rendimento já incorporou há tempos.
















